Monumento aos ex-presos políticos inaugurado na Fortaleza de Peniche

inauguracao memorial peniche 2017 s8"Disseram não...
para que a água da vida corresse limpa"


Esta frase pode ler-se na base do monumento que presta homenagem aos cerca de 2500 presos que passaram pela cadeia de Peniche entre 1934 e 1974, inaugurado pela Câmara Municipal de Peniche e pela URAP - União de Resistentes Antifascistas Portugueses, no passado dia 9 de Abril.


Perante centenas de antifascistas presentes, entre os quais alguns presos políticos da época, José Aurélio, o autor da obra, explicou a escultura que consiste "num cubo em aço com 25 quadriculados que terminam em asas, com também 25 hastes no seu interior, que representam os prisioneiros, assente num espelho de água".


Foi nas grades desse cubo, que os ex-presos, primeiro, e alguns dos participantes, depois, colocaram fitas multicolores com frases da resistência perante o aplauso de todos, num acto emotivo e cheio de simbolismo.

 


inauguracao memorial peniche 2017 s4A abertura da sessão foi feita pelo presidente da Câmara Municipal de Peniche, António José Correia, que agradeceu a presença de todos, nomeadamente da Comissão Consultiva do Museu, e teve uma palavra especial para os trabalhadores que materializaram a obra – "o trabalho não visível" - sem os quais "não tinha sido possível erguer o monumento", falou ainda da colaboração com a URAP que deu origem, após alguns anos, àquele monumento.


Coube a Marília Villaverde Cabral a intervenção de fundo. A coordenadora da URAP destacou a importância de prestar homenagem aos heróis que estiveram encarcerados na Fortaleza de Peniche e "conhecer os nomes de todos os que, pelo seu amor à liberdade e ao seu povo, ali foram encarcerados e perpetuar a sua dedicação à luta por um país melhor".

 


inauguracao memorial peniche 2017 s2"Depois de uma profunda investigação na Torre do Tombo, foram encontrados cerca de 2.500 nomes, homens das mais diversas profissões, das mais diversas idades, das mais diversas zonas do país", contou, para lembrar que o monumento ainda não está completo: "falta-nos ainda o mural, com todos os nomes, um a um... Mas vamos conseguir. Porque é preciso não esquecer. Lutar contra o esquecimento é a forma que temos de honrar os nossos heróis, os que felizmente estão entre nós e os que partiram".

 

 

 

 

 

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"Hoje, quando estamos aqui, não podemos deixar de lembrar que a fase seguinte é o Museu da Resistência. O Museu onde os jovens possam vir consultar documentação para os seus trabalhos, onde se possam realizar debates e conferências, onde se possa vir visitar e ficar com uma ideia clara do que foi o fascismo, através de depoimentos, de documentos históricos, um Museu de que o povo de Peniche se possa orgulhar, um Museu digno do Portugal democrático, um Museu que enriqueça a nossa história", afirmou.

 

 


inauguracao memorial peniche 2017 s1Ana Aranha, jornalista da Antena 1 - que tem feito vários trabalhos sobre a repressão e a censura no tempo do governo fascista -, conversou com dois familiares de ex-presos políticos, Álvaro Pato e Anabela Carlos, filhos de Octávio Pato e José Carlos Corticeiro, respectivamente, que relataram as suas experiências da resistência, as visitas, da luta contra o fascismo, nomeadamente dentro das próprias prisões.

 

 

 

 

 

inauguracao memorial peniche 2017 s6Recordaram, com muita emoção, como uma única prisão afectava a vida de muita gente, a solidariedade mútua entre presos e familiares e as reivindicações das famílias junto da prisão, como o simples facto de um filho, ou outro membro da família, poder beijar o preso que ia visitar, como lembrou Álvaro Pato.

 

 

 

 

 

 

 

inauguracao memorial peniche 2017 s3A homenagem contou ainda com um programa cultural no qual actuou o grupo "Cauda da Tesoura", com música de intervenção, e o "Coro Fernando Lopes Graça", dirigido pelo maestro José Robert, com onze canções heróicas acompanhadas ao piano por João Lucena e Vale.

 

Como disse Marília Villaverde Cabral foi «um dia digno de Portugal em Liberdade: Homenageamos aqueles que estando junto a este lindo mar, não o podiam ver. "Apenas ouviam o vento. Apenas ouviam o mar", dizia David Mourão Ferreira».