Alexandre Cabral homenageado no Museu do Aljube

homenagem alexandre cabral s2"Tinha 12 anos e vivíamos no Bairro de Alvalade, num r/c, e um dia, de madrugada, acordo com violentas punhadas na minha janela do quarto que dava para as traseiras, abri estremunhado as portadas e vi dois homens de pistola em punho. ´É a polícia, abra´. Seguiram-se cenas de indignação e angústia (...) e levaram o meu pai. Passaram-se dias sem qualquer informação e lembro com nitidez a ida com a minha mãe, de mão dada, à António Maria Cardoso para exigir notícias e uma visita. Recordo perfeitamente um cheiro a perfume, e estou a ver ainda as unhas bem cuidadas, envernizadas, das mãos do inspector Sacheti, a sua calva brilhante e luzidia, o seu rosto inexpressivo, e pensei: é este o homem que está a fazer mal ao meu pai!"



Estre trecho da intervenção de Aguinaldo Cabral na sessão de homenagem ao escritor, novelista, investigador e militante antifascista Alexandre Cabral por ocasião do centenário do seu nascimento retrata o ambiente que se vivia em Portugal durante o regime de Salazar: a arbitrariedade, o desrespeito, até pelas crianças, e a afronta pelos direitos humanos mais elementares.


Perante cerca de meia centena de pessoas, a sessão de dia 11 de Outubro organizada pela URAP e pelo Museu do Aljube destacou a figura de Alexandre Cabral também com uma intervenção do escritor Modesto Navarro, amigo do homenageado, a passagem de um filme e a leitura de excertos do livro "Memórias de um Resistente" (1970) pelo actor Fernando Tavares Marques.

 


homenagem alexandre cabral s1Aguinaldo Cabral sublinhou a escolha do local, o Aljube, construído "talvez no séc. I AC, e que foi quase sempre uma prisão, foi muito acertada e adequada para homenagear um dos muitos milhares de presos que por aqui passaram de 1928 a 1965" e agradeceu à coordenara da URAP, Marília Villaverde Cabral, e a José Vargas a organização desta homenagem.

 

 

 

 

 

 

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Depois de relatar as prisões de seu pai, em 1952, 1963 e 1964, o orador fez um levantamento biográfico da vida do escritor – quer da sua origem, quer dos bairros populares onde viveu - que o marcaram profundamente e estão inscritos no romance "Malta Brava" (1955). "Aquilo que sou e de que me orgulho, devo à matriz que me enformou", diria o próprio.


A Mostra bibliográfica de Homenagem a Alexandre Cabral, na Biblioteca Nacional (Fevereiro a Outubro de 2017), escritor que usou o pseudónimo de José Larbak nas primeiras publicações (1937/39), foi enaltecida pelo orador, que contou, ironicamente, que o primeiro artigo assinado com o nome de Alexandre Cabral, "Democracia do Sul" (1940), contém "um pequeno texto sobre a Biblioteca Nacional, criticando esta instituição por ineficiência, mau atendimento, horários desajustados, falta de pessoal e de verbas, e apresentação de sugestões".

 

 

 

 

Alexandre Cabral"Mal sabia ele que muitos, muitos anos mais tarde seria um frequentador assíduo da BN, muito conhecido e estimado (há quem se lembre dele no seu gabinete a trabalhar afincadamente)", lembrou Aguinaldo Cabral.

 

O labor dedicado à investigação literária e aos estudos camilianos levou à publicação de dezenas e dezenas de títulos, nos quais se deve destacar, cita Aguinaldo Cabral, a compilação cuidadosa das Polémicas, os comentários preciosos da Correspondência, e a análise minuciosa das Novelas, e que culmina com a elaboração do Dicionário de Camilo Castelo Branco (1989), trabalho que realizou ao longo de anos e praticamente sozinho. Esta obra é caracterizada pelo Prof. Aníbal Pinto de Castro como "inesgotável manancial de informação que pode, sem favor, qualificar-se de monumental".

 

 

 

alexandre cabral manif sO orador falou ainda sobre a criação da Sociedade Portuguesa de Escritores, da qual Alexandre Cabral integrou a primeira direcção, e a Associação Portuguesa de Escritores que lhe sucedeu.

Foram exactamente declarações feitas na qualidade de dirigente da Sociedade Portuguesa de Escritores que o pequeno filme exibido na sessão mostrou, bem como o testemunho sobre o conhecimento e amizade com o escritor e antifascista Soeiro Pereira Gomes.

 

O percurso político e militante do homenageado foi também lembrado pelo seu filho que destacou a sua adesão muito jovem ao Partido Comunista Português, o apoio às candidaturas à presidência de Arlindo Vicente e Humberto Delgado (1958), a participação nas Comissões de Escritores de apoio à CDE (1969 e 1973) e na Comissão Nacional Promotora do II Congresso Republicano de Aveiro (1969).

 

 

 

 

 

 

 

alexandre cabral esboco sDepois da revolução de Abril de 1974, "foi membro de várias Associações de Amizade, com Cuba, Checoslováquia, RDA, Bulgária". Alexandre Cabral assinou convénios, como presidente da direcção da Associação de Amizade Portugal-Cuba, com o Instituto Cubano de Amistad con los Pueblos (1975 e 1982).

 

Para Aguinaldo Cabral, José dos Santos Cabral, de quem tem "orgulho de ser filho", "foi um cidadão que viveu intensamente toda uma época marcada pela censura, a repressão, a prisão e até o assassínio dos oposicionistas.