Tarrafalistas homenageados junto ao memorial do Alto de S. João

tarrafalistas 2019 s7"O Tarrafal não foi um sonho mau; foi um crime tremendo, friamente meditado e friamente executado", disse Ana Pato, citando Francisco Miguel, o último sobrevivente a sair do Tarrafal, em 1953.

 

A dirigente da URAP falava na homenagem anual junto aos restos mortais dos 32 antifascistas portugueses trasladados, em 1978, do Campo da Morte Lenta para o Mausoléu dos Tarrafalistas, no sábado, dia 23 de Fevereiro, no cemitério do Alto de S. João, em Lisboa.

 

A cerimónia foi apresentada por Nuno Figueira, da direcção da URAP, e contou com um momento de musical com Pedro Salvador, que cantou José Afonso, no dia em que, coincidentemente, se completava 32 anos da sua morte , com "Eu vou seu como a toupeira", "De não saber o que se espera", "Canta camarada" e "A morte saiu à rua".

 

Actuaram ainda a actriz Marina Albuquerque, que interpretou os poemas "Abandono", de David Mourão Ferreira, "O segredo", de Luís Veiga Leitão, "Poema" e "Regresso", de Amílcar Cabral, e "Aos mortos-vivos do Tarrafal", de Ary dos Santos, e o coro Lopes-Graça, que cantou "A Jornada" e "Acordai".

 

tarrafalistas 2019 s5Ana Pato (ver intervenção) fez uma resenha histórica do campo que abriu como prisão a 23 de Abril de 1936, lembrando que "o Tarrafal foi um campo de morte, o "campo da morte lenta", um campo de concentração criado à imagem dos campos de concentração nazi".

 

Para melhor ilustrar o clima vivido na ocasião, a oradora referiu-se às palavras ditas pelo director do campo: "Quem vem para o Tarrafal vem para morrer"; ou as do médico: "não estou aqui para curar doentes, mas para passar certidões de óbito".

 

 

 

 

tarrafalistas 2019 s1"Durou 18 anos esta primeira fase de funcionamento do campo do Tarrafal. A primeira leva de 152 presos eram participantes da insurreição do 18 de Janeiro de 1934, na Marinha Grande, e da Revolta dos Marinheiros, nos navios de guerra nesse ano de 36. Por lá, ao todo, passaram 340 antifascistas. Entre eles estava o secretário-geral do PCP, Bento Gonçalves. Ele não voltou. A soma do seu tempo de prisão ultrapassa os 2000 anos", disse, acrescentando que "no Tarrafal, havia a biliosa e havia a frigideira. Quem não morreu, regressou com a saúde comprometida".

 

 

 

 

 

tarrafalistas 2019 s2Recordou de novo Francisco Miguel no seu "apelo cheio de futuro": "Antifascista, democrata, homem progressista - quando pensares nos direitos da pessoa humana, não te esqueças do Tarrafal. Se queres defender a liberdade e construir e consolidar a verdadeira democracia, faz alguma coisa para que o fascismo não possa voltar mais a terra portuguesa. O Tarrafal simboliza 48 anos de política criminosa. Nós, povo português, não podemos permitir que esse crime se repita".

 

"Da parte da URAP, reclama-se a intervenção sobre o momento presente. A URAP não é apenas a organização dos que lutaram pelo derrubamento da ditadura portuguesa. É de todos quantos hoje lutam pela liberdade e a democracia", afirmou, exemplificando que é "por isso a URAP desdobra-se para fazer sessões em escolas, numa acção que chega a milhares de jovens".

 

 

tarrafalistas 2019 s3"O mesmo em relação ao livro sobre o forte de Peniche. Está a ser uma iniciativa de grande sucesso. Vai já na 4a edição. E também em relação ao muito recente livro sobre o Movimento da Juventude Trabalhadora, afirmou, realçando que "estes livros valem, não só por si e pelo registo histórico que permitem, mas também pela larga dezenas de sessões que nos estão a permitir realizar pode todo o país".

 

 

 

 

 

 

tarrafalistas 2019 s4Depois de falar na criação de um Museu Nacional da Resistência e Liberdade no Forte de Peniche, que será inaugurado parcialmente a 27 de Abril próximo, Ana Pato apelou ao reforço da URAP, recordando no final de que "o momento actual exige compromisso e acção de cada um de nós".

 

 

 

 

 

 

 

tarrafalistas 2019 s6A cerimónia - que contou com a solidariedade e apoio da Voz do Operário e da União de Sindicatos de Lisboa - terminou com os presentes a entoarem o Grândola Vila Morena e o Hino Nacional.