XVII Congresso da Federação Internacional de Resistentes realizou-se dias 18 e 19 em Praga

xvii congresso fir 2016 s4A situação internacional, nomeadamente europeia, uma análise sobre Portugal e o trabalho da URAP foram apresentados em Praga, no XVII Congresso da Federação Internacional dos Resistentes, que decorreu nos dias 18 e 19 de Novembro.


A representante da União de Resistentes Antifascistas Portugueses, Marília Villaverde Cabral, alertou para "a situação do Médio Oriente, como na Síria, na Líbia, no Iraque, no Iémen, a ocupação da Palestina, a ofensiva desestabilizadora na América Latina, como no Brasil, Venezuela, o bloqueio a Cuba, a fascização da Ucrânia".

 

 


xvii congresso fir 2016 s1Para a coordenadora da URAP, "também a União Europeia conheceu novos desenvolvimentos que a colocam abertamente em questão: Para além da incapacidade de sair da estagnação económica, são visíveis as cada vez maiores contradições internas, cujo Referendum, no Reino Unido, pôs ainda mais em evidência".


"No drama dos Refugiados, o maior fluxo de sempre, depois da II Guerra Mundial, tem sido flagrante a falta de resposta que vá de encontro à urgência de medidas de assistência dignas que contrariem as terríveis e desumanas condições em que estão centenas de milhares de pessoas", acrescentou.


Depois de uma curta análise sobre a situação portuguesa durante a vigência do Memorando da Troika (2011/15), que se "traduziu numa brutal ofensiva contra os direitos dos trabalhadores e do povo português, com o agravamento da exploração, da austeridade, das desigualdades sociais, do empobrecimento e pela degradação do regime democrático", a oradora fez referência à actual situação política com a constituição de um governo minoritário do Partido Socialista.
Falando sobre a actividade da URAP, Marília Villaverde Cabral destacou "as Comemorações dos 70 anos do fim da II Guerra Mundial em que, com a Tocha da FIR, percorremos todo o país (...)".


xvii congresso fir 2016 s3A participação de jovens portugueses no "Comboio dos 1000", a homenagem anual ao mausoléu dos democratas assassinados no Campo de Concentração do Tarrafal, sessões nas escolas, pelo 25 de Abril, com ex-presos políticos, bem como visitas ao Forte de Peniche, prisão fascista de alta segurança, e a polémica sobre a concessão do forte à iniciativa privada, foram outros temas abordados na sua intervenção.


Depois de referir o projecto museológico para a antiga cadeia do Porto (sede da PIDE) e a deslocação a Angra do Heroísmo, nos Açores, onde a URAP organizou uma visita guiada às Fortalezas prisionais e colocou uma lápide, a coordenadora da URAP anunciou para o próximo dia 10 de Dezembro a organização de uma iniciativa sobre a Guerra Civil de Espanha.


"A URAP está convicta que hoje, por mais intransponíveis que possam parecer as dificuldades, os exemplos da nossa luta, ao longo da História e no presente, mostram que, mesmo que leve tempo, o futuro pertence não aos que oprimem e exploram, mas aos que resistem e lutam em prol da emancipação da Humanidade", disse para terminar.


O congresso foi dirigido pelo secretário-geral da FIR, Ulrich Schneider. Coube ao presidente, Vilmos Hanti, fazer a primeira intervenção, perante 51 delegados e cem convidados, na qual destacou o problema dos refugiados, da ascensão da extrema-direita e do perigo do fascismo.


A nível interno da organização, Vilmos Hanti identificou as principais questões que a federação e as suas associadas enfrentam, nomeadamente, como chegar aos mais jovens, como não deixar morrer a memória, como pôr os avanços da comunicação ao dispor da reposição da verdade histórica.


Todos os oradores - oriundos da Rússia, República Checa, Grécia, Hungria, França, Itália, Bélgica, Eslováquia, Áustria, Alemanha, Bulgária, Holanda, Ucrânia e Sérvia - relataram a situação dos seus países, a actividade levada a cabo nos últimos três anos, assim como as perspectivas de actividades futuras. Comum a todos eles encontra-se a falta de apoios humanos (camada mais jovem), as dificuldades levantadas pelos vários governos às associações e a contínua tentativa de falsificar a memória histórica antifascista.


Durante a cerimónia de abertura, realizou-se a entrega do prémio "Michel Vanderborgth 2016" a Jean Cardoen, da Bélgica; Václave Pavlicek, República Checa; Thomas Altmeyer, Alemanha; Georgi Moraitis, Grécia; Klubrádió-Arató András e Népszava-Németh Péter, Hungria; Zvi Kan-Tor, Israel; Marco de Paolis, Itália; Max van den Berg, Holanda; Alexej Petrovich Maresjev (a título póstumo), Rússia.


O "Prémio Michel Vanderborght" da FIR foi criado em homenagem ao notável resistente belga do mesmo nome, presidente da FIR de 2003 até à sua morte em 2010.


Ao mesmo tempo, todas as associações que acolheram a tocha da FIR nos seus países receberam um certificado de reconhecimento pela sua participação nesta iniciativa a favor da paz.


O XVII Congresso aprovou uma declaração política, na qual se salienta que o antifascismo é mais relevante do que nunca; que é necessário travar o populismo de direita e o neofascismo; eliminar a ameaça de guerra para proteger a paz; preservar as memórias contra o revisionismo histórico; e unir as forças antifascistas, ganhando também as novas gerações.


Os participantes aprovaram uma carta ao Parlamento Europeu, apelando para que seja dado o direito aos milhares de veteranos de guerra búlgaros o estatuto oficial de veteranos.


Procedeu-se igualmente à eleição dos corpos socias da FIR, mantendo-se Vilmod Hanti como presidente da organização.


xvii congresso fir 2016 s5À margem do Congresso, a organização anfitriã organizou uma visita a Lídici, cidade completamente destruída, sendo a grande maioria de seus habitantes assassinados pelas forças nazis de Hitler, como forma de represália pela morte de Reinhard Heydrich, a segunda maior autoridade nas SS.


Reinhard Heydrich, designado Protector do Terceiro Reich na Boémia e Morávia, foi morto a 27 de Maio de 1942 numa acção da resistência checa quando viajava de carro.


Seguiu-se uma retaliação sangrenta e generalizada das tropas nazis contra a população civil checa. Em 10 de Junho, a pequena vila de Lídice, uma comunidade dedicada à mineração, perto da capital, foi cercada por tropas nazis, impedindo a saída dos seus moradores. Todos os habitantes homens com mais de 15 anos foram separados das mulheres e crianças, colocados num celeiro e fuzilados em pequenos grupos no dia seguinte.


xvii congresso fir 2016 s6As mulheres e crianças da cidade foram enviadas para o campo de concentração feminino de Ravensbruck, onde a grande maioria viria a morrer de tifo e exaustão pelos trabalhos forçados. Após o assassinato e o desterro de toda a população, a cidade inteira foi demolida por explosivos e deixada apenas em terra, aplainada por tractores. Os alemães espalharam grãos e cevada pelo chão de toda a área para transformá-la em pasto e riscaram-na dos mapas da Europa. Cerca de 340 habitantes de Lídice morreram no massacre alemão, 173 homens, 60 mulheres e provavelmente 88 crianças.

O local onde se situava a vila de Lídice, hoje um campo santo e um memorial nacional.

 

 


800px Lidice gelande 2001Apesar de totalmente apagada do mapa, Lídice foi novamente reconstruída e ampliada em 1949, a setecentos metros da área onde havia a vila destruída pelos nazis, mantido virgem como um campo santo e o terreno onde existiu é marcado apenas por um memorial - onde arde uma chama eterna -, oficialmente denominado como monumento nacional pelo governo checo.


Os dirigentes da FIR em homenagem à memória das vítimas colocaram uma coroa de flores no monumento dedicado às crianças de Lídice.