URAP organiza homenagem anual aos Tarrafalistas

homenagem tarrafalistas s 2"Em 18 de Fevereiro de 1978 – cumprem-se hoje precisamente 39 anos – numa grande homenagem nacional, foram transladados para este mausoléu os restos mortais dos 32 heróis mártires assassinados no sinistro Campo da Morte Lenta", afirmou José Vargas na cerimónia anual da URAP no cemitério do Alto de S. João, em Lisboa.

 

Cerca de 100 pessoas estiveram presentes, sábado, junto ao Mausoléu Memorial dos Tarrafalistas para homenagear os antifascistas assassinados, numa cerimónia que contou com a apresentação de Bento Luís, da direcção da URAP - que agradeceu à Voz do Operário e à USL o apoio logístico -, e um momento cultural com música e poesia por Rui Galveias e Pedro Salvador, do grupo .

 

homenagem tarrafalistas s 3Para José Vargas, lembrar "uma das mais impressionantes manifestações alguma vez realizada em Portugal, mais de 200 000 pessoas acompanharam o cortejo, debaixo de intensa chuva, numa demonstração de reconhecimento e gratidão pelo seu contributo para a conquista da liberdade e da democracia", com um grupo de tarrafalistas à frente empunhando uma faixa onde se lia "Tarrafal nunca mais", é da maior importância "num tempo em que forças de extrema-direita, fascistas e neofascistas se levantam ameaçadoras em vários países e, entre nós, se silenciam e branqueiam ou banalizam os crimes do fascismo (...)".

 

 

 

homenagem tarrafalistas s 4Depois de descrever a vida no campo de concentração, o orador citou o histórico antifascista Francisco Miguel, o último preso a sair do Campo de Concentração do Tarrafal, em 1954, "que passou mais de cem dias na ´frigideira´": "Lá dentro era um forno, o sol batia na porta de ferro e o calor ia-se tornando sempre mais difícil de suportar. Íamos tirando a roupa, mas o suor corria incessantemente. A ´frigideira´ teria capacidade para dois ou três presos por cela. Chegámos a ser doze numa área de nove metros quadrados".

 

 

 

 

homenagem tarrafalistas s 1" (...) Havia momentos em que a sede era tanta que passávamos a língua pela parede por onde escorriam as gotas da nossa respiração que ali se condensava. Os dias pareciam infindáveis. Suspirávamos pela noite, pois o frio nos era mais fácil de suportar. Mas pelo entardecer também a sede aumentava. A excessiva transpiração não era devidamente compensada. A ´frigideira´ matava", relatou Francisco Miguel.

 

 

 

 

 

 

homenagem tarrafalistas s 5Por seu lado, Rui Galveias e Pedro Salvador, do grupo Nó, interpretaram a imagem do Tarrafal através do poema "Praia e Morte", integrado no livro "Contra Todas as Evidências", de Manuel Gusmão:

 

(...)
Cicatriza nas portas de ferro, no ferrolho
nas grades inúteis contra o silêncio
e a sombra morta das celas, nas ondas paradas
e estéreis dos telhados de cimento e zinco,
No calor, no vento e na poeira.
(...)

 

Referindo-se a uma luta que os antifascistas travam na actualidade, Vargas apelou à preservação integral da Fortaleza de Peniche, "enquanto lugar especial de memória de resistência e de luta antifascista", e considerou "da máxima urgência e prioridade a instalação no Forte de Peniche de um verdadeiro Museu da Resistência e da Liberdade".


homenagem tarrafalistas s 6Rui Galveias e Pedro Salvador interpretaram ainda Zeca Afonso ("Só ouve o brado da terra" e "O homem voltou") e "Canta, Camarada Canta" e "Firmeza", com música de Fernando Lopes Graça e letra de José João Cochofel.

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