José Barata homenageado pela URAP no 97º aniversário

homenagem jose barata1(...) Entre o chicote e a malária/entre a fome e as bilioses/os mártires da classe operária/recuperam suas vozes./E vêm dizer aqui/do cabo de Cabo Verde/que não morrem ali/porque a esperança não se perde. (...) Ary dos Santos

José Barata, insurrecto da "Revolta dos Marinheiros" contra a ditadura, em Setembro de 1936, deportado em seguida para o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, foi homenageado publicamente pela URAP por ocasião do seu 97º aniversário.

A sessão decorreu dia 31 de Agosto no Clube da Estefânia, em Lisboa, e contou com uma sala repleta de amigos, familiares de ex-tarrafalistas, camaradas de armas, membros da URAP e personalidades convidadas, tais como representantes da Associação 25 de Abril, Associação Praças da Armada, Associação dos Sargentos da Armada, Confederação das Colectividades, Clube Estefânia, Teatro de Mulheres, Movimento Democrático de Mulheres, PCP e CGTP.


homenagem jose barata 2José Barata, com apenas 20 anos, foi um dos marinheiros, membro da O.R.A (Organização Revolucionária da Armada), com ligações ao PCP, que participou na acção revolucionária que se apossou dos navios «Dão», «Afonso de Albuquerque» e «Bartolomeu Dias».

Como José Barata contou, a Revolta dos Marinheiros começou com a degradação do salário e com a luta promovida e orientada pela ORA. Eram todos jovens e eram todos praças - não havia entre eles nenhum oficial. Os navios estavam proibidos de aportar em Espanha em portos controlados pela República, só o podiam fazer naqueles tomados pelos fascistas. Houve alguns marinheiros que desafiaram esta ordem e logo foram expulsos e presos pela PIDE. A revolta surgiu, pois, num movimento de solidariedade com esses camaradas e contra o governo fascista dirigido por Salazar.

Depois da operação ter abortado, o governo fascista exerceu a maior repressão sobre os marinheiros envolvidos, sendo José Barata um dos primeiros 152 presos políticos a ser desterrado para o Tarrafal, criado nesse ano por Salazar. Bento Gonçalves, secretário-geral do PCP seria outro dos presos da Colónia Penal do Tarrafal, onde viria a morrer em 1942 vítima de biliose.





homenagem jose barata 3Na sessão, coordenada por José Pedro Soares, para além do homenageado, usaram da palavra Celestina Leão, Feliciano David e José Pedro Soares, após o que se seguiu um debate.

José Pedro Soares, que foi também preso e torturado pela PIDE em 1970, apenas com 18, fez o elogio do homenageado e uma análise abrangente sobre o Tarrafal e a luta de resistência ao fascismo, referindo-se ainda à actual crise política.

Celestina Leão relatou a entrevista que fez a José Barata, em 2010, sobre a Revolta dos Marinheiros em que ele recorda os motivos que o levaram, e aos seus camaradas de armas, a sublevar-se e que constitui um testemunho da maior importância.

Feliciano David saudou o homenageado pela sua coragem e coerência ao longo da vida, referiu-se às privações e torturas a que eram submetidos os prisioneiros no Tarrafal, fez o enquadramento político da Revolta na conjuntura da luta contra a ditadura de Salazar, bem como uma análise contextualizada dos movimentos nazi/fascistas que então assolavam pela Europa.

O orador concluiu com uma abordagem sobre a profunda crise social que o governo actual tem imposto ao país que põe em causa o estado social e leva ao desemprego e à miséria de milhares de portugueses.

A anteceder as intervenções foi projectada uma apresentação multimédia, realizada por Olga Macedo, sobre a Revolta dos Marinheiros e a vida do José Barata, um dos heróis portugueses na luta contra o fascismo, agraciado pelo presidente Jorge Sampaio com a Comenda da Ordem da Liberdade.

Seguiu-se um debate entre os cerca de 150 participantes, em que intervieram, nomeadamente, Domingos Abrantes, que referiu um facto menos conhecido na Revolta dos Marinheiros, a morte de dez os revoltosos, e o Almirante Martins Guerreiro, que lembrou acontecimentos que precederam a Revolução de Abril de 1974.

brochura tarrafalnuncamaisDe destacar ainda o lançamento de uma brochura editada pela URAP, intitulada "Tarrafal Nunca Mais", que faz uma abordagem sobre a Colónia Penal, bem como uma reportagem sobre o Simpósio Internacional ocorrido em Abril de 2009, em Cabo Verde, com a presença de 40 antifascistas portugueses que visitaram o antigo campo de concentração.

Intervenção de Feliciano David

Intervenção de Celestina Leão