Bento Caraça e o seu tempo

1901- Bento de Jesus Caraça nasce a 18 de Abril de  1901, na Rua dos Fidalgos, Vila Viçosa, numa modesta dependência do Convento das Chagas, onde se alojavam criados da casa de Bragança. Era filho de trabalhadores rurais: João António Caraça e Domingas da Conceição Espadinha.

Aos dois meses, os pais levam-no para Aldeias de Montoito, no Redondo, onde o pai é feitor da Herdade da Casa Branca. Aí vive até aos 5 anos. Aprende a ler com um trabalhador migrante, José Percheiro.

A proprietária da herdade, D.Jerónima, cativada pela inteligência de Bento, "criança que prendia e encantava", propõe aos pais assumir a sua educação.

1910- Implantação da República em Portugal.

1911-  Bento conclui com distinção o exame de instrução primária, em Vila Viçosa.

Nessa época, mais de 60% da população vive da agricultura. A alimentação no Sul é escassa, à base de trigo e centeio. Os trabalhadores rurais ganham cerca de 200 réis por dia de trabalho, que chega a durar 17 horas.

1912- Desenvolve-se a organização e a luta dos trabalhadores rurais.

1914- Cria-se a União Operária Nacional que, em 1919, dá origem à Confederação Geral do Trabalho.

Deflagração da 1ª Guerra mundial, que só termina em 1918.

1917- A Revolução Socialista de Outubro, na Rússia, muda a face da Europa e do Mundo, marcando a formação ideológica de Bento de Jesus Caraça.

1918- Depois de ter frequentado o liceu Sá da Bandeira em Santarém, acaba o curso liceal  com distinção no liceu Pedro Nunes, em Lisboa.

As explicações ajudam-no a sobreviver.

Entra no Instituto Superior de Comércio,  depois chamado Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras(I.S.C.E.F.) e actualmente Instituto Superior de Economia e Gestão.

1919- No 2o ano do curso, B.J.C. é nomeado 2º assistente do 1º grupo das cadeiras do I.S.C.E.F. pelo professor Mira Fernandes.

Integra, desde a sua fundação, o Conselho Administrativo da Universidade Popular Portuguesa.

1923- Termina a licenciatura, com altas classificações.

1924- É nomeado 1º assistente do I.S.C.E.F. É encarregado de reger a 2ª cadeira (Matemáticas Superiores) no ano lectivo de 1924/25.

Entre 1923 e 1928 é o tempo de eclosão dos fascismos na Europa, que irão consolidar-se a partir de 1929

1926- O golpe militar de 28 de Maio instala a ditadura. O movimento social e operário é reprimido, a intelectualidade perseguida.

1927-  B.J.C. é nomeado Professor Extraordinário do I.S.C.E.F.

A CGT é dissolvida e o seu orgão "A Batalha" é encerrado.

1928- Em Dezembro, B.J.C. assume a presidência da Universidade Popular Portuguesa, encetando a sua reactivação. Reorganiza a biblioteca, cria um conselho pedagógico e prepara-se para organizar uma cooperativa de cinema educativo.

1929- B.J.C. é  nomeado professor catedrático de Matemáticas Superiores.

O PCP reorganiza-se em função da passagem à acção clandestina.

1930- O movimento sindical reorganiza-se em torno da Comissão Inter-sindical e lança greves e manifestações operárias.

1931- Conferência de B.J.C. sobre "As bases fundamentais da Matemática" proferida na Universidade Popular Portuguesa.

1932- Salazar assume a chefia do governo.

1931-32- Bento de Jesus Caraça participa clandestinamente, com outros intelectuais, no Núcleo de Trabalhadores Intelectuais do P.C.P..

1933- É promulgada a Constituição Política do regime fascista, são criados "tribunais especiais para crimes políticos", a P.V.D.E., a Censura Prévia.

É promulgado o Estatuto do Trabalho Nacional, sendo encerrados os sindicatos livres e criados os "sindicatos nacionais".

 B.J.C. dirige, juntamente com José Rodrigues Migueis, o semanário "Globo", de que se publicam apenas dois números em virtude da acção da Censura.

Profere a sua mais célebre conferência " A cultura integral do indivíduo, problema central do nosso tempo" em 25 de Maio, na União Cultural "Mocidade Livre". 

"Viviam-se nessa altura horas inquietantes e fecundas. A marcha acelerada dos acontecimentos na Europa presagiava grandes transformações próximas. Hitler tomara, havia meses, o poder na Alemanha; agitavam-se as mais variadas correntes dentro e fora do Reich; a instabilidade geral era manifesta; tudo isto criara um ambiente de espectativa e ansiedade" (Bento Caraça).

Profere, a 22 de Junho, a conferência: "Galileo Galilei. Valor científico e moral da sua obra" na Universidade Popular Portuguesa, que é depois publicada em separata da Seara Nova.

1934- Proclama-se o "Estado Novo" e começa a funcionar a "Colónia Penal do Tarrafal", cujo campo de concentração abrirá oficialmente em 1936.

Os operários da Marinha Grande levantam-se de armas na mão contra a fascistização dos sindicatos.

Começa a publicar-se " O Diabo", que perdurará até 1940.

B.J.C. participa empenhadamente na criação da Liga Contra a Guerra e Contra o Fascismo(LCGCF)

1935- Demissão de professores democratas de todos os graus de ensino.

B.J.C. publica as "Lições de Álgebra e Análise".

Representa a LCGCF na Frente Popular Antifascista.

1936- Vitórias eleitorais da "Frente Popular" em França e Espanha.

Levantamento de Franco em Marrocos. Inicio da Guerra Civil em Espanha.

Sublevação dos marinheiros dos navios "Dão" e "Afonso de Albuquerque", conduzidos pela ORA (Organização Revolucionária da Armada). Dominados, são enviados para o campo-prisão do Tarrafal na primeira leva de presos, que inclui também 150 militantes operários.

1937- B.J.C. publica a obra "Cálculo Vectorial"

1938- B.J.C. propõe, com os professores Mira Fernandes e Beirão da Veiga, ao Conselho Escolar do I.S.C.E.F., a fundação do Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia, de que foi director até Outubro de 1946, ano da sua extinção por decisão ministerial.

1939- As forças franquistas entram em Barcelona. Rendição de Madrid.

Inicio da Segunda Guerra Mundial.

1940- B.J.C. funda, com outros prestigiados matemáticos, a "Gazeta da Matemática" e a "Sociedade Portuguesa de Matemática".

1941- Funda a Biblioteca Cosmos, notável monumento da cultura portuguesa do século XX, que surgiu como materialização do projecto de formação e divulgação que vinha prosseguindo há mais de uma década através da Universidade Popular Portuguesa.

A Biblioteca Cosmos  publicou 114 títulos, com uma tiragem global de 793.500 exemplares.

Nela publicou o seu mais célebre livro "Conceitos Fundamentais da Matemática", exemplo brilhante de aplicação da dialéctica ao estudo da Matemática.

1942- Delegado, pela primeira vez, da Sociedade Portuguesa de Matemática aos Congressos da Associação Luso- Espanhola para o Progresso das Ciências. Torna a sê-lo em 1944 e 1946..

1943- B.J.C. é eleito presidente da Direcção da Sociedade Portuguesa de Matemática.

Participa decisivamente na criação MUNAF (Movimento de Unidade Nacional Antifascista) a cujo Conselho Nacional pertenceu.

1945- Fim da Segunda Guerra Mundial.

Formação do Movimento de Unidade Democrática (M.U.D.), sendo B.J.C. eleito para a sua Comissão Central.

1946- Formação do M.U.D. Juvenil

B.J.C. é demitido do cargo de professor catedrático da Universidade Técnica de Lisboa, por haver assinado um manifesto contra a admissão de Portugal na ONU.

Em Outubro, é preso pela P.I.D.E., ficando incomunicável numa esquadra durante cinco dias, até ser solto.

Em Dezembro é preso de novo, no Aljube. Solto no dia seguinte.

1948- Em Janeiro, é preso pela terceira vez. Fica em prisão domiciliária por se encontrar já bastante doente.

Em Março, é chamado à PIDE a fim de lhe ser comunicada a extinção do MUD.

Norton de Matos anuncia a sua candidatura à Presidência da República ;

B.J.C. teve um papel de relevo na acção política preparatória desta candidatura.

B.J.C. morre em Lisboa, no dia 25 de Junho. O seu funeral transforma-se numa impressionante manifestação de pesar.

 

Nota:
Elementos recolhidos em :

"Homenagem a Bento de Jesus Caraça", Vértice, Set.-Out.-Nov. de 1978;
"Bento de Jesus Caraça - 1901-1948- catálogo da exposição O Homem e o Tempo", 1998, Edição da Escola Profissional Bento de Jesus Caraça; "Bento Caraça- pensamento e acção, revista "História", Dezembro de 1998.
"Bento de Jesus Caraça- Militante Integral do Ser Humano"- Alberto Vilaça, Campo das Letras, 1999.