Luta contra o fascismo recordada em homenagem anual aos tarrafalistas

homenagem tarrafalistas 2018 s3"Estamos aqui, para demonstrar que o sacrifício dos homens que sofreram no Campo de Concentração do Tarrafal não foi em vão. Estamos aqui para afirmar que lutaremos com todas as nossas forças para que o fascismo não volte mais à nossa terra", disse Marília Villaverde Cabral na cerimónia anual de homenagem aos tarrafalistas mortos, realizada dia 10 de Março no cemitério do Alto de São João, em Lisboa, junto ao mausoléu evocativo.


A coordenadora da URAP lembrou o antifascista Francisco Miguel, o último preso português a sair do campo de concentração do Tarrafal, que no livro de depoimentos "Fascismo Nunca Mais", diz: "Antifascista, Democrata, Homem progressista, quando pensares nos direitos da pessoa humana, não esqueças o Tarrafal. Se queres defender a liberdade, construir e consolidar a verdadeira democracia, faz alguma coisa para que o fascismo não possa voltar mais à terra portuguesa."


A cerimónia, que decorreu dia 10 de Março no cemitério do Alto de S. João, em Lisboa, junto ao monumento onde estão sepultados 32 tarrafalistas mortos, foi apresentada por Nuno Figueira, da direcção da URAP, que lembrou a presença nas homenagens do tarrafalista e membro da URAP José Barata, e a morte, já este ano, do último tarrafalista vivo Edmundo Pedro.

homenagem tarrafalistas 2018 s4Nuno Figueira falou da trasladação dos restos mortais de Cabo Verde para Portugal, em 18 de Fevereiro de 1978, e da gigantesca manifestação que a acompanhou e o facto da URAP, desde então, organizar estas romagens anuais.

 

Na sua intervenção, Marília Villaverde Cabral enquadrou historicamente o momento da inauguração do campo: "Vivia-se o ano de 1936. Em Espanha, irrompia a Guerra Civil. Enquanto a aviação militar da Alemanha e de Itália preparava-se para bombardear populações indefesas, como Guernica, em Portugal, Salazar enviava a Franco mantimentos, enquanto o povo português vivia a fome mais negra.

 


homenagem tarrafalistas 2018 s1"Marinheiros dos navios Dão, Bartolomeu Dias e Afonso de Albuquerque lutavam por melhores condições de trabalho e, solidários com os republicanos de Espanha, recusavam-se a desembarcar em portos franquistas. Considerados perigosos revoltosos, foram presos e expulsos da Armada. Mas os marinheiros não ficaram parados e levantaram-se contra aquelas prisões e expulsões da Marinha de Guerra. A revolta foi sufocada de uma forma violentíssima: bombardearam os navios, prenderam os revoltosos e condenaram-nos a pesadas penas.


"Este movimento, dirigido pela Organização Revolucionária da Armada (ORA), assustou Salazar que, praticamente, de imediato, mandou abrir um campo de concentração, inspirado nos campos de concentração nazis, na ilha de Santiago, o campo de concentração do Tarrafal, também conhecido por campo da morte lenta, onde o ditador pretendia assassinar os resistentes mais combativos, longe das suas famílias, das suas terras e da opinião pública."


homenagem tarrafalistas 2018 s2Depois de sublinhar que é errado pensar que "o fascismo já passou à História", a coordenadora da URAP afirmou que esta organização "tudo fará para continuar a luta contra o branqueamento do fascismo e para realizar sessões, nomeadamente em escolas, para que as gerações futuras conheçam o que foi o fascismo e o que foi a resistência."


A sessão contou com um momento de poesia por Tavares Marques, que disse Miguel Torga, Armindo Rodrigues e Ary dos Santos.
Membros do coro Lopes Graça entoaram, com os presentes, os Hinos de Caxias e do MUD (Companheiros Unidos), a "Jornada" e "Acordai".