Na morte de Varela Gomes

joao varela gomesO coronel João Maria Varela Gomes, grande figura da resistência antifascista, militar de Abril, que dedicou a sua vida às causas da liberdade e da democracia, morreu segunda-feira, em Lisboa, aos 93 anos.


Varela Gomes, viúvo da também democrata e antifascista Maria Eugénia Varela Gomes, fundadora da URAP, era também sócio da União de Resistentes Antifascistas Portugueses.


Entre muitas lutas contra o governo fascista, Varela Gomes dirigiu com Manuel Serra a operação de tomada do quartel do Regimento de Infantaria 3, em Beja, na madrugada de 1 de Janeiro de 1962, naquele que ficou conhecido como o "Golpe de Beja", imbuídos do espírito da campanha eleitoral de Humberto Delgado, em 1958, e depois da contestação ao início da guerra colonial, em 4 de Fevereiro de 1961.

 

O ano de 1961 é com frequência designado como o annus horribilis para a ditadura de Salazar: tomada do paquete Santa Maria (Janeiro), revolta independentista em Angola (Fevereiro), intentona de generais incluindo o ministro da Defesa (Abril), condenação de Portugal na ONU, eleições (Novembro), tomada de Goa pela União Indiana (Dezembro), para além de muitas lutas populares e estudantis. Contudo, o 25 de Abril de 1974 levou 13 anos para chegar.

 

Varela Gomes integrou a 5.ª Divisão do Estado-Maior General das Forças Armadas, uma divisão que tinha sido criada para organizar a informação e propaganda do Movimento das Forças Armadas (MFA). Varela Gomes dirigiu o Centro de Sociologia Militar da 5ª Divisão, que levou a cabo a sua actividade junto de comissões de trabalhadores e de unidades colectivas de produção na zona de intervenção da reforma agrária.

 

Em entrevista à RTP Memória, recordando o médico Ludgero Pinto Basto, Varela Gomes lembrou que ficou a dever-lhe a vida, a ele e ao também médico Carlos George, depois de ser ferido na Revolta de Beja.

 

Na mesma entrevista, relata a sua passagem à clandestinidade, para escapar ao mandado de captura emitido contra ele, a saída do país com identidade falsa, o embarque em Espanha com destino a Cuba e a partida de Cuba para Angola, no início de 1976. Conta também o seu regresso a Lisboa, em Setembro de 1979, com a lei da Amnistia já aprovada pelo Parlamento, mas ainda não promulgada pelo presidente da República, Ramalho Eanes.

 

Varela Gomes comemorou o primeiro aniversário do 25 de Abril em Cuba, onde se encontrava à frente de uma delegação, convidando para a Embaixada portuguesa figuras como Fidel e Raul Castro.