Encontro-Convívio de ex-presos políticos, familiares e antifascistas leva a Peniche centenas de democratas

Encontro Peniche 26 Ou 2019 s7Visitas guiadas por ex-presos políticos no Forte de Peniche, intervenções políticas e canto livre preencheram, dia 26 de Outubro, o Encontro-Convívio de ex-presos políticos, familiares e antifascistas que se reuniram para celebrar a construção do Museu Nacional da Resistência e da Liberdade.


Numa iniciativa da URAP, para assinalar o encontro de há três anos que visou a revolta contra o anúncio feito então pelo Governo que a fortaleza seria uma pousada turística de luxo, Marília Villaverde Cabral saudou as centenas de pessoas presentes e lembrou todo o processo de luta daí decorrente.


A coordenadora da URAP, congratulou-se com a inauguração da primeira fase e com as obras em curso do futuro museu destinado a mostrar "os locais onde os presos políticos viveram anos a fio, foram castigados ou torturados, e os documentos, fotografias, vídeos que retratam factos desse período negro da nossa História e onde investigadores, mestrandos e doutorandos vão poder enriquecer os seus trabalhos".


Encontro Peniche 26 Out 2019 1s"O número de visitantes, mais de 100 mil e sempre a crescer, demonstra bem o interesse das pessoas de todo o país em conhecer esta parte da nossa História que não é falada nas escolas, na comunicação social, com raras excepções. E assim, passo a passo se vai esquecendo e branqueando o fascismo", disse.

 

 

 

 

 

 


Encontro Peniche 26 Ou 2019 s2Vítor Dias, da URAP, falou sobre a 5ª edição do livro "Forte de Peniche – Memória, Resistência e Luta", que atingiu já 11 000 exemplares, um notável êxito no plano editorial português, e da sua divulgação em muitas dezenas de sessões públicas por todo o país envolvendo muitas centenas de democratas.

 

Este livro, afirmou Vítor Dias, "tem sido um valioso instrumento da luta que, por imperativo de consciência, travámos contra o projecto de transformação do Forte de Peniche num hotel de luxo e pela edificação (...) de um Museu Nacional da Resistência e da Liberdade".

 

Depois de elencar o trabalho desenvolvido por todos para que a criação do museu fosse possível, Vítor Dias considerou que foi "uma grande vitória na preservação dos valores da memória histórica e na pujante afirmação do valor supremo da liberdade e que valeu a pena a persistência, a tenacidade, a firmeza de convicções e a unidade dos que souberam reclamar e lutar".

 

Vítor Dias referiu os mais importantes capítulos do livro, falou da libertação dos presos políticos da fortaleza, homenageando o papel desempenhado pelos Cdte. Machado dos Santos e Major Moreira de Azevedo, e destacou a lista dos 2 510 antifascistas que cumpriram penas em Peniche entre 1934 e 1974.

 

"(...) Mais do que uma lista de nomes, nunca nos esqueçamos que se trata mais de uma lista de 2 510 vidas, vidas sofridas e vidas aprisionadas mas sobretudo vidas que são exemplo de coragem e firmeza, vidas que se sacrificaram para que, entre tantas outras conquistas passadas, hoje possamos estar aqui não a celebrar saudades que não temos desse passado de sufoco, terror e negrume que foi o fascismo mas a levantar sempre e sempre a bandeira dos grandes valores e ideais progressistas que são essenciais à construção do nosso futuro colectivo", disse.

 

Encontro Peniche 26 Ou 2019 s3A sessão pública dirigida por João Neves, do núcleo de Peniche da URAP, terminou com a intervenção do ex-preso político e dirigente da URAP José Pedro Soares.

 

 

 

 

 

 

 

Encontro Peniche 26 Ou 2019 s4Para José Pedro Soares, foi a mobilização dos democratas que conseguiu libertar todos os presos políticos após o 25 de Abril de 1974, como foi a mobilização dos democratas que conseguiu erguer na Fortaleza o museu da resistência.

 

O orador saudou o papel de todos os antifascistas neste projecto, destacando a URAP pelo levantamento dos nomes dos presos políticos que se encontram inscritos no memorial, e referiu o roteiro antifascista da solidariedade da população Peniche.

 

José Pedro Soares lembrou outros símbolos da luta e resistência ao fascismo pelos quais a URAP se tem batido, como mausoléu aos presos políticos caídos no Tarrafal, o museu do Porto na antiga sede da PIDE, e o Museu do Aljube, em Lisboa. Saudou ainda o projecto em concretização na cadeia de Caxias, onde estiveram encarceradas sobretudo mulheres.

 


Encontro Peniche 26 Ou 2019 s6A exumação do ditador espanhol, Francisco Franco, do Vale dos Caídos para um cemitério comum, ocorrida dia 24 de Outubro, e a vontade da autarquia de Santa Comba Dão de transformar a escola primária do ditador português, Oliveira Salazar, num museu alegadamente para estudo do fascismo, mas que se poderá transformar rapidamente num local de culto e exaltação das ideias reaccionárias e de direita contrárias ao espírito da revolução de Abril foram assuntos tratados no discurso.

 

Na sua intervenção, José Pedro Soares não esqueceu a actualidade internacional recordando vários povos em luta, e denunciando a existência de presos políticos na Catalunha. "Somos antifascistas e internacionalistas, somos solidários", sublinhou.

 

Encontro Peniche 26 Ou 2019 s5Todos os momentos da festa foram entrecortados com Canto Livre, numa actuação a cargo dos "Amigos de Abril" que entoaram várias músicas do cancioneiro da resistência, acompanhados pelos presentes, e por António Pais que disse poemas de Ary dos Santos e dos presos Francisco Miguel, "Natal dos Presos Políticos" de 1965, e António Borges Coelho, "Roseira Verde" de 1962 - Tenho uma roseira verde/que dá rosas todo o ano./A cada rosa que nasce/o meu rosto sofre dano./No canto da minha cela/tenho uma roseira verde.