URAP homenageia presos políticos do concelho de Vila Franca de Xira

homenagem_presos_vfx-1.jpg"Num amanhã rutilante que vem perto, quando findar a noite ilegal que nos ensombra (...) Bandeiras vermelhas como o sangue dos mártires hão-de envolver os vossos corpos. Braçadas de flores de todos os jardins proletários se desfolharão sobre vós. Bocas que não sabiam cantar hão-de entoar um hino revolucionário. E hão-de brotar lágrimas, tão puras como as lágrimas da tua companheira".

Este extracto de um texto de Soeiro Pereira Gomes, escrito quando Alfredo Diniz (Alex) foi assassinado, foi lido por Marília Villaverde Cabral na noite do passado dia 29 de Junho na Praça 7 de Maio, em Alhandra, numa sessão destinada a homenagear os antigos presos políticos naturais do Concelho de Vila Franca de Xira.

homenagem_presos_vfx-3.jpgPromovida pelo núcleo da URAP do Concelho de Vila Franca de Xira, a sessão reuniu várias centenas de pessoas, entre as quais "alguns dos sobreviventes do período negro do país e doloroso na vida de cada um dos presos e de suas famílias", como diria Domingos Abrantes, outro orador na sessão, que interveio como ex-preso político e em nome destes.

Marília Villaverde recordou que Alhandra "é terra de um grande património de luta e que não se pode deixar de lembrar as heróicas greves de 8 e 9 de Maio de 44, corolário de uma série de lutas pelo pão e pela sobrevivência".

No mesmo sentido, Domingos Abrantes lembrou que "embora o levantamento das vítimas da repressão no Concelho esteja longe de estar feito - lembremos tão só que aquando das greves de 44, foram presas centenas de pessoas, que se desencadeou uma verdadeira caça ao homem e que o número dos que foram entregues à PIDE e sujeitos a interrogatórios para elaboração de processos rondou a centena - podemos afirmar que o número de prisões efectuadas na região, se contam por centenas".

" Alguns destes presos passaram longos anos nas cadeias do Aljube, Caxias, Peniche, Tarrafal, como foram os casos do Josué Romão (...), António Dias Lourenço (...), Severiano Falcão (...), Sofia Ferreira (...), Octávio Pato, Dias Lourenço (...) e Ivone Dias Lourenço (...), só para referir os casos mais significativos (...). (...) No conjunto, o tempo de prisão dos presos políticos do Concelho de Vila Franca de Xira ultrapassará seguramente dois séculos", disse.

Para Domingos Abrantes, "não deixar esquecer que o fascismo existiu e o que representou para os trabalhadores e o povo, a sujeição de Portugal durante 48 anos à ditadura fascista, é uma exigência do nosso tempo, uma exigência da luta pela defesa da liberdade conquistada à custa de inúmeros sacrifícios".

homenagem_presos_vfx-coro_lopes_graca.jpgNo mesmo sentido e para que isso não aconteça, Marília Villaverde contou que " no mês passado, a URAP em colaboração com a FIR, o Instituto de Veteranos da Bélgica e a Fundação de Auschwitz, organizou uma viagem ao Campo de Concentração de Auschwitz-Birkenau, que juntou 1000 jovens de toda a Europa, entre eles 108 portugueses".

"A visita ao Campo de Concentração e de extermínio, dando a conhecer o sistema nazi de genocídio e o contacto directo com vítimas do fascismo, contribuirá, por certo, para o desenvolvimento da consciência democrática e dos valores dos direitos humanos dos jovens que participaram", afirmou a coordenadora da URAP, para garantir que "a URAP tem-se esforçado por repôr a verdade histórica, enfrentando uma política que se tem desenvolvido há anos e que visa o branqueamento da ditadura fascista, dos seus crimes e que, consequentemente, desvaloriza o papel da Resistência".

No final das intervenções ouviu-se "25 de Abril sempre, fascismo nunca mais!". Foi o grito de protesto e de certeza que os democratas não deixarão que o fascismo regresse a Portugal.

homenagem_presos_vfx-poesia.jpgMas o povo saiu à rua em Alhandra para escutar também o Coro Lopes Graças, da Academia dos Amadores de Música, que entoou diversas canções heróicas, muito aplaudidas pelos presentes, e ouvir poesias ditas por António Nabais (ex-preso político) e Carla Tavares (do grupo de teatro "Cegada de Alverca").

A canção "Grândola Vila Morena" encerrou o evento, acompanhada, de pé, por todos os participantes, seguindo-se a entrega do poema "Hino de Caxias", em rolo tipo pergaminho, a todos os ex-presos e familiares presentes.

 

 

 

homenagem_presos_vfx-2.jpgEsta sessão só foi possível graças ao apoio e ao trabalho de várias organizações: a APAC - Póvoa de Santa Iria, a Sociedade Filarmónica Recreio Alverquense, as Juntas de Freguesia de Alhandra, Alverca, Castanheira e Vialonga e muitos amigos da URAP, a quem agradecemos.