Tarrafalistas Homenageados junto ao Mausoléu

tarrafalistas 5O campo era "um rectângulo de arame farpado, exteriormente contornado por uma vala de quatro metros de largura e três de profundidade. Está encravado numa planície que o mar limita pelo poente e uma cadeia de montes por Norte, Sul e nascente". Lá dentro, "quatro barracões sem higiene, algumas barracas de madeira, nas quais estão instaladas as oficinas e o balneário, uma cozinha, sem condições de asseio, e algumas árvores", assim descreveu Pedro Soares o Campo de Concentração do Tarrafal.



tarrafalistas 6Pedro Soares, um dos 352 presos políticos enviado para o Tarrafal, continua: "A falta de vegetação, os montes escarpados, o mar e o isolamento a que os presos estão submetidos, dão à vida, aí, uma monotonia que torna mais insuportável o cativeiro". Para além disto, havia também "os castigos e os enxovalhos, os trabalhos forçados, as doenças e a morte de alguns companheiros".





tarrafalistas 2014 2Ana Pato, da direcção da URAP, iniciou assim a sua intervenção, dia 27 de Setembro, junto ao Mausoléu dos Tarrafalistas, onde repousam desde 1978 os 32 antifascistas portugueses assassinados no campo.
"Estamos aqui hoje para os relembrar e homenagear. E, através deles, queremos homenagear também todos os homens e mulheres que dedicaram a sua vida ao combate pela democracia e contra todas as formas de opressão", acrescentou.



tarrafalistas 2014 1"Em 18 de Outubro de 1936, partiram de Lisboa os primeiros 152 detidos, entre os quais se contavam participantes do 18 de Janeiro de 1934 na Marinha Grande e alguns dos marinheiros que tinham participado na Revolta dos Marinheiros ocorrida a bordo de navios de guerra no Tejo, em 8 de Setembro daquele ano de 1936", disse.




tarrafalistas 4

Depois de contar que "o campo encerrou em 1954, na sequência de pressão nacional e internacional, num período em que, com a derrota do nazi-fascismo alemão e italiano", Ana Pato lembrou que foi reaberto em "1961, desta vez destinado aos lutadores pela independência das colónias portuguesas".

"Preservar a memória, combater o branqueamento da história denunciando o que foi o fascismo em Portugal e no mundo são tarefas dos dias de hoje e que perspectivam o futuro", prosseguiu a oradora.

Após referir a difícil situação internacional, evocando o Médio Oriente e a Ucrânia, Ana Pato mostrou a sua confiança no futuro: "As coisas estão más. Mas não vão ficar sempre assim. Assim o sabiam aqueles que, como estes tarrafalistas, resistiram, lutaram e acabaram por vencer o fascismo (apesar de nem todos o terem podido testemunhar). Daí a sua coragem. Eles sabiam que, um dia, os vencedores seriam eles. Já o eram, porque não se deixaram quebrar".

A homenagem, que decorreu no Cemitério do Alto de S. João, em Lisboa, iniciou-se com uma breve apresentação de Feliciano David, dos corpos dirigentes da URAP.

Feliciano David lembrou que "todos os anos a URAP homenageia os heróicos resistentes antifascistas que foram deportados para o Tarrafal que pela primeira vez a Câmara Municipal de Lisboa não prestou apoio logístico para a sua realização, o que lamenta profundamente.

tarrafalistas 7Lembrou, a propósito, que o presidente da República Jorge Sampaio tinha estado presente, em 2005, na homenagem aos tarrafalistas e deposto um ramo de flores junto ao mausoléu, e agradeceu à Voz do Operário e à União dos Sindicatos de Lisboa por terem substituído o apoio da Câmara e emprestado cadeiras e aparelhagem sonora para que a homenagem decorresse com a solenidade merecida.






tarrafalistas 3Após os discursos, surgiram os versos declamados pelos Jograis U´Tópicos e a música fez-se ouvir através do Coro Lopes Graça, sob a batuta do Maestro José Robert.

Presentes cerca de 150 pessoas, entre as quais membros da URAP de diversos núcleos, representantes da CGTP, da Confederação das Colectividades de Cultura Recreio e Desporto, da Juventude Comunista Portuguesa, do Conselho Português para a Paz e Cooperação, da Associação dos Sargentos da Armada.



tarrafalistas 1A cerimónia, que decorreu no ano em que a Revolução dos Cravos celebra o 40º aniversário, contou ainda com a presença do General Pedro Pezarat Correia, um combatente de Abril.

 

Ver intervenção de Ana Pato

Ver intervenção de Feliciano David