"Forte de Peniche – Memória, Resistência e Luta" lançado na Fundação José Saramago

lancamento livro peniche s2"A todas as vítimas da perseguição e repressão fascistas, em particular àqueles que, presos na cadeia do Forte de Peniche, deram entretanto uma importante contribuição para o derrube do fascismo e a conquista da liberdade e da democracia"

 

A dedicatória foi tirada do livro "Forte de Peniche – Memória, Resistência e Luta", uma edição da URAP lançada dia 4 de Maio na sede da Fundação José Saramago, Casa dos Bicos, em Lisboa.

 

Para Vítor Dias, organizador do livro e subscritor da Petição à Assembleia da República "Forte de Peniche – defesa da memória, resistência e luta", esta obra não pretende situar-se no domínio da historiografia e não tem a ambição de preencher ou responder a todas as lacunas que persistem sobre o Forte de Peniche e o seu funcionamento como cadeia para presos políticos durante o fascismo, mas trata-se de uma obra que traz à luz do dia coisas ´essenciais´ sobre Peniche.

 


lancamento livro peniche s1O apresentador do livro, ele próprio ex-preso político libertado de Caxias no dia seguinte à Revolução de Abril, folheou, capítulo a capítulo, destacando temas como o preservar da memória do Forte, a breve história da fortaleza, as diversas fugas para retomar a luta - nomeadamente a fuga colectiva de 1960 que incluía Álvaro Cunhal -, a libertação dos presos a 27 de Abril de 1974.
No final, a obra traz o nome das 2.494 pessoas que ali estiveram detidas, um levantamento feito pela URAP.

 

O orador deteve-se ainda no capítulo "E o 25 de Abril Rompe as Grades da Cadeia de Peniche", que se inicia com um poema da autoria de José Saramago: "Venham leis e homens de balanças,/Mandamentos daquém e dalém mundo,/Venham ordens, decretos e vinganças,/Desça o juiz em nós até ao fundo. (...) Mas quando nos julgarem bem seguros,/Cercados de bastões e fortalezas,/Hão-de cair em estrondo os altos muros/E chegará o dia das surpresas."


lancamento livro peniche s3Após a leitura do poema premonitório de Saramago, "Ouvindo Beethoven", o orador falou em seguida do processo da libertação dos presos, menos conhecido do que o de Caxias, sublinhando que os próprios presos não tiveram conhecimento da revolução no próprio dia, e o nervosismo dos guardas prisionais quando lhes falavam do "dia das surpresas".


Vítor Dias referiu-se também à Introdução, da autoria do jornalista e escritor Domingos Lobo, na qual é feita um pedido um pouco ingénuo: o leitor pôr-se no lugar de cada um dos mais de dois mil homens que lá estiveram e da incerteza das suas vidas, cumprindo penas longas com medidas de segurança e sem perspectiva de saída.
O orador sublinhou ainda o movimento de opinião que a União de Resistentes Antifascistas Portuguesas conseguiu criar em torno da causa de Peniche que levou à sua discussão no Parlamento e à resolução do governo de transformar o Forte num Museu da Memória, da Luta e Resistência ao Fascismo.


lancamento livro peniche s4A sessão foi aberta por Pilar del Río, presidenta do Conselho de Administração da Fundação José Saramago, que manifestou o orgulho da fundação em estar associada a este projecto, seguindo-se Marília Villaverde Cabral, coordenadora do Conselho Directivo da URAP, que lembrou que "a ideia do livro sobre Peniche surgiu em plena movimentação de ex-presos políticos, democratas antifascistas que não se conformaram com a decisão do Forte de Peniche, onde tanto se sofreu, onde tanto se lutou, fosse concessionado a entidades privadas para fins turísticos e hoteleiros".


"A Petição com 9.600 assinaturas, o Encontro-Convívio no Forte com a presença de 600 democratas, ex-presos, familiares a amigos tiveram um papel fundamental para travar um processo que não seria digno de Portugal, em liberdade", acrescentou.


FortePeniche capaNuma sala completamente cheia e no meio de aplausos que se fizeram ouvir diversas vezes, José Pedro Soares, ex-preso político e dirigente da URAP, encerrou a sessão, começando por destacar a figura de Marília Villaverde Cabral e o seu trabalho como coordenadora da URAP, o seu esforço de mobilização e a actividade da organização.

 

"Falamos dos presos e da cadeia de Peniche como símbolo do antifascismo, mas o forte tem mais história que o país deve conhecer", disse, juntando que se "deve reflectir também na vivência do povo de Peniche".

 

José Pedro Soares, preso aos 21 anos e vítima de espancamentos e torturas inumanas, recordou as variadas circunstâncias de cada um daqueles presos, a diversidade dos motivos e como chegaram a Peniche, alguns vindos de outras prisões.

 

Falou do papel, do sofrimento e das privações das famílias dos presos e contou a história de uma mulher que vendeu parte da mobília para ir fazer visita ao seu familiar detido e quando chegou a Peniche não a deixaram ver porque os presos estavam de castigo.

 

Realçou também a importância de conhecermos e lembrarmos a nossa história. "É importante combater o branqueamento", disse.


José Pedro Soares sublinhou a importância das acções que os membros da URAP e outros democratas levaram a acabo para tirar o Forte de Peniche do programa REVIVE, cuja permanência considerou um crime, e como membro da comissão governamental saudou a reunião do governo em Peniche no dia 27 de Abril (43 anos após a libertação dos presos) e a forma como estão a decorrer os trabalhos da comissão, em que se tem assistido a um alargamento dos consensos.

 

Informou que já foi aprovada a verba de três milhões e meio para trabalhos de reabilitação e em 2019 já se poderão assistir a algumas inaugurações. Entretanto, afirmou, já no mês de Julho, o monumento com o nome de todos os presos vai ser erguido frente à fortaleza.

 

Para terminar, José Pedro Soares lembrou que mais de metade dos presos que deixaram a cadeia de Peniche a 27 de Abril de 1974 já morreu.