As ondas da liberdade - A Rádio Portugal Livre ao serviço do povo e do país

rdio_portugal_livre-20120920.jpg"Com este pode-se ouvir a voz da menina", perguntavam muitas vezes aos lojistas no Alentejo, antes do 25 de Abril de 1974, as pessoas que iam comprar um aparelho de rádio.

Este episódio foi contado por Aurélio Santos, responsável e locutor da Rádio Portugal Livre, no dia 16 de Setembro passado, numa conferência promovida pela URAP e a Biblioteca-Museu República e Resistência no edifício Grandella, em Benfica.

A "menina" era Veríssima Rodrigues, que com Aurélio Santos, Maria da Piedade Morgadinho, Margarida Tengarrinha e Zeferino Coelho formavam a equipa de locutores da rádio clandestina do Partido Comunista Português.

Na conferência intitulada "Rádio Portugal Livre-Emissora ao Serviço do Povo e do País", inserida no ciclo "As Ondas da Liberdade", estiveram mais de duas dezenas de pessoas e nela intervieram Aurélio Gomes e Zeferino Coelho.

A Rádio Portugal Livre (RPL), muito escutada em Portugal, emitiu entre o início de 1962 e Outubro da 1974 e os seus estúdios situavam-se em Bucareste, na Roménia então socialista.

O início das emissões da Rádio Portugal Livre data do início de 1962, após um processo de solidariedade internacional que contou com o apoio da URSS, Checoslováquia, Roménia e Hungria.

A RPL funcionava em moldes totalmente autónomos em relação ao Estado romeno e respondia perante as orientações da direcção do PCP. Visava informar, esclarecer e denunciar, livre da censura do regime, as lutas que se desenrolavam no interior do país, dos trabalhadores, do campesinato, do movimento antifascista, transmitindo a opinião e as orientações do PCP para as organizações clandestinas e para os democratas em geral.

Os oradores, Aurélio Gomes e Zeferino Coelho, lembraram reportagens e entrevistas emitidas pela RPL, nomeadamente, durante a guerra do Vietname, o Congresso Mundial da Paz e com dirigentes dos movimentos de libertação das colónias portuguesas em zonas libertadas.

Realçaram as entrevistas feitas a dirigentes históricos do PCP, como Álvaro Cunhal, Manuel Rodrigues da Silva, António Gervásio e Dias Lourenço, e a responsáveis de movimentos de libertação como Amílcar Cabral e Agostinho Neto.

A entrevista, realizada em Argel, na sede da Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN), feita a Humberto Delgado, Álvaro Cunhal e Ruy Luís Gomes, foi igualmente um ponto alto do trabalho da RPL.

A RPL acompanhou a queda de Salazar e os últimos anos do fascismo sob a presidência de Marcelo Caetano, desmascarando a chamada "liberalização" do regime. Nas suas emissões insistiu sempre na necessidade do derrube, pela força, do regime fascista.


Após o 25 de Abril de 1974, a RPL manteve ainda durante seis meses as suas emissões. Relatou o que se passava em Portugal e acompanhou o período de instabilidade política que então se viveu.

"Nós continuávamos na clandestinidade, enquanto o país já vivia em liberdade!", disse Zeferino Coelho.

Na altura do 28 de Setembro de 1974, durante a intentona contra-revolucionária conhecida como "Maioria Silenciosa", a RPL transmitiu informações diárias dos factos e das posições políticas do PCP, até à derrota dos objectivos desta intentona, com o afastamento de Spínola e parceiros.

Após a realização do VII Congresso (Extraordinário) do PCP, em Outubro de 1974, a RPL decidiu suspender as emissões e foi Aurélio Santos que o anunciou. A RPL tinha cumprido a missão para que fora criada.

Para os organizadores da conferência, a evocação da Rádio Portugal Livre neste ciclo prende-se com a actual situação vivida em Portugal, com a destruição dos direitos sociais, conquistados pelos povos europeus a seguir à II Guerra Mundial.

A par da ascenso da luta de massas por toda a Europa, surgem fenómenos de recuperação, nalguns países, da ideologia fascista e nazi, incluindo decisões de alguns governos (República Checa, Lituânia, etc.) que pretendendo apagar a memória histórica, usando a criminalização do comunismo, mais não visam do que afastar o descontentamento em relação às suas políticas anti-sociais.

A finalizar a conferência, Aurélio Santos afirmou: " Não é nossa intenção voltarmos a reactivar a Rádio Portugal Livre, mas antes deixar um alerta aos democratas, aos jovens e ao povo em geral, que é imperioso lutar contra estas tentativas de regresso a um passado doloroso de que a RPL é um símbolo ainda hoje".