25 de Abril e a Juventude

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Rosa Medina

desenho_cravoTenho 20 anos. Não vivi o 25 de Abril. Não vivi a ditadura. Nunca senti o que foi para um jovem desenvolver-se num ambiente opressivo, esmagador e castrante de qualquer tipo de aspirações pessoais como foi o regime fascista em Portugal. Igualmente nunca cheguei a sentir a emoção, a profunda alegria e excitação de ver e sentir a revolução de Abril com tudo que ela trouxe. Os jovens de então viveram não só este momento histórico como o ajudaram a construir e como floriram com as conquistas para a democracia que não tardaram a ser exigidas e postas em prática pelo nosso povo.

 

E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!

José Carlos Ary dos Santos
Julho/Agosto de 1975

Eu nasci numa época completamente diferente; os direitos um dia conquistados à custa de esforços mil de tantos rapazes e raparigas, homens e mulheres não estão mais seguros.

A nossa revolução tem quase 34 anos e nestes anos que passaram desde o 25 de Abril muita coisa mudou. Sem dúvida que grandes passos foram dados, direitos reconhecidos, justiças repostas - no entanto vivemos uma época histórica em que nos tentam fazer acreditar que nada disso é importante, que em nome do "défice", da "sustentabilidade", da "europeização" e outros bonitos e sonantes nomes temos mais é que esquecer As portas que Abril abriu.

À luz do dia espezinha-se a liberdade e a democracia como se de ervas daninhas se tratasse e nesses atropelos os jovens são vítimas preferenciais. Quer na educação, saúde, habitação ou cultura tiram-nos o tapete debaixo dos pés a uma velocidade nunca vista. Todos os dias novas medidas! Todos os dias, por todas as frentes nos impedem de ter um crescimento saudável e completo! Indo a exemplos concretos de como os abusos já nem camuflados estão: na Escola Secundária de Esmoriz (no distrito de Aveiro) os estudantes estão profundamente revoltados! Então não é que o Conselho Executivo [C.E.] se achou no direito de não permitir a um membro de uma das listas para a Associação de Estudantes estar na mesa de votos?! E - ao terceiro acto eleitoral por confusões várias - quando os estudantes se aperceberam de fraude eleitoral cabal - mais votos que votantes (!) - o Conselho proibiu novas eleições?!

 Isto é mau, sempre. Mas é pior quando não é um acto isolado, de norte a sul este tipo de problemas não param de acontecer! Proíbe-se a formação de Associações, proíbe-se a colocação de propaganda de luta do ensino secundário, acções de campanha para a Associação de Estudantes...ou seja, os CCEE seguindo directrizes do Governo, reservam para si poderes que não lhes pertencem!

No ensino superior as coisas não estão melhores, de todo. Há uns meses um grupo de jovens antifascistas apoiados pela URAP organizou uma pintura de mural na Faculdade de Letras de Lisboa em defesa de Abril e da Democracia e em resposta aos ataques que se tornaram comuns, nomeadamente por neonazis, nesta faculdade. À hora marcada apercebemo-nos que não só tínhamos mobilizado muita gente para a iniciativa como ainda tínhamos a companhia de uma carrinha da polícia de intervenção rápida da PSP como cerca de 40 skinheads aperaltados como convêm para intimidar. Logicamente não intimidaram e prosseguiu-se como planeado, mas surpresa das surpresas, a polícia respondeu às tentativas de intimidação dos neonazis obrigando-nos a parar com a pintura do mural! Estavam a cumprir ordens, é claro, mas é assustador como esse tipo de ordem é cada vez mais frequente. Pintar um mural, colar um cartaz ou distribuir um panfleto tornaram-se acções proibidas - com direito a identificação, apreensão de materiais e ameaças de processos penais. Este é o ambiente que se vive nas Universidades e no país. De mansinho o ensino está cada vez mais elitista, cada vez mais uma questão de dinheiro e menos um direito. Cursos que no primeiro ciclo custam quase mil euros e no mestrado chegam aos cinco mil euros, a acção social escolar a descer e os empréstimos a subir, a falta de participação dos estudantes nos órgãos de direcção das escolas...nunca mais acaba a lista de injustiças cometidas diariamente!

Como disse tenho 20 anos. Vivo num Portugal não tão democrático, justo e fraterno quanto muitos de nós gostariam. Cada vez menos sentimos que o trabalho é um direito, que a jornada deve ser de 8 horas, que o salário deve ser digno tal como as condições em que é exercido; o incentivo à habitação agora é ou pedir um empréstimo ou ter pais ricos - a tal "porta 65" não dá tecto a ninguém que precise; na saúde é uma vergonha: cada vez mais para quem tem dinheiro e cada vez menos um direito assegurado por um Sistema Nacional de Saúde público, célere e eficiente e a cultura está nas ruas da amargura, seja no ensino seja na fruição e criação - apoios: nem vê-los! Enfim, um sem número de limitações que nos são impostas.

Viver o 25 de Abril foi algo mais que marcante, foi um momento na vida do nosso país e do mundo sem igual. E os nossos jovens sabiam-no. Quando saíram à rua nesse dia de sol que até hoje não se pôs sabia-se que aquele era um passo histórico mas que ao mesmo tempo era só um movimento na engrenagem que se tornou urgente não deixar parar. Sair à rua significou força e aprovação, significou uma assinatura, uma responsabilização. Os nossos jovens que saíram - de Lisboa às mais pequenas aldeias - gritaram pela Liberdade e gritaram para si próprios e para os outros que a revolução também era deles e que como tal dependia também deles faze-la florir.

Floriu, Abril floriu. O acesso à educação expandiu-se brutalmente, o acesso à saúde também. De um dia para o outro podia-se finalmente exigir condições de trabalho e de vida dignas sem com isso se arriscar a vida. Conquistou-se a terra, o pão, a fábrica e a cultura. Andava-se na rua e um sentimento de orgulho tomava quem caminhava: "Este país é nosso, este chão que piso, este ar que respiro, o produto do meu trabalho é nosso!". Que alegria reinava no peito de quem via o mundo como um lugar para a lealdade, a virtude, a fraternidade e o amor aos companheiros imperarem!

Penso nesse estado de euforia, que quase consigo sentir. Penso no esforço que exigiu avançar com a revolução, levá-la mais longe. Mas levou-se, as desigualdades diminuiriam, a justiça aumentou. No entanto nem tudo ficou feito, nem tudo foi possível. A contra-revolução avançou e castrou muitos dos anseios da juventude.

Mas a luta sempre foi o caminho e isso não mudou. Este não é o fim da História mas sim um novo capitulo, que só depende de nós escrever o desenlace. Vamos lutar para manter abertas as portas que Abril abriu!