Não Passam Mais

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primeiro_1o_maioAry dos Santos

Em nome dos nossos braços

em nome das nossas mãos

em nome de quantos passos

deram os nossos irmãos.



Em nome das ferramentas

que nos magoaram os dedos

das torturas das tormentas

das sevícias dos degredos.

Em nome daquele nome

que herdámos dos nossos pais

em nome da sua fome

dizemos: não passam mais!

 

E em nome dos milénios

de prisão adicionada

em nome de tantos génios

com a voz amordaçada

em nome dos camponeses

com a terra confiscada

em nome dos Portugueses

com a carne estilhaçada

em nome daqueles nomes

escarrados nos tribunais

dizemos que há outros nomes

que não passam nunca mais!

 

Em nome do que nós temos

em nome do que nós fomos

revolução que fizemos

democracia que somos

em nome da unidade

linda flor da classe operária

em nome da liberdade

flor imensa e proletária

em nome desta vontade

de sermos todos iguais

vamos dizer a verdade

dizendo: não passam mais!

 

Em nome de quantos corpos

nossos filhos forma feitos.

Em nome de quantos mortos

vivem nos nossos direitos.

Em nome de quantos vivos

dão mais vida à nossa voz

não mais seremos cativos:

o trabalho somos nós.

 

Por isso tornos enxadas

canetas frezas dedais

são as nossas barricadas

que dizem: não passam mais!

 

E em nome das conquistas

vindas nos ventos de Abril

reforma agrária controlo

operário no meio fabril

empresas que são do estado

porque o seu dono é o povo

em nome de lado a lado

termos feito um país novo.

 

Em nome da nossa frente

e dos nossos ideais

diante de toda a gente

dizemos: não passam mais!

 

Em nome do que passámos

não deixaremos passar

o patrão que ultrapassámos

e que nos quer trespassar.

E por onde a gente passa

nós passamos a palavra:

Cada rua cada praça

é o chão que o povo lavra.

Passaremos adiante

com passo firme e seguro.

O passado é já bastante

vamos passar ao futuro.

 

José Carlos Ary dos Santos em "O Sangue das Palavras"