Discurso de homenagem a Alberto Vilaça proferido no descerramento de lápide em Coimbra

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UM ENCONTRO INFINITO
(discurso de António Pedro Pita, Director Regional da Cultura do Centro, proferido a 8 de Novembro de 2008, numa homenagem, realizada no âmbito do I Encontro Nacional da Toponímia, em Coimbra)

foto_alberto_vilacaA toponímia é um trabalho da memória. A todos os seus outros objectivos - de feição pedagógica, uns; outros, de organização do espaço urbano; sem esquecer, a facilitação da vida quotidiana dos cidadãos - sobreleva o de "conservar a memória de pessoas, acontecimentos e valores" [1] . Neste sentido, a toponímia parece trabalhar contra o tempo: todas as pessoas, todos os acontecimentos e todos os valores que o tempo parece devorar, condenando-os ao anonimato ou ao esquecimento, encontram na auto-consciência toponímica um lugar de resgate, fundado num pacto com a posteridade porque a toponímia fala no presente a partir do futuro.

Alberto Vilaça pertenceu à Comissão de Toponímia de Coimbra nos anos de 1983 a 1989 e 2002 a 2005 [2] . O Vereador Mário Nunes esclareceu que "foi a pessoa que mais anos pertenceu à Comissão" [3] . E, como é sabido e está documentado, nela foi não só particularmente activo - o que se conclui do grande número de propostas de que tomou a iniciativa - mas, sobretudo, um atento reorganizador da lógica toponímica.

Permitam-me que sublinhe um aspecto: intervir na toponímia com criatividade e justeza resulta de uma leitura pertinente do passado, de uma avaliação das heranças e da identificação do ponto exacto em que, no presente, o passado e o futuro se encontram.

Será excessivo encontrar, nesta deontologia da intervenção toponímica, as preocupações, os valores e os objectivos que Alberto Vilaça requereu como seus princípios de vida?

Muitos de presentes o conheceram melhor do que. Foram seus colegas, seus companheiros e seus camaradas. Mas se eu não quis ver nestas razões a boa razão para recusar o tão honroso convite para intervir nesta circunstância foi porque assim me é permitido dizer, embora infelizmente já demasiado tarde, meia dúzia de palavras necessárias.

Na última década de uma vida intensa, nascido que foi no ano chave de 1929, Alberto Vilaça consagra cada vez mais do seu tempo à investigação historiográfica. Dir-se-á que por óbvios motivos: o abrandamento de uma longa e prestigiada carreira de advocacia libertou-o para o culto dessa vocação, igualmente antiga, mas sacrificada pela exigência da outra.

Os motivos óbvios são, por norma, pouco recusáveis. Mas deixem-me relativizar o óbvio e imaginar e lançar uma hipótese. Quando o tempo passa e o passado cresce; quando, além de alongar-se, esse passado se deixa apreender como a condição cada vez mais forte do presente e do futuro; quando a vida e a experiência, progressivamente, se deixam compreender cada vez menos na sua auto-suficiência imediata porque cada vez mais se apresentam como circunstâncias históricas - a investigação historiográfica, além de um objectivo de conhecimento, cumpre um desígnio de orientação.

O gesto de mergulhar na historicidade dos homens, das coisas e dos acontecimentos pode, por isso, constituir uma via de acesso, uma chave que permite situar melhor os trabalhos e os dias de Alberto Vilaça.

De este ponto de vista - e por mais importantes que sejam, e de facto foram - a prática forense e a militância política, com a duríssima experiência de seis prisões e quatro anos e meio de cárcere, poderão ser consideradas, uma enquanto trabalho prático de instituição da justiça e outra como a transformação do presente num futuro que o optimismo marxista só poderia considerar melhor, dois elementos do puzzle existencial a que a investigação historiográfica concede horizonte, sentido e consistência.

Porque a sua investigação historiográfica não é uma investigação historiográfica qualquer. Se não erro muito, é estruturada por três coordenadas fundamentais.

Uma, refere-se à história cultural e política do comunismo em Portugal, cuja peça nuclear é Para a História remota do PCP em Coimbra (1997), obra a vários títulos notável, mas que deve ser  aproximada de outros trabalhos de menor dimensão mas não de menor significado, como, entre outros, A Comuna de Paris e os seus reflexos em Coimbra (1992), José Falcão, a Cartilha do Povo e as suas várias edições (1993, O Jornal Republicano Clandestino A Verdade (2002), Bento Gonçalves - Inéditos e testemunhos (2003) e A Comuna de Paris e a 1ª Internacional revisitadas em Portugal (2005). Neste âmbito, trata-se de mostrar a vinculação nacional da emergência das ideias marxistas, do bolchevismo e do comunismo, negando a noção simplista de que estamos perante um processo de simples importação e, portanto, de instauração artificial e fortalecendo a hipótese de que há uma história das ideias político-sociais em Portugal que liga, em épocas diferentes e graus diferentes de maturação, modos diversos de formar uma consciência revolucionária.

Outra coordenada fundamental é a que se prende com a tradição e a estrutura da atitude anti-fascista, de que são prova os estudos, de diferentes dimensão e ambição, como O MUD Juvenil em Coimbra - Histórias e Estórias (1998), Bento de Jesus Caraça - Militante Integral do Ser Humano (2000), Resistências Culturais e Políticas nos Primórdios do Salazarismo (2003) ou À Mesa da Brasileira - Cultura, Política e Bom Humor (2005).

Finalmente, é indispensável lembrar e sublinhar que a maior parte deste trabalho se refere insistentemente a Coimbra, num registo que oscila entre a melhor história local e o contributo local para uma história das ideias sociais e políticas. De este ponto de vista, Tempos de Munda e de Mondego, obra publicada em 2007, é exemplar: uma grande variedade de géneros (estudos, ensaios, memórias, cartas, documentos) refere-se exclusivamente a Coimbra, os tempos da cidade, a cidade no tempo, os elementos que tecem o real e o mito da realidade.

Não menos importante, todavia, do que o trabalho do historiador é a atitude do historiador: Alberto Vilaça foi um pesquisador incansável dos elementos que permitissem construir a máxima verosimilhança na reconstrução do passado; mas foi também um investigador generoso e fraterno, que facultava documentos, emprestava livros, prestava informações, discutia hipóteses e discordava com elegância.

É por isso que o descerramento desta lápide no âmbito do Programa do 1º Encontro Nacional de Toponímia é a oportunidade adequada para lembrar: se o nome de Alberto Vilaça fica de ora em diante justamente recordado na sua casa da cidade que amou, o nome do lugar onde Alberto Vilaça é exemplo e estímulo e discordância e controvérsia, como premissas dialécticas do desenvolvimento das ideias e das práticas nem por imaterial é menos presente. Dele nem sequer podemos falar: porque como as experiências fundas, corre no sangue, é o que nos ajuda a ver, a pensar e a sentir.

E quando, sempre tarde, sempre já demasiado tarde, nos propomos revisitar esse lugar que tem rosto e tem voz vamos acompanhados pelo sentimento de um encontro infinito.

ANTÓNIO PEDRO PITA


 


[1] Alberto Vilaça, Tempos de Munda e de Mondego, Calendário de Letras, 2007, p. 153.

[2] Idem, ibidem, p. 153.

[3] Declarações prestados a O Despertar, 7. Novembro. 2008.