Na Escola Secundária D. Filipa de Lencastre falou-se sobre vidas clandestinas

Tipografia clandestinaA Escola Secundária D. Filipa de Lencastre, em Lisboa, solicitou à URAP a realização de uma sessão dedicada ao tema "Vidas Clandestinas", integrada na disciplina de História, durante o período do pós-guerra (1945) até à revolução de Abril de 1974.


Adelino Pereira da Silva e Faustina Barradas, resistentes antifascistas na clandestinidade e membros da URAP, prepararam a sessão, que se realizou dia 21 de Fevereiro no auditório daquele estabelecimento de ensino, com as professoras de História Maria Manuel Costa e Gabriela Vieira da Silva, que dirigiram os trabalhos.


O enquadramento político da época foi feito por Adelino Pereira da Silva, que falou do regime de ditadura fascista de 48 anos, sem liberdade expressão e de organização (partidos, sindicatos, greves, manifestações...), de um governo opressivo, perseguidor e torturador do designado Estado Novo.


Regime em que os opositores e lutadores pelas liberdades democráticas e por melhores condições de vida do povo português eram presos, torturados e condenados a longos anos de prisão (no Campo de Concentração do Tarrafal, Fortes de Angra do Heroísmo, de Caxias, de Peniche, Cadeias do Aljube, do Porto, de Coimbra).


O orador contou como os opositores ao regime eram por vezes assassinados, dando os exemplos de Bento Gonçalves e vários outros tarrafalistas; Dias Coelho, Germano Vidigal, José Moreira, Alfredo Diniz (Alex), Catarina Eufémia.


Em consequência, disse Adelino Pereira da Silva, restava como alternativa aos democratas e antifascistas, apesar dos enormes riscos, organizar e estruturar a resistência e a luta clandestina contra a ditadura.
Na sessão, e a pedido das professoras, abordou-se ainda as experiências pessoais vividas por Faustina Barradas e Adelino Pereira da Silva.


Os dois oradores cresceram em ambientes de vida partidária clandestina e cedo ingressaram no mundo do trabalho, aos 14 anos, em empresas na área de Lisboa. Depois, eles também, foram funcionários políticos e realizaram tarefas clandestinas, nas tipografias, em trabalhos técnicos e de organização, "casaram" na clandestinidade, tiveram filhos em situações muito difíceis, foram presos...


Viveram em casas clandestinas – existiam casas de apoio para reuniões e trabalho político de Direcção, casas logísticas de habitação e casas para instalar as tipografias – e relataram a vigilância e os cuidados conspirativos de defesa, fundamentais para detectar uma proximidade da PIDE na zona e tomar rapidamente medidas para abandonar a instalação.


Faustina e Adelino descreveram outros aspectos da vida dos clandestinos como a necessidade de criar uma história de vida normal e credível, para a vizinhança, sempre que era montada uma nova instalação/habitação. A naturalidade, os nomes falsos, as profissões falsas, os pseudónimos, tudo o que impedisse ou dificultasse a acção da PIDE e dos informadores, de modo a defender os revolucionários em luta contra a ditadura.


Na actividade desenvolvida pelos funcionários a informação e agitação tinha um lugar de relevo. Revelaram como era feita e como era distribuída, lembrando que o jornal Avante! foi sempre impresso em tipografias clandestinas instaladas em Portugal, ininterruptamente, desde 1941 até ao 25 de Abril.


Instalada no exterior, na Roménia, emitia a Rádio Portugal Livre desde 1962, que veio trazer uma nova dinâmica na informação e reforçar a luta e foi um auxiliar poderoso no esclarecimento e incitação à luta contra o fascismo de Salazar e Marcelo Caetano.


Participaram na sessão cerca de 60 alunos, duas professoras de História e três de outras áreas, e ainda a directora da escola.


Numa vitrina, no átrio adjacente ao auditório da escola, foi montada uma exposição temática.