Romance: O Tempo das Giestas, de José Casanova

tempo-das-giestas MEMÓRIA E RESPONSABILIZAÇÃO COLECTIVA

O Tempo das Giestas, de José Casanova

Texto lido na sessão de lançamento

 

       Começámos a ler José Casanova, a reparar nele com redobrada atenção, através desses brilhantes nacos de prosa interventiva que, para nosso contentamento, vai publicando amiúde no Avante. Nessa prosa demolidora, ácida, por vezes, quando o alvo lhe fica a gosto, jeito e merecimento, exercício modelar de sagacidade discursiva, herdeira do virtuosismo verbal e satírico de Eça e Ramalho Ortigão, José Casanova vai fazendo a mão a uma escrita transgressora, certeira, de corrosivo humor, onde aflora a desmontagem crítica do servilismo ufano que perora, bem pago e petulante, pela maioria dos títulos da nossa imprensa e dos tiranetes que esboroam o espaço respirável deste pobre país. Essa prosa raramente deixa entrever - por que os alvos se situam em outras coordenadas e em diversas funções da escrita - o autor sensível, de pujante registo rememorativo onde, texto a texto, com sóbria e eficaz linguagem descritiva, nos devolve a perenidade dos sinais identitários de um tempo português e das gerações que o protagonizaram.

       Depois dos desvios, um tanto boçais, pelos caminhos de uma sub-literatura, de cordel frouxo, plástica e medíocre, pela qual muito boa gente e respeitáveis editoras, se deixou seduzir, a ficção portuguesa parece, de novo, querer acertar o passo e voltar a reflectir e inscrever o espaço de realidade que lhe cabe efabular. Autores como José Casanova, Urbano Tavares Rodrigues, António Torrado, Maria Eugénia Cunhal, Teolinda Gerção, Modesto Navarro, Possidónio Cachapa, Lídia Jorge, Mário de Carvalho e outros, retomam, nos seus textos mais recentes, a tarefa de repensar, através do fio frágil da memória, o país que somos e os caminhos que nele, impressivamente, traçamos. 

       A prosa ficcional de José Casanova é atravessada, desde o seu magnífico romance de estreia O Caminho das Aves, por um caudal de paixões diversas e transmissíveis, que vai dos livros aos filmes, à música - popular e erudita - às ruas, aos cafés, à paisagem humana de Lisboa. Esse somatório de sinais - suficientes para tornar reconhecível um autor - desagua, em ostinato rigore, no largo delta da intervenção cívica, num discurso predominantemente político. Trata-se aqui de um exercício intelectual de rigor e excelência, tendente a devolver ao político o estágio superior da dignidade e da cidadania.

José Casanova, sabe que o verbo, os escusos caminhos das palavras, da sua desassombrada exposição, se usadas com justeza e pertinácia, contêm em-si os gérmenes da mudança, e que o futuro se inscreve na fala urgente de denunciar trapaças, de vergar o medo, de dobrar avessos destinos. Para tanto, é necessário que o texto penetre o universo rasante onde a memória estua e que os modos de a contar, de a expor, sirvam para que com ela nos responsabilizemos como espaço nosso, património de assunção colectiva.

       Há na escrita de José Casanova uma apropriação do real, no amplo sentido do realismo de causas que, com o desassombro das revelações, nos remete para o lado mais opaco da opressão salazarista e que se não detém no traço grosso, no estereótipo do anedotizado, antes penetrando a raiz substantiva do regime, expondo, com clareza dialéctica, os mecanismos de classe que o sustentavam: a mórbida sordidez dos serventuários e dos discursos de suporte; os subterrâneos lodosos dos cárceres; a sociedade ignara; a violência; os ódios; os cercos opressivos que perpetuavam a usura e tentavam tornar lícita a cupidez e a mediocridade - modos de justificar a necessidade de um chefe, de "um cão de cego" pronto a guiar, à força de porrete, rebanho obrigado e submisso. Paralelamente, a fala do autor percorre um outro corpo, onde demoradamente se detém, onde o sabemos destro e jubiloso, partilhando com os leitores os cadinhos luminosos da nossa festa: o clamor das ruas em Abril e Maio, a ardência dos desejos, as paixões, a alegria jovem e libertária; construídos através dos referentes identitários que passam pela intertextualidade, pela memória histórica, política e cultural que determinam esta escrita e substantivamente a edificam. José Casanova constrói, ultrapassando convencionalismos formais, um edifício ficcional de exemplar estratificação que parte do real, da sua liminar essência, para o território da dignidade do humano, onde a vida se inscreve, provando desse modo a capacidade discursiva e efabulatória do realismo para narrar a essência. A palavra, o fluir naturalista do diálogo (de uma coloquialidade despojada, a lembrar John Steinbeck) é, neste romance, mais do que um exercício de estilo, torna-se parte substantiva da acção e da sua eficácia.

       Construído em três registos temporalmente diversos, três universos ficcionais que se cruzam e complementam, O Tempo das Giestas percorre a nossa história, desde os anos 30 até aos primeiros anos pós-Abril de 1974. Como já acontecia em Aquela Noite de Natal, o autor utiliza uma escrita fragmentada, no sentido bartheano, para em simultâneo nos contar a estória de Teresa que num dia de Abril, decide ir à Soeiro Pereira Gomes saber notícias de um rapaz, pelo qual se apaixonara em finais dos anos trinta (no período conturbado da "Revolta dos Marinheiros")  cujo, após um breve namoro perpassado de temores, desaparece sem deixar rasto. Quarenta anos volvidos, já em plena liberdade, com as cantigas de Fausto, do Sérgio Godinho, do Zeca a ecoarem pelas ruas da cidade, Teresa está na sede do PCP para saber de Simão, o amante perdido. Ajudada por Marcos, um jovem militante, Teresa parte em busca desse amor de perdição que ficara suspenso no peito e na memória durante décadas, sem que o tempo lhe destruísse a essência e o fulgor. Com Teresa partilhamos esses dias amargos, a brumosa paisagem dos anos trinta portugueses, os percursos dos amantes pela lugubridade das ruas de uma Lisboa vigiada e agreste (a chuva permanente contribui para criar essa atmosfera claustrofóbica, opressiva e sombria), a paixão na urgência de viver, os medos, as armadilhas de um país de sombras, dominado pelo ódio, pela tacanhez imposta como norma pelo ditador de Santa Comba e pelo servilismo corrupto dos sevandijas.

       Com Teresa, Marcos e Inês percorremos a outra Lisboa, luminosa e solar, cidade da participação cívica, do despertar para a cidadania e para o sonho; uma cidade a erguer-se ao som das palavras necessárias e justas, que prepara um Festival de Música para tornar o seu rio, o Tejo, amado e respeitado por todos. Sem escamotear os perigos que espreitam o despertar de um tempo novo, José Casanova vai pontuando a narrativa com alguns sinais perturbadores da modernidade e do futuro: as manobras dos partidos de direita; as alienações que emergem corrosivas; a dependência das drogas.

       O terceiro tempo deste romance é constituído pelas cartas de prisão que Simão, no degredo do Campo de Morte do Tarrafal, vai escrevendo a Teresa, como se de um diário se tratasse. Penso, pelo rigor da escrita, pelo que descreve e pela forma como o horror nos é contado, tratar-se das páginas mais tocantes e dramaticamente impressivas da nossa actual literatura. Partindo de testemunhos dos que no Tarrafal sofreram o terror fascista (aos quais, de forma sentida, este livro presta homenagem), José Casanova reconstitui, através da narrativa epistolográfica, sem excessos de dramaticidade mais do que os necessários aos desígnios da acção, sem concessões ou simulacros de revisionismo histórico, a mais dolorosa e assertiva denúncia do terror fascista, a um tempo historicamente rigorosa e imbuída de uma puríssima sensibilidade que nos dói até ao sufoco. O autor, não receia impregnar estas páginas com a sua impressão digital, tornando nítidos os contornos que o movem e o trazem à responsabilidade de escrever: José Casanova não omite, não oculta, não suaviza - estabelece, de forma corajosa e frontal, a relação lúcida e introspectiva do homem com o mundo, numa prospecção dialéctica em perfeita sintonia com o período histórico que descreve.

Através das cartas do degredo, vamos conhecendo o percurso heróico e sofrido de Simão, a paixão por Teresa, ao mesmo tempo que nos é revelado o seu obscuro passado, só em parte descoberto por Marcos, Teresa, Inês e outros, através das suas buscas, numa trajectória de policial orgânico, como se este funcionasse, alheio aos códigos de género, como necessidade cívica de desocultação das brumas, fazendo destes personagens agentes recondutores da verdade e do histórico. Nas cartas de Simão, a linguagem, como diz William Burroughs, "age", plenamente, "em modo de reconstituição", devolvendo-nos intacto o amargo absurdo desses dias.

José Casanova, com este O Tempo das Giestas, quer-nos parceiros activos da narrativa, capazes de assunção do horror que perpassa estas páginas, quer, como todos os escritores que são agitadores de consciências, perturbar o leitor até ao desatar das lágrimas, levando-o à indignação. Como Brecht, o autor sabe ser necessário mostrar a substância do mal, para que, colectivamente, nos tornemos responsáveis, não apenas pela inventariação do passado mas, sobretudo, pela construção do devir. Por isso, neste romance, a memória se inscreve como inelidível património do humano.

Também Lisboa, a Lisboa do companheirismo, da resistência, das tertúlias, das ruas sombrias e esquinas vigiadas, permanece como um dos elementos definidores que personalizam e autonomizam a escrita de José Casanova. Neste terceiro romance, é já nítida essa voz, essa sintaxe, esse singular ritmo, que aproxima a sua escrita da noção de "autor" como a definiu Herberto Hélder - com Lisboa presente nesse circular chão de afectos.

Se existe, neste romance, uma profunda amargura, sobretudo pelo não-vivido, pela vida que Teresa e Simão deixaram a meio, existe nele, igualmente, uma alegria, um acreditar nos tempos que virão, que redime esse amor tornado impossível e que o foi, não pelos imponderáveis do destino (como em "Amor de Perdição", de Camilo), mas pelas circunstâncias políticas e históricas que tragicamente o impediram de consumar-se.

Reabilitar a memória da resistência aos quase cinquenta anos de fascismo, não é tarefa pequena nem tema em desuso, ao qual - como advoga a sacrossanta e instalada crítica deste país a fazer-se de novo beato e cínico - a literatura se não deva ater. Será a partir desta bagagem que se construirá a singularidade do nosso discurso ficcional. O resto, são delírios pequeno-burgueses, estertores serôdios de românticos apegos, dos que tentam, em piruetas de acrobacia coxa, iludir o pagode.

O Tempo das Giestas termina sem desesperos, nem crispações; antes, há nele uma ética do optimismo, de quem se reconcilia com a vida e está de pé, como um poeta, lúcido e vigilante; com uma levedada crença no futuro: "Marcos enlaça Inês pela cintura, puxa-a para si, embala-a, com a mão aberta acaricia-lhe o ventre, segreda-lhe: O nosso Simão."

Como Thomas More, José Casanova sabe que o Povo contém em si os segredos das alquimias capazes de transformar a utopia em realidade.

DOMINGOS LOBO