Neonazis /Skinheads em Portugal

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Feliciano David

O nazi-fascismo constitui a face mais negra do capitalismo selvagem, que em determinados contextos de crise socioeconómica e política emerge sob novas formas, impondo-se através da violência.

Hitler ascendeu ao poder quando o desemprego e a miséria grassavam na Alemanha na sequência da derrota na I Guerra Mundial e do caos económico decorrente da crise financeira de 1929 e do fracasso da política do governo social democrata no poder.

No contexto actual o desemprego, o trabalho precário, o agravamento das condições económicas e a insegurança social provocadas pela globalização neoliberal favorecem na Europa o crescimento da extrema-direita.

Não surpreende pois a notícia de que segundo a Stern um quarto dos cidadãos germânicos defende o nazismo (Expresso, 20/10/2007).

Em Portugal, o defraudar das esperanças que o 25 de Abril abriu e o fracasso da política de sucessivos governos tem gerado a descrença e o sentimento de frustração das populações em relação ao regime democrático que foi habilmente explorado pelos sectores mais reaccionários e saudosistas do salazarismo e criou um clima favorável à reabilitação do fascismo e ao aparecimento de grupos neonazis.

E as consequências estão aí, manifestando-se através de recrudescimento de acções de cariz nazi-fascista, xenófobo e racista levadas a cabo por grupos de skinheads que se constituíram nos últimos anos, como a "Ordem Lusa e Orgulho Branco", e "Irmandade Ariana", os quais lançaram o site Fórum Nacional, criaram a estrutura Frente Nacional e montaram uma Skin House, integrando-se na organização internacional Hammerskin Nation, e propunham-se promover clandestinamente uma reunião internacional em Lisboa.

Assim, são responsáveis por agressões e acções intimidatórias que ocorrem ultimamente com maior frequência e nos mais diversos locais, nomeadamente em Lisboa, no Alto dos Moinhos, Alcântara, R. Marquês de Fronteira, Restauradores, Cais do Sodré, Chiado, R. Garret, Santos, Rua da Fé, bem como em Peniche, estação de Cascais, na Amadora e na Maia. Na página da Internet que criaram, estes grupos de extrema direita publicaram uma lista com o nome e as fotos de 23 alvos "a abater".

Esta actividade levou recentemente à prisão algumas dezenas de skinheads (entre os quais o seu líder Mário Machado que já tinha sido condenado a dois anos e meio de prisão envolvido no homicídio por motivos raciais de Alcino Monteiro, ocorrido em 1995 no Bairro Alto), acusados de vários crimes, nomeadamente da posse ilegal de armas, agressões, sequestros e discriminação racial. Na sua sede em Loures a Polícia Judiciária encontrou bandeiras com a cruz suástica, retratos de Hitler e outro material de propaganda do partido nazi.

Estes incidentes não são casos isolados pois a eles juntam-se outros sinais inquietantes ocorridos recentemente como a eleição de Salazar como o maior de entre os "Grandes Portugueses", a tentativa de criação do Museu Salazar em Santa Comba Dão ou a profanação por skinheads do Cemitério Judaico em Lisboa. Se Salazar está morto e sepultado a ideologia fascista que representava não foi enterrada.

Estes acontecimentos alertam-nos para que o nazismo, como fenómeno histórico está vivo e pode vir a pôr em perigo a democracia.

E não é demais repetir que quem esquece a história corre o risco de vê-la repetir-se.

Feliciano David