Sobre a luta anti-fascista na Grécia e o assassinato do músico Pavlos Fyssas

pavlos fyssasRui Vasco Silva

O recrudescimento do fascismo na Grécia não se iniciou em 2012, culminando com a obtenção de 7% dos votos por parte do chamado "Aurora Dourada" nas eleições gerais de Junho desse mesmo ano. O fascismo é como uma doença infecciosa que hiberna por períodos mais ou menos prolongados, para reaparecer - de forma brutal - quando o capitalismo mais dela precisa. Em 2009 tinha sido o partido "LAOS" - uma organização reaccionária de extrema-direita - que havia obtido mais de 5% (entretanto caiu para pouco mais de 1,5%) a fazer soar os alarmes de uma progressiva subida das forças mais extremistas, anti-operárias e anti-comunistas da direita grega.


O problema - para o qual o KKE (Partido Comunista Grego) desde há muito vinha alertando - é que no contexto de absoluta destruição económica, política e social da Grécia as forças políticas e para-militares de natureza nazi-fascista encontraram um contexto extremamente permeável à sua mensagem de ódio e segregação, com consequências dramáticas para a segurança e a liberdade de uma boa parte daqueles que - sendo ou não gregos - vivem nas principais cidades helénicas.

O recente assassinato do músico Pavlos Fyssas, antecedido por agressões barbaras a sindicalistas membros do KKE na zona do Piraeus, é o desfecho esperado de um conjunto de acções violentas levadas a cabo por grupos armados do "Aurora Dourada", herdeiros directos das Sturmabteilung (SA) alemãs. A acção aterrorizante levada a cabo pelos grupos neonazis gregos, tendo como alvos fundamentais os imigrantes, activistas sindicais e militantes do KKE, foi por diversas vezes denunciada sem que quaisquer medidas fossem tomadas por parte das autoridades gregas no sentido de proteger cidadãos indefesos dos grupos organizados de agressores.

É curioso notar que os alvos dos grupos armados do "Aurora Dourada" não são aqueles que colocaram a Grécia calamitosa em que se encontra. Pelo contrário, assumindo o habitual papel de tropa de choque do capitalismo e dos seus centros de poder, a extrema-direita direcciona o seu ódio assassino contra os mais desprotegidos por um lado - e na Grécia estes têm sido fundamentalmente os imigrantes - e contra os mais consequentes adversários do sistema por outro - os membros da frente sindical PAME e do KKE. Esta realidade é sublinhada pelo comunicado divulgado recentemente pela PEAEA-DSE, organização anti-fascista e de resistentes grega, homóloga da URAP e também membro da FIR.

A tomada de posições relevantes no seio da polícia e do exército por parte de membros ou apoiantes da extrema-direita grega fez-se sem que nenhuma instituição política com poder executivo na Grécia tivesse actuado em defesa da democracia. O "Aurora Dourada" teve assim a possibilidade de aceder a armamento, formação militar e a um vasto campo de recrutamento, gerando uma situação de perigo potencial extremamente grave, que tem como responsáveis fundamentais aqueles que têm conduzido a Grécia à condição de estado pária numa União Europeia feita à medida da dominação alemã. A bandeira do Reich parece flutuar novamente (à semelhamça do que aconteceu durante a II Guerra Mundial), ainda que não esteja lá visível, diante do Parthenon, dominando toda a cidade de Atenas.

A luta anti-fascista assume-se assim como uma das frentes de combate mais relevantes do contexto político, económico, social e cultural grego. Uma luta que não se desliga de outras igualmente relevantes, numa interdependência que me parece evidente: a luta pela retoma da soberania grega, contra a dominação das troikas, contra o "memorando" grego, contra a União Europeia, pela paz e contra a guerra na região, a luta pelos salários, pelos direitos e pela democracia.

A besta fascista não ergue a cabeça apenas na Grécia. Acontece porém que encontrou na situação grega um terreno fértil para se manifestar da forma violenta e desumana que é a sua essência natural. Há que derrotá-la uma vez mais. Apenas o povo (apenas os povos) poderá fazê-lo.