URAP evoca nascimento de Virgínia Moura no Porto

busto virginia moura sVirgínia Moura, que dedicou a sua vida à luta antifascista, presa política por 16 vezes, foi evocada pelo núcleo da URAP do Porto nos 105 anos do seu nascimento, em cerimónia realizada dia 25 de Julho na Rua do Heroísmo, ex-sede da PIDE naquela cidade, com a presença de cerca de 30 pessoas.


A comemoração iniciou-se com o poema de Papiniano Carlos dedicado a Lobão Vital, a Virgínia Moura e à luta antifascista, lido por Ilda Marques; seguindo-se a alocução de Maria João Antunes, bolseira de investigação na Faculdade de Psicologia e Ciências de Educação do Porto, que evocou a vida e o combate de Virgínia, equiparando o seu exemplo à luz dos problemas e das lutas actuais; e por último falou Mário João Mesquita, arquitecto e autor do projecto em curso na ex-Pide, que deu conta do andamento dos trabalhos, das dificuldades mas também das vitórias da URAP para a execução naquele espaço de memória da luta antifascista no Porto.


"Foi um retorno ao Heroísmo", disse a dirigente da URAP Maria José Ribeiro, "depois de vários meses de confinamento causado pela crise do covid-19 que, apesar de tudo, não impediu que através da internet continuassem a ser passados filmes em contexto".

 


virgina mouraMaria João Antunes afirmou que "evocar Virgínia Moura é antes de mais um exercício de reflexão histórica que nos convoca para as batalhas de hoje. A vida de Virgínia Moura confunde-se com a vida de luta de trabalhadores e trabalhadoras e do povo português contra o fascismo, o colonialismo, a repressão e por uma sociedade livre da opressão e da miséria (...)".


"Virgínia Moura foi a segunda mulher em Portugal a licenciar-se como engenheira civil, mas nunca pôde exercer a sua profissão em cargos públicos ou ter acesso ao ensino, os seus projectos, durante o fascismo, foram sempre assinados por outros para garantir a aprovação. Conhecida resistente ao fascismo foi profundamente prejudicada profissionalmente ao longo da sua vida e até ao 25 de Abril", prosseguiu.


"Virgínia Moura foi presa 16 vezes e torturada umas outras tantas, foi agredida por diversas vezes pela PIDE e polícias, foi condenada três vezes pelos tribunais fascistas e nunca deu um passo atrás. A história da repressão fascista anda de mão dada com a história da resistência de Virgínia Moura. Um apontamento histórico: Virgínia Moura testemunhou no Porto no processo contra o MUD Juvenil entre 1955 e 1957 [1] e aí denunciou os maus tratos sofridos pelos jovens presos, torturas do sono que em alguns casos chegaram aos 11 dias e 11 noites; espancamentos com um chicote conhecido por cavalo marinho, a murro e a pontapé, mas também com boxe metálico; meses e meses de isolamento; transferências e períodos de internamento no Hospital Conde Ferreira sem conhecimento às famílias, tortura de estátua etc.", acrescentou.

 


homenagem virginia moura porto julho 2020"Virgínia Moura resistiu e lutou, no seu tempo por uma revolução. E a revolução veio, mas não como súbita explosão de vontades. Abril não foi de repente nem sem aviso. É o que nos parece a nós que não vivemos esses dias, meses de turbilhão, mas o que parece nem sempre é e este é o caso. Abril fez-se de muitas Virgínias, fez-se de muita dor, de muita fome, de muito frio, de muitos partos em casa, de muitos abortos em vão de escada, de muitas mulheres repudiadas (...)", disse ainda Maria João Antunes.

 

Como outrora escreveu o escritor Ferreira de Castro numa mensagem de solidariedade à revolucionária comunista, repetindo uma expressão usada por Teixeira de Pascoaes, Virgínia era bem uma "força da natureza".

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[1] MUD Juvenil e a repressão fascista, Texto de Pedro Ramos de Almeida disponível no site da DORL do PCP em http://www.dorl.pcp.pt.