Na morte de Maria Eugénia Varela Gomes

maria eugenia varela gomes 1Maria Eugénia de Bilnstein Sequeira Varela Gomes, Mãe Gena ou Mãe Coragem, como lhe chamavam os que lutaram por um Portugal livre e democrático, morreu ontem, 20 de Novembro, em Lisboa aos 90 anos.

 

O velório de Maria Eugénia Varela Gomes realiza-se hoje, 2ª feira, a partir das 14:30, na Basílica da Estrela. O funeral partirá às 10:00 de 3ª feira, 22 de Novembro, para cremação no cemitério do Alto de S. João.

 

Com uma história de vida exemplar, Maria Eugénia foi raptada e presa pela PIDE, em Janeiro de 1962, na sequência do assalto ao quartel de Beja, onde o seu marido, João Varela Gomes, participou, é mantida isolada desde 6 de Janeiro até meados de Abril.

 

Nos interrogatórios, foi submetida a prolongada tortura do sono e enfrentou com coragem os seus torturadores. Guardou para si um refrão que repetia em todas as circunstâncias, dizendo que não sabia de nada, mas estava solidária com tudo.

maria eugenia varela gomes foto prisaoPor falta de provas e de confissões, foi libertada antes do julgamento, após dois anos e meio de prisão sem culpa formada. O julgamento viria a realizar-se em 1964. João Varela Gomes foi condenado a seis anos de prisão, sairia em 1968.

 

Em liberdade, Maria Eugénia funda, com outras personalidades da oposição, a CNSPP (Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos). Integra o Executivo desse organismo juntamente com Nuno Teotónio Pereira, Cecília Areosa Feio, Frei Bento, Manuela Bernardino, Lucília Santos, Luís Moita, Levy Baptista, Comandante Costa Santos.
Maria Eugénia Varela Gomes nasceu em Évora, em 1925, filha e neta de militares conservadores, teve educação católica, no Colégio do Sagrado Coração de Jesus.

 

maria eugenia varela gomes 2Assistente Social de profissão teve os primeiros contactos com o meio operário nessa qualidade. As primeiras experiências com a luta política estiveram relacionadas com o processo de ostracização do padre Abel Varzim, que começara por ser um partidário da ditadura e deputado da Assembleia Nacional, e que depois se tornara cada vez mais incómodo, devido ao seu empenhamento no combate à pobreza.


O combate à pobreza, a preocupação com as pessoas, sobretudo as mais desfavorecidas, torna-se também para Maria Eugénia uma verdadeira bandeira política. Por elas desceu ao inferno dos bairros mais miseráveis de Lisboa, onde os operários vendiam o próprio sangue para pagar a renda da barraca que lhes servia de casa, forçou burocracias, escancarou portas para acompanhar e apoiar doentes e famílias no hospital de Santa Maria, fez seu o quotidiano dos operários qualificados da BP em Cabo Ruivo.


Maria Eugénia Varela Gomes participou ainda nas campanhas eleitorais de 1958, 62, 69 e 73 e na Revolta da Sé, em 1959, acompanhando em seguida o julgamento e a prisão dos implicados, particularmente dos amigos Manuel Serra, J. Jacques Valente e capitão Vilhena.


Foi membro da Frente Patriótica de Libertação Nacional, no interior, desde 1963, trabalhando, nomeadamente, na Comissão de Apoio aos Refugiados Políticos.


No 25 de Abril, recusou quaisquer indemnizações que, por direito, lhe cabiam como perseguida política, ou retroactivos que o Hospital de Santa Maria e a BP teriam de pagar-lhe por terem procedido ao seu despedimento por motivos políticos.


Maria Eugénia Varela Gomes teve quatro filhos, dois dos quais morreram, o último dos quais, Paulo, escritor e intelectual de renome, morreu em Abril passado.