Núcleo de Aveiro da URAP debate "O populismo/fascismo na perspectiva nacional e internacional"

debate ovar goulao s3Os "males da ditadura que flagelou Portugal e flagelou a Espanha estão longe de ultrapassados e esses fantasmas não são tão fantasmas quanto isso. São de carne e osso e estão vivos numa nova geração", disse José Goulão, dia 13 de Abril, no Museu de Ovar.


José Goulão falava num debate organizado pelo núcleo de Aveiro da URAP intitulado "O populismo/fascismo na perspectiva nacional e internacional", dirigido por Rosa Aldina Valente, e que contou com mais de 30 participantes que possibilitaram profusa e ampla discussão.


Na sessão foram expostos os avanços do fascismo e os múltiplos aspectos que o fazem singrar, no presente, no plano nacional e internacional.

 


debate ovar goulao s2Deu-se relevância ao populismo como factor de domínio das consciências, à crescente exploração dos trabalhadores e ataque aos direitos do trabalho, à maior distanciação dos direitos cívicos dos cidadãos e à militarização da repressão de manifestações, dando os casos concretos da França no fenómeno dos "coletes amarelos" e Reino Unido no quadro da sua saída da União Europeia, pois perspectivava-se aplicar a lei marcial neste período, isto é, substituir o poder político eleito pelo poder militar no domínio da acção política na ilha britânica.


Nesta linha, avaliou-se a legitimidade dos actos eleitorais, processos que hoje já não são exemplos de respeito pela essência da liberdade de expressão das pessoas, pois são processos orientados pela comunicação social direccionando a decisão dos eleitores para determinados interesses, usando com eficácia as suas mensagens simplistas e por vezes com informação periférica que visa abstrair as pessoas dos seus problemas reais, residindo aqui o risco para o fascismo. Segundo José Goulão, «é aqui que existe o confronto entre a democracia e o fascismo, e o agravamento de formas autoritárias de poder».


debate ovar goulao s1No debate, salientou-se também o papel determinante que os partidos que integram o espectro centro direita e centro esquerda têm tido no encaminhamento da cena politica para esta deriva de extrema-direita, dado estes, tal como os partidos fascistas aplicarem exactamente a mesma doutrina económica neoliberal. Assim estes partidos dissolvem-se em políticas cada vez mais autoritárias. Para confirmar esta tese foram dados os exemplos da França, da Alemanha e da Itália, lembrando o despudor com que o actual presidente do Parlamento Europeu, António Tajani, valoriza aspectos da governação de Mussolini. Para José Goulão, este despudor não existia há 10 anos.


Abordou-se a política dos EUA, pela natureza fascista do seu actual presidente Donald Trump, e para fazer ver que este presidente não foi escolhido ao acaso ou por acidente. Resulta sim, das necessidades reais de um sistema político e sobretudo do sistema económico que governa os Estados Unidos. Lembrou-se que o chamado complexo militar-industrial é aquilo que fica enquanto os presidentes passam. É deste sistema de domínio económico, militar e financeiro que vive o capitalismo neoliberal. Em determinados períodos da história, para se manter como concepção dominante, o capitalismo tem necessidade de se rever no fascismo.


Fez-se igualmente referência ao presumível antagonismo entre os diversos governos de direita e extrema direita, tendo como cerne de desentendimento as suas relações com a Rússia. Para que se saiba poderão haver desentendimentos mas, é mais forte o que os une do que o que os separa porque, no essencial quando se tratar de aplicar o capitalismo neoliberal eles unir-se-ão. Unir-se-ão se for essa a necessidade sentida pelo capitalismo, e os EUA já diligenciaram esse trabalho em Steve Bannon, já para as próximas eleições europeias.


Este já é um facto real e actual, os sistemas fascistas estão a tomar o poder na União Europeia e pela via eleitoral e não é acidental. A opinião da população mundial é dominada, por 14 grupos de comunicação social que dominam o mundo, e por ela recebemos informação padronizada e com determinados objectivos. Se um dia o objectivo for apoiar o fascismo não tenhamos dúvidas que esses 14 grupos vão apoiar o fascismo.


Enquadrando com a realidade portuguesa, referiu-se que Portugal ainda tem uma memória muito viva da ditadura fascista, além disso, construiu defesas que se mantêm mas, devemos estar atentos aos sinais. O respeito pela Constituição da República Portuguesa não é por si só um dado adquirido senão não teriam feito o que fizeram à Venezuela, não cederiam com tanta facilidade às exigências da NATO. Portugal está integrado numa organização militar que diz que defende mas, ataca permanentemente outros países, uma organização militar que herdou a sua natureza do aparelho nazi de Hitler. A sua militarização é absolutamente autoritária, arbitrária e que não se compadece minimamente com mecanismos democráticos, no entanto Portugal aceitou aumentar a sua participação no orçamento para a NATO, ou seja, Portugal está a dar uma verba altíssima e que muita falta faz para projectos sociais, para hospitais e para escolas em Portugal. Portugal disponibilizou-se agora, para aumentar mais ainda a sua intervenção financeira em guerras que não são do interesse dos portugueses.


Outros dos fenómenos que ocorrem dentro e fora de Portugal, prende-se com a desvalorização de grupos que se assumem perfeitamente com o nazismo sendo dados como grupos mais ou menos folclóricos mas, marginais que não devem ser levados a sério. Mas, devem ser levados a sério, porque são grupos terroristas, tem mensagem e discurso de ódio que são proibidos pela constituição mas, contra os quais a Constituição não é utilizada.


Apesar da memória da ditadura fascista e das defesas construídas contra futuras ameaças, foi reforçado que Portugal não vive isolado da União Europeia e se as tendências se mantiverem de reforço do autoritarismo, da extrema-direita e do fascismo a avançar pela Europa, não tenhamos dúvida que chega cá e alguns democratas se converterão com muita facilidade às novas tendências que vierem de fora. Uma vez que a corrente fascista seja forte não se pode pôr as mãos no fogo pelos cuidados democráticos de grande parte da classe política. Portanto, não estamos imunes ao fascismo, temos que consciencializar as pessoas para estes perigos, sem alarmismo, sem sobrevalorizar a ameaça, porque a realidade já é suficiente para alertar todos para este problema.


Sublinhe-se que os governos da Hungria, Itália, Polónia, Estónia, Croácia, entre outros, foram eleitos e com apoio de governos ditos democráticos. Deram-se golpes de estado na Ucrânia para impor a democracia e acabou-se no nazi-fascismo. Na Venezuela subverteram-se os resultados das eleições e foi-se buscar um presidente para "corrigir" o erro do povo. Foi-se buscar um presidente interino a um grupo fascista, que por acaso, pertence à Internacional Socialista e estas contaminações são extremamente perigosas quando a tendência global, é uma tendência do autoritarismo, do fascismo.


Estas notas são essenciais para se ganhar consciência, para não se seguir o trilho da comunicação social que leva a pensar que o fascismo é conceito do passado, não vale a pena levar esta ameaça a sério. Por curioso que pareça, muitos jornalistas acreditam que não estão a mentir. Presumem que estão a falar a verdade. Mas a verdade é que a comunicação social tem muita responsabilidade no estado a que se chegou, e o fascismo é uma realidade que está à nossa volta. Não podemos ignorar, nem permitir que outros ignorem.
«Acho bom que alertemos com o devido cuidado com o devido fundamento mas, que alertemos que esta realidade é uma realidade que nos toca de perto e que os males dos anos 40 e 50 do século passado estão longe de ultrapassados. Males da ditadura que flagelou Portugal e flagelou a Espanha estão longe de ultrapassados e esses fantasmas não são tão fantasmas quanto isso. São de carne e osso e estão vivos numa nova geração.


Era este o alerta que eu queria deixar», disse, para terminar, José Goulão.