Intervenção de Aurélio Santos na Sessão Pública de Afirmação dos Ideais Antifascistas

(Passos da intervenção)

 A realização desta iniciativa de afirmação dos ideais democráticos e antifascistas tem como base a confiança de que o povo de Santa Comba partilha os ideais democráticos que o nosso  povo consagrou na Constituição da República Portuguesa, com firme repúdio do fascismo e das suas formas de expressão.

Não é pelo facto de Salazar ter nascido em Santa Comba que será justo colar a esta terra a imagem do salazarismo.

É também por confiar nos sentimentos democráticos da população de Santa Comba, que repudiamos a instalação aqui de um «Museu de Salazar», com esse ou outro nome, destinado a ser um memorial de romagem política, de homenagem e exaltação de um regime que deixou na História do Portugal contemporâneo uma marca profundamente negativa.

Na nossa sociedade ainda hoje se manifestam as marcas deixadas pelo salazarismo de um profundo atraso a todos os níveis,  com rastos inevitáveis de um passado que bem merecia estar já mais distanciado da nossa realidade.

Está ainda por fazer a exacta estatística de crimes de morte cometidos pela PIDE.  Nem sempre com bala à queima roupa. Há também os que foram assassinados com a tortura refinada evitando deixar marca. Pela morte lenta no Tarrafal. Pelos intermináveis amos de cárcere.

Haverá quem queira dizer que o assunto não é actual, já passou à História.

Seria um erro perigoso pensar assim.

Só uma grave ou leviana incompreensão da História pode levar à convicção de que o 25 de Abril pôs em definitivo Portugal ao abrigo de qualquer regime autoritário ou ditatorial. Por isso não pode deixar de nos alertar a insidiosa campanha de branqueamento da ditadura fascista (agora hipocritamente chamada «antigo regime») e o falseamento da memória, com apagamento daqueles que mais lutaram para ser livre o terreno que hoje pisamos.

A promoção de branqueamento do salazarismo avança por vezes de forma velada, outras descaradamente. A criação de  um Museu de Salazar daria sem dúvida novo fôlego e projecção a essa campanha.

A afirmação dos ideais antifascistas  e denúncia das raízes das ditaduras fascistas não apenas são necessárias para que a História  não seja falseada. São hoje um  imperativas para afirmação e defesa da democracia.

Os crimes do fascismo não se deveram apenas à crueldade dos que os praticaram. Foram parte integrante e indissociável de uma política que só pelo terror podia ser imposta ao povo português.

Não é certamente por acaso que os revivalismos que se registam com uma frequência inquietante  coincidem com o avanço na  ribalta da cena política de estruturas socio-económicas que no salazarismo encontraram o instrumento para impor o seu domínio à sociedade portuguesa. Foi um domínio mantido de forma ditatorial, pois que de outra forma o povo português não aceitaria o esbulho dos seus direitos que foi praticado nos 48 sufocantes anos da ditadura.

O antifascismo mantém-se como exigência actual. 

Mais ainda porque há hoje em Portugal uma nova geração que não conheceu - felizmente - o peso da opressão policial, da repressão política, das prisões e torturas, da censura, da miséria, da emigração massiva e das guerras impostas pela política imperial do fascismo. Não viveu - felizmente - a abominação das concepções da ideologia fascista ma sua versão salazarista que a ditadura quis impor ao nosso povo, matraqueando-a nas escolas, martelando-a na comunicação social amordaçada.

Não podemos deixar que o apagamento do que foi a ditadura, e a reabilitação dos seus responsáveis e da sua política abra caminho ao ressurgimemto de ideologias fascistas e de  práticas políticas nelas inspiradas, em contraponto com as campanhas de descrédito, desvalorização e degradação da democracia.

Fascismo, nunca mais? 

Não podemos entender isso como garantia de que «o fascismo não voltará».

Não voltará certamente nas formas que assumiu nos anos 20/30 do século passado.  A sociedade não é a mesma, o tecido social, as estruturas são diferentes.

Mas o  fascismo  não é um fenómeno histórico de uma determinada conjuntura.

Tem  caracter universal, com raízes sociais e económicas que aparecem como  resposta desesperada numa sociedade em crise, com uma economia em queda, e uma classe que pretende impor pela força a manutenção do seu domínio e condicionar a sociedade aos seus interesses.

Foi num cenário assim que se preparou e desencadeou no século XX o assalto do nazi-fascismo ao poder, con raízes comuns e expressões próprias nos vários países da Europa. Era a época em que Salazar se fazia fotografar com o retrato de Mussolini na sua mesa de trabalho.

O balanço dessa época, que levou ao desencadeamento da 2ª Guerra Mundial,  ainda está por fazer, no seu profundo significado.

Mas no mundo de hoje encontramos traços igualmente inquietantes.

Estamos hoje num mundo adverso, às vezes sornamente, à liberdade, ao progresso, ao bem estar da humanidade, onde as esperanças de futuro andam  minadas pelas ameaças super-potentes de uma globalização condicionadora, totalitária, que acumula e agrava à escala planetária  factores de crise económica e social.

Agravam-se as incidências sociais duma política económica que mantém e retoma a que o fascismo praticou. Desacreditam-se Instâncias políticas, conceitos ideológicos e valores políticos que estavam credibilizados com a vitória da democracia, deixando as pessoas numa massa mais moldável pela demagogia e a manipulação.

A instabilidade e o medo à instabilidade, a insegurança laboral, a polarização da pobreza e da riqueza, a crescente desigualdade planetária na distribuição dos recursos e rendimentos, a deslocação de milhões de pessoas a quem são negados direitos e meios de sobrevivência, uma política de guerras e de dominação, criam angustiantes factores de destabilização e conflitualidade. À sombra do combate ao terrorismo e do medo à violência que acompanha os factores de desagregação social, desrespeitam-se direitos humanos, liquidam-se liberdades.

A violência da exploração, da injustiça social, corroi a democracia, retira-lhe o apego das  pessoas, porque a democracia política não é acompanhada por uma democracia social e económica, dando-se prioridade à  concentração de lucros e capitais, com  as consequências e medidas a que isso obriga.

A insistente campanha de branqueamento do que foi o fascismo - em Portugal e no mundo, apaga por outro lado, numa simétrica falsificação da História, a resistência dos povos e dos que não cederam, não capitularam, e se uniram para vencer a feroz e sangrenta versão de retrocesso social que o fascismo representa. O de Salazar, como os de Hitler e Mussolini.

A violência do fascismo não contou todavia com a enorme resistência que levanta a humanidade contra quem lhe queira comandar regressos.

Na fase crucial que a civilização humana atravessou no século passado, o antifascismo foi essa força. Em unidade e aliança dos que ousaram lutar pela democracia e o respeito pelos direitos do ser humano.

Também assim o povo português conquistou a liberdade que floresceu nos cravos de Abril.

E é com essa força e determinação que afirmamos, confiantes:

Fascismo nunca mais!

 

Aurélio Santos, Coordenador do Conselho Directivo da URAP