«Façam um Mundo melhor. Ouviram? Não me obriguem a voltar cá» - disse Mário Sacramento

45 anos III Congresso Oposicao Democratica s4O salão nobre da antiga Capitania de Aveiro, hoje Assembleia Municipal, estava repleto de pessoas para escutarem antigos dirigentes do III Congresso da Oposição Democrática, de 1973, e a responsável da URAP, organização que promoveu a sessão comemorativa.


Evocar aquele momento singular do tempo da ditadura que se destacou pela unidade das forças democráticas, preservar a memória e perspectivar o futuro foram objectivos comuns aos oradores da sessão que decorreu dia 7 de Abril, na cidade de Aveiro.


Para a coordenadora da URAP, Marília Villaverde Cabral, no III Congresso "de que poderemos tirar muitos ensinamentos, destaca-se vivamente a sua grande dimensão unitária. Em unidade se lutou contra o fascismo, em unidade se lutou contra a guerra colonial, em unidade se lutou pela liberdade".


No mesmo sentido, Vítor Dias, da Comissão Nacional do Congresso, referiu que "a 45 anos de distância, merece em especial ser recordada, valorizada e homenageada a exemplar e fraterna unidade dos principais sectores e correntes políticas democráticas, com destaque para comunistas, socialistas, católicos progressistas, democratas independentes e algumas personalidades ainda ligadas ao republicanismo histórico afirmada no III Congresso e depois coerentemente prolongada na combativa intervenção na farsa eleitoral de Outubro de 1973".


45 anos III Congresso Oposicao Democratica s3Vítor Dias lembrou a figura de Mário Sacramento, "grande obreiro" dos dois congressos anteriores, "grande personalidade da cultura e intelectualidade portuguesas, um humanista exemplar", para acrescentar que "o III Congresso foi tributário dos I e II Congressos Republicanos de 1957 e 1968, realizados com as características possíveis em concretas e anteriores conjunturas políticas".


O orador lembrou o momento político que se vivia em Portugal à luz da falsa liberalização lançada por Marcelo Caetano, que apesar de mudar o nome aos principais órgão repressivos, mantinha a sua natureza fascista, "a que se somava o cada vez mais evidente atoleiro da guerra colonial em três frentes africanas", e as eleições legislativas marcadas para Outubro desse mesmo ano.


"É justo referir que o III Congresso se debruçou sobre um amplíssimo leque de problemas e sectores da vida nacional na base de centenas de teses ou comunicações, muitas delas colectivas (incluindo uma dos presos políticos em Caxias) e muitas delas - crucial novidade – elaboradas e apresentadas por grupos de trabalhadores, e contou com uma larga, generosa e entusiástica participação da juventude, uma e outra coisa inseparáveis do ascenso das lutas democráticas, populares, de trabalhadores e estudantes que se vinham registando desde 1969 (...) que, como está hoje testemunhado e comprovado pelos próprios, viria a exercer uma importante influência na formação da consciência democrática dos ´capitães de Abril´", disse Vítor Dias.

 

45 anos III Congresso Oposicao Democratica s2Depois de afirmar que esta cerimónia não se deve a um qualquer saudosismo, Vítor Dias garantiu "que a maioria dos que aqui viemos e aqui estivemos de 4 a 8 de Abril de há 45 anos pretende honrar a memória de um marco maior da resistência antifascista e de um momento muito importante nas suas vidas mas são cidadãos e cidadãs que tiveram a felicidade de fazer, viver e construir a revolução de Abril".

 

"Com os seus conflitos e asperezas é certo, mas também e sobretudo com os seus tempos exaltantes e incomparáveis de generosidade individual e colectiva, de ânsia de justiça e progresso social, de fim da guerra e de conquista da paz e da liberdade de outros povos, de elevados padrões éticos de desinteresse pessoal, fraternidade, honestidade e alto sentido de defesa e prioridade ao interesse público e às aspirações populares", sublinhou.


45 anos III Congresso Oposicao Democratica s5Jorge Sarabando, que pertenceu à Comissão Executiva do II Congresso, dirigiu a sessão, que foi organizada pelo núcleo da URAP de Aveiro e contou com a participação do presidente da Assembleia Municipal de Aveiro, Luís Souto Miranda, e o presidente da Junta de Freguesia de Vera Cruz e Glória, Fernando Tavares Marques.


Sarabando evocou Mário de Sacramento e realçou, na sua intervenção, a importância do congresso na luta contra o fascismo e as suas repercussões. Intervieram também os aveirenses, membros da Comissão Executiva do III Congresso, António Neto Brandão, António Regala e Flávio Sardo.


Neto Brandão considerou que o êxito do III Congresso se deveu "ao espirito unitário e às mais de 200 teses diversificadas apresentadas" e que os presentes queriam a construção de uma sociedade livre e democrática ao invés de benefícios ou carreirismo político. Lembrou os democratas Mário de Sacramento e Álvaro Seixas Neves e a machadada que o governo fascista levou que abriu o caminho para o 25 de Abril. Foi "um marco histórico" na história contemporânea portuguesa, garantiu.

 

António Regala, por seu lado, lembrou que o congresso de 1973 só foi autorizado por ser ano de eleições "forjadas", e como a oposição aproveitou a ocasião para denunciar o aumento do custo de vida, o custo e a injustiça das guerras coloniais e a política de monopólios. Recordou a proibição da romagem ao túmulo de Mário Sacramento, que a organização resolveu manter, e a carga policial bárbara que se lhe seguiu. "Caiu a máscara", disse.


"Vivia-se um tempo em que a imaginação e a inteligência se começavam a sobrepor ao "cinzentismo" do Estado e à brutalidade", lembrou Regala, apontado vários exemplos. Um deles foi como o grupo de teatro CETA representou textos de Bertolt Brecht, enviando o pedido de autorização ao Governo Civil com o nome do autor Eugen Friedrich. A peça foi autorizada. Na sua profunda ignorância, não sabiam que o nome completo do autor alemão era Eugen Bertolt Friedrich Brecht!


Flávio Sardo fez uma resenha dos congressos republicanos de 1957 e 1969 e lamentou a desunião da oposição nessa ocasião para sublinhar que o de 1973 foi "um exemplo de unidade democrática". O III Congresso aconteceu em moldes diferentes dos anteriores e viu a questão colonial ser discutida, afirmou. Falou ainda da selvática repressão a congressistas, jornalistas e transeuntes. Lembrou que no pilar do Programa do MFA consta três questões tratadas no congresso, como a formação de um estado democrático, a restauração da democracia e o fim da guerra colonial.

Sardo terminou citando o médico e democrata Mário Sacramento: "um democrata não morre, quando sucumbe transmite o facho e perdura nele".

 

Coube a Marília Villaverde Cabral terminar a sessão evocativa do III Congresso da Oposição Democrática. Falou do congresso de 1973, descreveu o trabalho que a URAP – União de Resistentes Antifascistas Portugueses realiza e demorou-se na análise da situação política nacional e internacional na actualidade.


"Hoje, embora numa realidade diferente, precisamos muito da unidade de todos os democratas para que não esmoreça a consciência antifascista perante os enormes perigos com que o mundo está confrontado", disse, acrescentando que "vivemos uma situação internacional marcada por uma grande instabilidade e incerteza, com a acumulação de tensões e perigos de guerra em várias regiões do Mundo".


Após dar vários exemplos de países europeus onde a extrema-direita ganha posições, falou do perigo dos partidos nacionalistas e do populismo para referir que "com diferenças e até contradições entre si, estas forças aproveitam-se do desgaste de partidos que têm estado no poder, nomeadamente sociais-democratas, que não resolveram os graves problemas dos seus países, antes os agravaram com o crescimento do desemprego e da pobreza, criando na maioria dos jovens a ideia de um futuro sem perspectivas e sem esperança".


A coordenadora da URAP lembrou ainda a luta pela democracia de alguns países da América Latina e o golpe de Estado que está a acontecer perante os nossos olhos no Brasil com a prisão do ex-presidente Lula da Silva.
"Portugal, nos seus quase 900 anos de história, precisa da unidade dos democratas e patriotas para defender a sua soberania e afirmar na Europa e no Mundo uma política de paz e cooperação, na qual se destaca o respeito pela Carta das Nações Unidas", asseverou.


"Tal como os membros dirigentes do III Congresso da Oposição Democrática, que aqui homenageamos, e que com coragem e determinação enfrentaram o fascismo, também nós hoje, em unidade, defenderemos a Liberdade e a Democracia conquistada e aprofundada pela Revolução de Abril", disse a concluir.

 

Intervenção de Jorge Sarabando

Intervenção de Vítor Dias

Intervenção de Marília Villaverde Cabral

 

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Museu da Cidade, em Aveiro, acolhe exposição sobre III Congresso da Oposição Democrática


45 anos III Congresso Oposicao Democratica expo s1No âmbito das comemorações dos "45 aniversário do III Congresso da Oposição Democrática" foi inaugurada dia 7 de Abril, e estará patente até 4 de Maio, no Museu da Cidade, em Aveiro, uma exposição fotográfica sobre o congresso.


Na inauguração estiveram presentes, entre outros, o presidente da Câmara Municipal de Aveiro, José Ribau Esteves, e os participantes da sessão evocativa do III Congresso – cidadãos aveirenses e democratas da zona de Lisboa e margem sul do Tejo que se deslocaram a Aveiro para o efeito.


Após a visita à exposição, a URAP, organizadora das cerimónias das comemorações do III Congresso, entregou uma placa evocativa aos membros da Comissão Executiva presentes e a familiares dos já desaparecidos.

 

Foram agraciados os seguintes dirigentes:


Álvaro Seiça Neves (Advogado)
António Neto Brandão (Advogado)
António Pinho Regala (Estudante)
Carlos Candal (Advogado)
Flávio Sardo (Advogado)
João Sarabando (Publicista)
Joaquim da Silveira (Advogado)
Manuel Andrade (Advogado)
Mário Bastos Rodrigues (Estudante)