Homenagem às vítimas do fascismo que tombaram no Tarrafal

romagem_tarrafalistas_1«Quem vem para o Tarrafal vem para morrer!», dizia Manuel dos Reis, director do Campo de Concentração do Tarrafal, criado em 1936 na chamada «Colonia Penal» do Tarrafal, numa das piores zonas climáticas, a Achada Grande, na Ilha de Santiago, Cabo Verde.

Uma breve história deste período foi relatada por Celestina Leão, membro do Conselho Directivo da URAP, dia 16 de Março, no cemitério do Alto de S. João, em Lisboa, junto ao Mausoléu dos Tarrafalistas, às cerca de 150 pessoas que, debaixo de chuva, prestaram homenagem aos combatentes e resistentes na luta contra o fascismo, que morreram no Tarrafal.

 

Celestina Leão, introduzida por Encarnação Raminho, igualmente da direcção, que procedeu à abertura da cerimónia sublinhando a importância da transladação dos corpos dos tarrafalistas para Lisboa, em 1978, e da existência do Mausoléu, falou do período histórico que antecedeu a abertura do campo.

«Logo no início da ditadura fascista, registou-se no país um poderoso surto de lutas sociais e políticas. A primeira revolta armada surgiu em 1927, apoiada por milhares de populares. A sua repressão provocou centenas de mortos, feridos e deportados», disse. «Seguiu-se a revolta do Batalhão de Caçadores 7, em 1928. Três anos depois explodiu a revolta da Madeira que se manteve durante 25 dias, enfrentando as forças do Governo», contou, acrescentando que se «seguiram as revoltas dos deportados políticos da Ilha Terceira, em S. Tomé, em Cabo Verde e na Guiné».

romagem_tarrafalistas_4Para Celestina Leão, «a fascização do Estado português desenvolveu-se tomando como modelo o fascismo de Mussolini e posteriormente o nazismo de Hitler. Em simultâneo cresceram as lutas contra aquela concepção de "Estado forte", que na prática significou: repressão, abolição de partidos, eliminação de sindicatos livres, imposição da censura falada ou escrita, etc.».

«Em 1934, na luta contra a fascização dos sindicatos, destacou-se a Revolta dos trabalhadores da Marinha Grande com a ocupação da Vila e a intervenção da GNR, que prendeu dezenas de manifestantes», destacou, salientando ainda que em 1935, os funcionários públicos «passam a ser obrigados a assinar uma declaração anticomunista. Em consequência foram demitidos milhares de funcionários que não deram provas de aceitar tal medida. Em 1936 revoltaram-se os marinheiros dos navios Dão e Afonso de Albuquerque».

 

Memória e vigilância

 

romagem_tarrafalistas_3Entretanto, referiu ainda Celestina Leão, o avanço do fascismo pela Europa «matava e aprisionava populações quase inteiras, criando para o seu aprisionamento um elevado número de campos de concentração, de inspiração hitleriana, visando o extermínio dos prisioneiros. Foi um processo iniciado na Alemanha que rápido se alargou a toda a Europa». Foi neste quadro de protestos atrás descrito, que a ditadura de Salazar decidiu criar também um campo de morte lenta para aí concentrar os mais destacados lutadores antifascistas e aterrorizar o povo, explicou a dirigente.

Depois de lembrar ainda que o próprio médico para ali destacado dizia «não estou aqui para tratar, estou para passar certidões de óbito», a oradora apelou à defesa e consolidação das liberdades democráticas, à vigilância popular, ao reconhecimento público dos direitos e da autoridade moral dos combatentes da resistência antifascista, divulgação das violências do regime fascista, bem como quaisquer ofensivas de carácter fascista cometidas no Portugal democrático, responsabilizando os seus autores.

romagem_tarrafalistas_2Na cerimónia, que a URAP realiza anualmente, «para que os portugueses não esqueçam o que foi o fascismo e as atrocidades cometidas durante 48 anos», como sublinhou Encarnação Raminho, participou também o grupo Jograis Ú...tópicos com a leitura de alguns poemas da autoria de Eugénia Cunhal, Manuel da Fonseca, Domingos Lobo, Glória Marreiros, Armindo Rodrigues, José Gomes Ferreira e Ary dos Santos.

A canção Grândola Vila Morena, de José Afonso, que depois de contra senha dos militares de Abril se tornou hino de resistência e luta, fechou o evento, seguida do Hino Nacional.

 

 

Ver intervenção de Celestina Leão, Conselho Directivo da URAP