Intervenção de António Vilarigues na Sessão Pública de Afirmação dos Ideais Antifascistas

Caras convidadas e convidados

Senhoras e senhores

 Os quarenta e oito anos de ditadura fascista constituem um dos períodos mais sombrios da história de Portugal.

 A ditadura fascista criou um Estado totalitário e um monstruoso aparelho policial de espionagem e repressão políticas. Que actuava em todos os sectores da vida nacional, privando o povo português dos mais elementares direitos e liberdades.

 A história da ditadura é uma história de perseguições, de prisões, de torturas, de condenações, de assassinatos daqueles que ousavam defender os direitos do povo, protestar, lutar pela liberdade e por melhores condições de vida e de trabalho.

Utilizando a força coerciva do Estado, a ditadura fascista impulsionou a centralização e a concentração de capitais, a formação de grupos monopolistas. Que se tornaram donos e dirigentes de todos os sectores fundamentais da economia nacional. Acumulando grandes fortunas assentes na sobre exploração, nas privações, na miséria e na opressão do povo português e dos povos das colónias portuguesas. 

 A ditadura fascista impôs aos trabalhadores formas brutais de exploração. Sacrificou gerações de jovens em treze anos de guerras coloniais. Forçou centenas de milhar de portugueses à emigração. Agravou as discriminações das mulheres e dos jovens, a subalimentação de grande parte da população, o obscurantismo, o analfabetismo, a degradação moral da sociedade.

 A ditadura fascista realizou uma política externa de conluio com os regimes mais reaccionários. Que se traduziu no apoio directo à sublevação fascista em Espanha, na cooperação com a Alemanha nazi e a Itália fascista. Que se manifestou nas concessões militares que levaram ao estabelecimento de bases estrangeiras no território português. Que se revelou na subserviência ante as grandes potências imperialistas e no alinhamento com a política de guerra dos seus círculos mais agressivos e reaccionários.

 Caras convidadas e convidados

Senhoras e senhores

 É tudo isto, e muito mais, que certos sectores da sociedade portuguesa procuram esconder e escamotear. Assiste-se a uma permanente e bem elaborada campanha, com vastos meios e sob diversas formas, de branqueamento do regime de Salazar e Caetano.

 Pretende-se, despudoradamente, reescrever a história de Portugal no século XX. Por um lado, nega-se a própria existência de um regime fascista. Por outro, intenta-se apagar da memória a gesta da resistência antifascista. As expressões concretas deste objectivo são múltiplas e variadas.

A memória dos povos não é um peso morto das recordações do passado, nem uma crónica desapaixonada dos acontecimentos. A razão de ser da memória histórica está na extracção das lições do passado. Está na aspiração de tornar impossível o desabar de catástrofes sobre a humanidade durante muitos séculos.

 O filósofo americano George Santayana escreveu: "Um povo que não recorda o seu passado está condenado a vivê-lo de novo".

 Não será este o objectivo de alguns dos promotores, defensores e apoiantes do "Museu Salazar". Mas este projecto, objectivamente, visa o revivalismo, o excursionismo e a propaganda do fascismo.

 E não é com um quartinho "dedicado à luta antifascista, por parte de pessoas que foram presas e torturadas pelo regime", que se resolve a questão.

 O Presidente da Câmara de Santa Comba Dão, senhor João Lourenço, afirma que ninguém é mais democrata do que ele. Mas esta proposta, objectivamente, é, no mínimo, aviltante e altamente provocatória.

 De "quartinhos reservados" nas prisões fascistas ficámos nós fartos! Para que conste, e para quem não sabe, houve quem lá permanecesse mais do que uma vintena de anos. E as prisões chamaram-se Limoeiro, Aljube, Penitenciária, Caxias, Peniche, Angra do Heroísmo, Tarrafal.

 Quem me conhece sabe que gosto pouco de pessoalizar questões políticas. Mas sinto-me insultado por esta sugestão.

 Foi o meu pai, Sérgio Vilarigues, que esteve preso sete anos (dos 19 aos 26) em Peniche, em Angra e no campo de concentração do Tarrafal; que passou trinta e dois anos na clandestinidade no interior do país.

 Foi a minha mãe, Maria Alda Nogueira, que, estando literalmente de malas feitas para ir trabalhar em França com a equipa de Isabelle Curie, pegou nas mesmas malas e passou à clandestinidade; que presa passou 9 anos e dois meses nos calabouços fascistas; que durante todo esse período o único contacto físico próximo que teve com o filho (dos 5 aos 15 anos) foi de três horas por ano!

 Foi a mãe das minhas filhas, Lígia Calapez, que, com 18 anos, foi a primeira jovem legal, menor, a ser condenada a prisão maior por motivos políticos - 3 anos em Caxias.

Foi a minha filha mais velha, Sofia Vilarigues, que até aos dois anos e meio não soube nem o nome, nem a profissão dos pais.

 Fui eu que aos dezassete anos passei à clandestinidade.

 Como alguns que estão nesta sala e de muitos outros torturados e até assassinados pelo fascismo.

 São casos entre milhares de outros. Para que houvesse paz, democracia e liberdade no nosso país.

 Salazar sabia. Mais. Salazar despachou durante anos a fio, semanalmente, com o director da polícia política, a PIDE. Semana, após semana, após semana. O tema não era certamente os amores e desamores (agora tão na moda...) do ditador. O assunto era outro! Nessas reuniões discutiam-se perseguições, prisões, torturas, condenações, assassinatos. De quem? De todos aqueles que ousavam defender os direitos do povo, protestar, lutar pela liberdade e por melhores condições de vida e de trabalho.

 Caras convidadas e convidados

Senhoras e senhores

 O editorialista do "Diário de Notícias" da passada terça-feira 27 de Fevereiro, um tal senhor Miguel Gaspar, escreveu o seguinte: "Salazar está bem menos vivo do que se pensa. Para as pessoas que nasceram nos anos 1970 ou 1980, nem pertence ao passado imediato. A pouco e pouco, o ditador deixa de existir na memória de pessoas concretas e torna-se um nome abstracto, impresso entre duas datas nos livros de História. Isto vale tanto para os saudosistas do fascismo como para os discursos construídos em torno da memória do combate à ditadura".

 Na mesma linha o edil de Santa Comba Dão afirma que "o fascismo em Portugal já morreu há muito e está bem enterrado e ninguém tem vontade de o desenterrar". Ou "O fascismo está morto e Salazar enterrado sob sete palmos de terra. Deixá-lo estar assim para sempre".

 Não se podia ser mais claro! Esta é, a nosso ver, uma questão central da campanha em curso. Transformar Salazar e o fascismo em algo que "deixa de existir na memória de pessoas concretas e torna-se um nome abstracto, impresso entre duas datas nos livros de História".

 Já agora porque não fazer o mesmo ao Holocausto, à II Guerra Mundial, aos crimes de Suharto e Pinochet, a Mussolini, Hitler e tuti quanti? O atrevimento não chega a tanto. Mas anda lá perto.

 Ou será que ambos, como já vimos escrito noutro locais defendem a inqualificável concepção de que o meu ditador é melhor que o teu porque matou menos?

 E como explicam a influência de partidos e movimentos neo-fascistas e neo-nazis em países como França, Alemanha, Itália e Áustria? Onde detêm, inclusive, significativa representação parlamentar. Então estes senhores branqueadores do fascismo não sabem, ou não percebem, que é exactamente este juízo de branqueamento do fascismo que contribui para abrir caminho aos que o querem fazer regressar?

 O fascismo é, antes de mais, um acontecimento social e político relacionado com a crise profunda das sociedades em que vivemos. Os vícios do fascismo e dos seus dirigentes são os vícios destas sociedades. Doutro modo eles não poderiam alcançar tão vasta importância social.

 Ideologia, propaganda, base social de apoio, financiamento do partido, política de alianças, conquista do poder. Seis vértices duma tenebrosa realidade - o poder nazi ou fascista.

 Foi precisamente a atmosfera político-social da Europa Ocidental dos anos vinte e trinta, que tornou possível a conquista do poder pelos fascistas em vários países, nomeadamente em Itália, em Portugal, em Espanha, na Alemanha.

 Esta realidade mostra à saciedade que os ideais fascistas estão longe de estar mortos e enterrados.

 Caras convidadas e convidados

Senhoras e senhores

 O nosso país não precisa de "Museus Salazar". Carece sim de verdadeiros Museus da Resistência e do Fascismo. Lugares indispensáveis para estudar, em todas as suas vertentes, a realidade daquele período da história de Portugal. E para mostrar, sobretudo às gerações mais jovens, o porquê de "fascismo nunca mais".

 Santa Comba Dão, 3 de Março de 2007

António Vilarigues