Na morte de José Manuel Tengarrinha

jose manuel tengarrinhaJosé Manuel Tengarrinha, professor catedrático jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, jornalista, escritor, investigador, político, co-fundador do MDP/CDE, morreu dia 29 de Junho, em Lisboa, aos 86 anos.


O corpo vai estar em câmara ardente na Basílica da Estrela, em Lisboa, a partir das 18:00 de domingo, de onde sairá no dia seguinte para ser cremado em cerimónia reservada à família e amigos próximos.


José Manuel Tengarrinha foi uma figura destacada da resistência antifascista e da construção da democracia, um historiador e intelectual de grande mérito. Detido várias vezes, no Aljube e em Caxias, por pertencer ao MUD Juvenil, Partido Comunista Português e CDE, foi um dos presos libertados da Fortaleza de Caxias a 27 de Abril de 1974.


Em 2012, no dia em que comemorou 80 anos, José Manuel Tengarrinha foi homenageado numa iniciativa intitulada "Festa de Anos em Abril".


Poucos dias depois recebeu das mãos do então presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, a medalha de Mérito Municipal, Grau Ouro. Tinha recebido em 2006 a Medalha de Honra do Município de Cascais. Contudo, recusaria a Ordem da Liberdade, quando Jorge Sampaio quis atribuir-lha 23 anos depois da queda do fascismo.


Iniciou a actividade política aos 15 anos no MUD Juvenil (Movimento de Unidade Democrática), de que foi membro da Comissão Central, e participou em todas as grandes campanhas políticas da Oposição Democrática, que decorreram entre 1958 a 1974.

Foi candidato nas listas da Oposição pelo círculo de Lisboa, nas eleições realizadas para a Assembleia Nacional, em 1969 e 1973.
Participou no Congresso Republicano de 1969 e integrou a Comissão Coordenadora do Congresso da Oposição Democrática de 1973.

 

Integrou, nos anos 50 o núcleo redactorial de Lisboa da revista Vértice, com António José Saraiva, Júlio Pomar e Maria Lamas. Foi jornalista profissional nos jornais "República" e "Diário Ilustrado" e na revista "Seara Nova".

 

Em 1962 foi-lhe atribuído o prémio da Associação dos Homens de Letras do Porto, com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, pelo conjunto de ensaios publicado no jornal Diário de Lisboa, no ano anterior, sob o título António Rodrigues Sampaio, desconhecido.

 

Participou e liderou a constituição da Comissão Democrática Eleitoral (CDE), nascida em Lisboa, que se estendeu a muitos distritos do país, para disputar as eleições de 1969, em plena ditadura.

 

Após o 25 de Abril foi eleito presidente do MDP/CDE e, por esse partido, deputado à Assembleia Constituinte, em 1975-76, e nas quatro primeiras legislaturas, até 1987.

 

Em 1974 foi convidado a reger a cadeira de "História do Jornalismo" no Curso Superior de Jornalismo do Instituto Superior de Meios de Comunicação Social, actividade que exerceu até ao encerramento desse Instituto, em 1982.


Em Outubro de 1974 foi convidado a ingressar no corpo docente da Faculdade, na categoria de equiparado a professor auxiliar. Doutorou-se nesta Faculdade em 1993.

 

Autor da primeira "História da Imprensa Periódica Portuguesa", editada originalmente em 1965 e, depois, em 1989, retomou mais tarde o ramo que elegeu como alvo de estudo - a história oitocentista-, para dar o primeiro volume da "Nova História da Imprensa Portuguesa das Origens a 1865", na qual reúne a investigação do historiador sobre o liberalismo oitocentista.


Tem numerosas obras publicadas em Portugal e no estrangeiro, no domínio da História e das Ciências Sociais, com destaque para Obra Política de José Estêvão, 1962; História da Imprensa Periódica Portuguesa, 1965 e 1989; A Novela e o Leitor. Estudo de Sociologia da Leitura, 1973; Diário da Guerra Civil. Sá da Bandeira, 1975-1976. Combates pela Democracia, 1976; Estudos de História Contemporânea de Portugal, 1983; Da Liberdade Mitificada à Liberdade Subvertida; Uma Exploração no interior da repressão à imprensa periódica de 1820 a 1828.


Movimentos Populares Agrários em Portugal – 1750-1825, 1994; História do Governo Civil de Lisboa, 2002; Imprensa e Opinião Pública em Portugal, 2006; E o Povo onde está? Política Popular, Contra-Revolução e Reforma em Portugal, 2008. Portimão e a Revolução Republicana, 2010. Numerosas separatas da sua autoria foram editadas por universidades de Itália, França, Holanda e Espanha, além de Portugal.


No Brasil (São Paulo), publicou A Historiografia Portuguesa, Hoje, 1999; Historiografia Luso-Brasileira Contemporânea, 1999 e História de Portugal, 2003 (3 edições).


Em 2011, a convite da Assembleia da República, publicou José Estêvão – O Homem e a Obra.


Em Fevereiro de 2012 faz, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, a apresentação pública dos resultados do projecto Legislação do Brasil Colonial (1502-1706).


A URAP apresenta à família as suas mais sentidas condolências.