A Resistência ao nazi-fascismo (exemplos da Alemanha e da Bélgica)

História 

A URAP esteve presente no encontro internacional de juventude, no campo de concentração de Buchenwald, por ocasião do 63º aniversário da sua auto-libertação. Para mais textos consulte-se História

resistenciaAlemanha

Dentro da Alemanha, a resistência ao regime nazi consolidou-se assim que Hitler assumiu as funções de chanceler em 30 de Janeiro de 1933. Existiram diversos movimentos que se organizaram para se opor consequentemente ao nazismo no seu próprio país, vários anos antes do início da II Guerra Mundial em 1939.

 

ernst_thalmannCom a ilegalização do Partido Social-Democrata Alemão (SPD) e do Partido Comunista Alemão (KPD), os seus militantes organizaram-se para resistirem na clandestinidade ao regime político nazi. A principal convergência de esforços dos seus militantes saldou-se em diversas convocatórias para greves durante estes anos. Esta resistência política activa foi a que mais se destacou no território da própria Alemanha durante os anos do nazismo, tendo igualmente sido reforçada pelos sindicalistas que viram as suas organizações de classe serem igualmente ilegalizadas em 1933 pelo nazismo.

Existiu também uma resistência popular não organizada politicamente, sobretudo na resistência às decisões arbitrárias do nazismo, ou no auxílio aos judeus, mas também entre grupos de jovens que procuraram escapar à inserção obrigatória na Juventude Hitleriana.

Entre 1933 e 1939, as resistências organizadas dos comunistas e dos social-democratas conseguiram a adesão clandestina de operários alemães que se opunham às ordens nas suas fábricas dominadas pela hierarquia nazi. Estes anos conheceram também a acção, sobretudo na difusão de propaganda clandestina, de alguns grupos de anarco-sindicalistas alemães contra o auxílio militar nazi às forças insurgentes do fascismo espanhol na Guerra Civil de Espanha (1936-1939), o que levou à sua perseguição e detenção pela polícia política (Gestapo). Nesses anos, as administrações das fábricas foram várias vezes forçadas a reconhecer as reivindicações aos trabalhadores em greve, já que as condições de vida se foram deteriorando com o aproximar do início da Guerra.

aos_soldados_sovieticos_detidos_em_buchenwaldCom o início da II Guerra, mas sobretudo após o ataque nazi à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas em 1941, vários dos comunistas alemães que se haviam exilado em território soviético conseguiram regressar clandestinamente à Alemanha, para auxiliar a organização clandestina do Partido Comunista Alemão no país. Foi igualmente possível fornecer informações preciosas enviadas para a União Soviética através de relatórios acerca das divisões militares alemães, ataques aéreos sofridos na Alemanha, produção de aviação militar e carregamentos de combustível recebidos pelo regime nazi. Estas informações habilitaram também a futura luta militar de libertação dos povos do jugo do nazi-fascismo pelo Exército vermelho.

Com os desenvolvimentos favoráveis aos Exércitos aliados nas frentes de guerra, acompanhados do agravamento das condições de vida nas regiões rurais da Alemanha, onde muitos jovens haviam sido mobilizados compulsivamente para o Exército nazi, existiram mais adesões de trabalhadores rurais às acções das redes clandestinas dos comunistas e social-democratas alemães. Nas regiões urbanas, mesmo em Berlim, foram também vários os casos de famílias que albergaram grupos de judeus que evitaram assim a deportação e o posterior extermínio nos Campos nazis.

rosenstrasse_1943Neste contexto, ocorreu o protesto de Rossenstraße, de 27 de Fevereiro de 1943, em Berlim. Durante uma semana reuniram-se naquela rua da capital da Alemanha cerca de 1800 mulheres de homens judeus reunidos num armazém ali localizado e que servia de local de organização das deportações nazi. Organizando protestos pacíficos durante esse período e procurando evitar a deportação dos seus companheiros, as mulheres almejaram conseguir que o responsável municipal de Berlim ordenasse a libertação de cerca de 6000 judeus, que conseguiram escapar à morte e sobreviver para além da II Guerra Mundial.

memorial_buchenwaldHá que não esquecer igualmente a resistência empreendida dentro dos Campos de Detenção, Trânsito, Internamento e Concentração dos nazis, tendo merecido destaque, até pela experiência obtida nos anos iniciais do nazismo na Alemanha entre 1933 e 1939, as organizações clandestinas dos comunistas alemães. Até 1943 de forma mais ou menos informal, essa situação mereceu um aperfeiçoamento após esse ano seguindo as deliberações da Internacional Comunista (Comintern), constituindo-se comités internacionais nos Campos. O seu auxílio foi precioso para apoiar e sustentar dezenas de prisioneiros que evitaram assim a morte, mas também conseguindo evitar que dezenas de presos fossem enviados nos comboios para a morte em Campos de Extermínio. A acção destes comités internacionais almejou igualmente conseguir armas durante os bombardeamentos aliados a algumas instalações fabris de produção militar junto aos Campos em 1944, como no caso do Campo de Concentração de Buchenwald. 

Nas fábricas de armamento a resistência passiva dos grupos de prisioneiros (associados por nacionalidade, convicção política, ideológica, religiosa ou similitude étnica) constituiu-se também numa forma obstrutiva dos programas de aumento da capacidade bélica do nazismo durante a Guerra.

Este modelo de organização foi seguido por várias das comunidades prisioneiras nos Campos nazis já em 1944, visto ter sido provada a sua eficácia e apoio face à luta de resistência empreendida contra a barbárie nazi.

Bélgica

O amor à liberdade, à democracia e o profundo respeito pelos direitos do Homem, da vida e da soberania de qualquer Estado, impeliu muitos belgas de diferentes quadrantes políticos, filosóficos e religiosos a procurarem resistir à invasão nazi que se consumou a 10 de Maio de 1940. Ainda assim, o próprio Exército belga procurou resistir numa campanha militar que se saldou pela sua derrota no dia 18 de Maio de 1940, quando as autoridades nazis tomaram o domínio sobre todas as instituições políticas e administrativas locais e regionais do país.

front_de_lindependanceO carácter arbitrário das ordens dos comandos nazis levou também muitos homens e mulheres a procurarem organizar-se nos primeiros meses após a ocupação do país. Constituíram-se mais de uma dezena de grupos de Resistência armada à ocupação nazi da Bélgica, como o Front de l`Indépendence, o Armée Secrète, as Milices Patriotiques, o Mouvement National Belge, o Armée Belge des Partisans, o Mouvement Nationale Belge ou o Armée de Libération, só para referir alguns dos mais representativos.


sabotagem_comboio_transporte_deportadosOs partisans belgas empreenderam acções de sabotagem, sendo talvez a de maior alcance a acção ocorrida no dia 19 de Abril de 1943, conseguindo impedir a marcha do vigésimo comboio de transporte de deportados da Bélgica para a Alemanha e demais países ocupados. A acção permitiu a fuga e libertação de judeus e ciganos provenientes do Campo de Trânsito de Malines na Bélgica e que seriam transportados para o Campo de Extermínio de Auschwitz na Polónia. Entre homens, mulheres e crianças contavam-se nesse comboio 1631 seres humanos, tendo conseguindo escapar ao destino do assassinato nazi grande parte dos seus integrantes.

resistenciaTambém existiu uma ampla rede de solidariedade entre as classes trabalhadoras belgas, como foi o caso da dedicação abnegada dos ferroviários e trabalhadores dos correios do país, que com a sua acção permitiram igualmente a reacção da Resistência e o impedimento da concretização das ordens dos ocupantes nazis. No caso dos ferroviários, a sua acção foi muito importante no corte de ligações ferroviárias de transporte de oficiais das SS (Schutzstaffel), de armamento e de mercadorias. Já os trabalhadores dos correios belgas forneciam importantes elementos da correspondência nazi aos membros da Resistência, possibilitando assim a antecipação das suas decisões.

de_propagandistMuitos dos detidos belgas pelos nazis foram encarcerados temporariamente no Forte de Breendonk, junto a Antuérpia na Bélgica, que albergou mais de 4000 detidos belgas, sendo que mais de 700 conheceram a morte nessa prisão: os comunistas belgas foram enviados para o Campo de Concentração de Neuengamme, junto a Hamburgo, na Alemanha. Já os judeus foram, a partir de 1942, isolados e transferidos para o Campo de Trânsito de Malines também na Bélgica. Neste caso o seu destino final, foi, na esmagadora maioria dos casos, o Campo de Extermínio de Auschwitz.

mundo_obreroNo caso da Bélgica, tendo o país sido invadido pelo Império Alemão no decurso da I Guerra Mundial (1914-1918), muitos dos antigos resistentes a essa ocupação estiveram na primeira linha da Resistência belga ao invasor nazi. A estes juntaram-se os antigos combatentes belgas das Brigadas Internacionais de defesa da República na Guerra Civil de Espanha (1936-1939) e que possuiam já um forte sentimento antifascista.

Dentro dos Campos de Concentração nazis também os prisioneiros de nacionalidade belga organizaram uma resistência passiva aos nazis. Foram mais de 40 mil os prisioneiros políticos belgas durante a ocupação entre 1940 e 1945, a que se juntam mais de 30 mil resistentes belgas presos pelos nazis.

A Resistência em dois países: memória e valorização para o futuro

memorial_buchenwald_2Nestes dois casos nacionais, a tenacidade dos resistentes destes países, tendo até em conta as circunstâncias de cada uma das resistências - a alemã no centro do poder nazi, a belga com os antecedentes da ocupação alemã na I Guerra Mundial - devem merecer uma valorização atenta pela forma como foi possível combater e lutar pela libertação, permitindo aos povos quebrar os grilhões do jugo do nazi-fascismo.

Como face violenta do sistema económico capitalista, o nazi-fascismo foi derrotado militarmente, mas também pelos prisioneiros nos campos nazis, tal como pelas populações na sua vida quotidiana. Nem o medo, nem a intimidação, nem a cultura da delação, nem a chantagem puderam quebrar a resistência de todos os que pretendiam um mundo de paz e cooperação entre os povos. Esse é o grande legado que os lutadores antifascistas deixaram às gerações futuras, que seguramente souberam e saberão honrar esse compromisso histórico de defesa da paz, da liberdade e da luta pela construção de um mundo mais fraterno e solidário.

David Pereira