Romagem de homenagem aos Tarrafalistas

tarrafal.jpgDia 25 de Fevereiro, próximo Sábado, a URAP presta homenagem aos resistentes antifascistas assassinados no Campo de Concentração do Tarrafal. Esta Romagem, que se realiza anualmente, terá lugar junto ao mausoléu dos tarrafalistas, no Cemitério do Alto de S. João, Lisboa, às 11h. Apelamos à participação de todos os democratas.

«Ao cabo de Cabo Verde / dobrado o cabo da guerra /quando o mar sabia a sede / e o sangue sabia a terra / acabou por ser mais forte / a esperança perseguida/ porque aconteceu a morte /sem que se acabasse a vida.

 

Ao cabo de Cabo Verde
dobrado o cabo da guerra
quando o mar sabia a sede
e o sangue sabia a terra
acabou por ser mais forte
a esperança perseguida
porque aconteceu a morte
sem que se acabasse a vida. 

Ao cabo de Cabo Verde
no campo do Tarrafal
é que o futuro se ergue
verde-rubro Portugal
é que o passado se perde
na tumba colonial,
ao cabo de Cabo Verde
não morreu o ideal.
Entre o chicote e a malária
entre a fome e as bilioses
os mártires da classe operária
recuperam suas vozes.
E vêm dizer aqui
do cabo de Cabo Verde
que não morreram ali
porque a esperança não se perde.
Bento Gonçalves torneiro
ainda trabalhas o ferro
deste povo verdadeiro
sem a ferrugem do erro.
Caldeira de nome Alfredo
fervilham no teu caixão
contra o ódio e contra o medo
gérmens de trigo e de pão.
E tu também Araújo
e tu também Castelhano
e também cada marujo
que morreu a todo o pano.
Todos vivos! Todos nossos!
vinte trinta cem ou mil
nenhum de vós é só ossos
sois todos cravos de Abril!
No campo do Tarrafal
no sítio da frigideira
hasteava Portugal
a sua maior bandeira.
Bandeira feita em segredo
com as agulhas das dores
pois o tempo do degredo
mudava o sentido às cores:
o verde de Cabo Verde
o chão da reforma agrária
e o Sol vermelho esta sede
duma água proletária.
Do cabo de Cabo Verde
chegam tão vivos os mortos
que um monumento se ergue
para cama dos seus corpos.
Pois se o sono é como o vento
que motiva um golpe de asa
é a vida o monumento
dos que voltaram a casa.»

José Carlos Ary dos Santos

poema feito quando da trasladação para Portugal dos restos mortais dos 32 resistentes assassinados no Tarrafal)