O ano da morte de Mário Sacramento

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Texto de Jorge Sarabando

imgem_mario_sacramentoFoi num tempo cheio de sombras, medos e espantos, onde irrompem, por vezes, clarões de esperança e indignação, que Mário Sacramento, há quarenta anos, nos deixou.

Hoje sabemos que a ditadura se aproximava do fim. Faltava pouco, cinco anos apenas, para a alvorada libertadora de Abril e tudo agora nos parece mais fácil e óbvio, de todo evidente e simples na linearidade de quem percorre uma recta final.

Mas, então, as cadeias de Peniche, Caxias, Tarrafal, estavam cheias de presos políticos, delas nos chegavam ecos angustiados de torturas e sofrimentos; das guerras de África havia as notícias oficiosas de operações triunfantes, e as verdadeiras, as dos relatos de combates e do inferno das minas e das emboscadas, e do sangue derramado; a censura controlava toda a informação e a actividade cultural, cirurgicamente, por vezes cinicamente, mas com grande eficácia, e cada iniciativa pública - um simples encontro de jovens, como então se realizavam entre mil cuidados, um acto comemorativo, como o do 31 de Janeiro ou do 5 de Outubro, obrigavam a requerimentos, explicações detalhadas às autoridades, com garantias de que a ordem, a sacrossanta ordem, não seria violada ou subvertida por qualquer palavra, até por uma simples canção.

Havia, ainda, os períodos eleitorais, em que a Oposição sempre participava, para aproveitar os escassos dias de restritíssima abertura em que era possível falar directamente com o povo.

Havia as lutas dos trabalhadores, greves corajosas e sempre duramente reprimidas. E, de tempos a tempos, novas levas de presos, intimidações, perseguições.

Era o tempo da emigração «a salto», em busca de trabalho e de melhores condições de vida, da fuga de milhares de jovens ao cumprimento do serviço militar.

O poder político era uma ditadura brutal, mas de falinhas mansas, ao serviço do grande capital monopolista e latifundiário.

Parece-nos já distante e mesmo absurdo, mas Portugal era uma prisão para quem amava a liberdade, para quem buscava, como nos versos de Sofia de Mello Breyner, «um país liberto, uma vida limpa e um tempo justo».

Foi, então, num tempo assim que Mário viveu e lutou, e nos deixou, num dia de Março, já tão perto de Abril.

Se fosse possível voltar atrás na fita do tempo, veríamos, em Aveiro, no centro da cidade, onde era o café Trianon, um homem sentado a uma mesa, rodeado de amigos, a mão suspensa no eterno cigarro, os olhos perscrutantes, a bonomia e a atenção que a todos devotava, e logo nele se revelava a capacidade de ouvir e o gosto de convencer sem vencer, a sua humaníssima solicitude para quem buscasse resposta a uma simples dúvida ou conforto para o sofrimento, o rigor e a convicção que empregava na defesa do que entendia justo e acertado, ou ainda aquelas súbitas exasperações para com o fascismo e os seus guardiões.

Médico estudioso e reconhecidamente competente, estimado pelo mais humilde dos seus doentes, intelectual que ensaiou os grandes debates de ideias da sua época, cidadão que empenhadamente participou em tantas e tantas lutas que, em Portugal, se travaram pela liberdade e dignificação do ser humano - assim era Mário Sacramento.

Corrigindo Montaigne, escrevia, dando um fiel retrato de si próprio: «0 meu ofício, a minha arte, é a vida - mas é, em primeira mão, a vida dos outros».

A figura de Mário Sacramento merece bem a atenção e o estudo das novas gerações, pois nele se inscrevem e reconhecem todos os impulsos e contradições de décadas da nossa história colectiva, e porque os viveu intensa e apaixonadamente, de cabeça erguida, com inteireza moral, firmeza de princípios, coragem cívica, ousadia em cada passo na luta pela liberdade, a que associava um elevado espírito de tolerância e compreensão pelas diferenças, capacidade de diálogo com aliados ou adversários políticos - de que apenas excluía os fascistas.

Ao debater presencismo e neo-realismo, materialismo e idealismo, estética e ideologia, existencialismo e estruturalismo, procurava a dialéctica como método, a praxis como critério de verdade, mas, ao referir-se aos grandes movimentos sociais e literários, serenamente declarou: «preferi vivê-los a escrevê-los».

Contrariamente ao que escreveu um companheiro de geração, Mário Sacramento não sacrificou o ser ao dever, ou, por antítese, o dever ao ser. Porque ele foi na vida, no trabalho, no estudo, na luta, uma síntese, torturada, embora, das contradições em que sucumbiram tantos intelectuais de formação marxista, o que o engrandece, distingue e projecta no tempo.

A sua intensa actividade de ensaísta, criador e crítico literário, animador cultural, lutador incansável contra a ditadura, era inseparável da sua condição de comunista.

Por isso merece reparo que, num estudo recente de âmbito universitário sobre a sua vida e obra, se tenha omitido esta circunstância histórica, sem a qual não é possível entender, em toda a sua dimensão, a sua personalidade, o seu pensamento, e a natureza e alcance do seu empenhamento cívico.

Os que o conheceram sabem como sofria por cada corte da censura, e como paciente e imaginosamente escolhia, uma a uma, cada palavra, e as recobria das vestes mais diáfanas para que, iludindo o censor, chegasse intacta ao mais ignorado dos seus leitores; como cumpria a mais apagada, mas sempre necessária, tarefa clandestina do seu Partido; e como foi perseguido, ameaçado, materialmente lesado, e cinco vezes preso pela polícia política, a primeira vez com dezassete anos, outra durante seis meses, por ter subscrito uma carta a Salazar de solidariedade com os presos políticos do forte de Peniche, em greve da fome por melhores condições prisionais.

Os que o conheceram acompanharam os últimos momentos da sua colaboração na imprensa, na iniciativa que designou por "Diálogo com os Católicos", uma audaciosa aventura intelectual, merecedora de revisitação, que pode ser feita através da leitura do livro "Frátria". Nela, é-nos oferecido uma raro testemunho, duma desesperada, mas também determinada e lúcida busca de novas forças para combater e derrubar o fascismo, sem qualquer colagem acrítica ou abdicação de princípios e convicções, antes com o debate aberto e o exigente confronto de ideias, método eminentemente dialéctico.

A amargura e o desencanto que ressumam do último artigo, que sugestivamente intitulou de «SOS», são, ainda, um apelo, contido mas pungente, para que outros retomem e prossigam um caminho por desbravar.

O espírito conciliar e a mensagem da «Mater et Magistra», de João XXIII, não tinham impregnado a Igreja portuguesa, e vozes desassombradas como a do padre Felicidade Alves logo eram caladas e desautorizadas, pois a hierarquia mal se demarcava do regime.

O modo como Mário Sacramento se despede, na «Carta-Testamento» e nos últimos textos que assinou, mostram-nos como o fascismo era, na sua essência, violento e opressivo. Combatê-lo era, para as consciências livres, uma outra forma de respirar.

 

Estávamos em 1969, momento de uma aparente viragem estratégica no percurso da ditadura.

Marcelo Caetano, ao suceder a Salazar, tinha anunciado uma «evolução na continuidade», um composto híbrido, suficientemente ambíguo para alimentar expectativas, e, de caminho, paralisar lutas, aplacar revoltas e sustentar ilusões.

Era o tempo do «Zip-Zip», um programa televisivo que logo concitou as atenções, pois tinha outra agilidade e desenvoltura na linguagem e no tratamento dos temas, mas que cessou ao fim de alguns meses. Era o tempo das canções de José Carlos Ary dos Santos, como a «Desfolhada», na voz de Simone de Oliveira, ou «A Tourada», na voz de Fernando Tordo, que trouxeram até ao grande público a poesia, pela censura julgada irreverente e subversiva, e que os poderes instalados tentaram desvalorizar, pela dificuldade de as proibir, pois já tinham ganho o coração do povo.

A oposição democrática mais organizada e responsável, em que se destacava o PCP, logo classificou o discurso de Caetano como «demagogia liberalizante». De facto, o novo rosto da ditadura prometia, mas sem se comprometer, mudava os nomes às coisas sem mudar as coisas. Pide - DGS; Censura - Exame Prévio...

Tinha que ser testado, e foi, - com o incremento das lutas sociais, com novos passos do sindicalismo (a formação da Intersindical estava iminente), com a crise estudantil polarizada em Coimbra, com a resistência anti-colonial, com iniciativas como o 2.º Congresso Republicano, de que Mário Sacramento foi, ainda, o principal impulsionador .

A resposta foi implacável - no aumento do número de prisões, na brutalidade dos algozes, na violência repressiva, nas proibições da censura, na intensificação da guerra e dos seus crimes.

Tal não obstou a que, durante um dilatado período, alguns sectores da oposição tivessem apostado fortemente numa, ainda que tímida e mitigada, abertura do Regime, e tenham conversado discretamente com Caetano e seus mandatários sobre os seus propósitos e limites.

Mas não era possível ao Regime fundado por Salazar, com a sua natureza de classe, rigidez autoritária, organização do poder, fundamentos ideológicos, auto-regenerar-se.

Cedo ficou claro que o Regime não tinha mudado a sua natureza, os seus desígnios e os seus métodos. Não havia compromisso possível, antes se ampliava a consciência de que a conquista da democracia implicava uma ruptura de Estado, e que a paz e a liberdade eram inseparáveis de profundas transformações económicas e sociais.

Na sessão comemorativa do 31 de Janeiro, realizada no Teatro Aveirense em 1969, último comício em que participou, dizia Mário Sacramento: "Onde os privilégios económicos subsistem, os direitos políticos não se enraízam e podem ser coarctados sem dificuldade".

Foi um tempo áspero, violento, de um enfrentamento sem concessões nem ilusões.

Também no plano internacional se desenrolavam intermináveis e cruentos  conflitos militares, no Vietname, no Médio Oriente, onde o imperialismo tentava impor a ferro e fogo o seu domínio, e a Guerra-fria intensificava-se na Europa e em todos os continentes.

Mário Sacramento tudo procurava acompanhar, apaixonadamente, numa época em que a informação era bem mais difícil do que hoje. Vibrava com as perdas do imperialismo, sofria com erros e divisões no campo oposto.

Desses dias ficaram versos doloridos, mas que são marca indelével de um compromisso.

 "Foram cem os erros (já) do socialismo!?

Fossem cem mil - e socialistas seríamos!"

 

Foi, então, num tempo assim, de duros combates, opresso, plúmbeo, tão perto e tão longe da alvorada de Abril, que Mário viveu, tudo dando de si, com a sua palavra, a sua voz, a sua coragem, a sua inteligência, a sua generosidade, o seu dom de saber ouvir e convencer.

Talvez este breve apontamento ajude a conhecer melhor o homem e a obra, o intelectual e o cidadão. Mas não conseguem exprimir inteiramente a comoção, o reconhecimento de tanta gente anónima que acompanhou o seu corpo numa tarde de Março, em Aveiro, num longo rio de águas silenciosas.   

Disse Mário Sacramento: «a História não é um espectáculo a que assistimos, mas um real (condicionado, embora) que criamos».

Diríamos nós, de outra forma, que a História é feita pelos que não se resignam com a História...

Por isso, ecoa ainda hoje o apelo final, tão marcante, da sua «Carta-testamento», - «Façam o mundo melhor, ouviram?...» - apelo que a todos convoca e responsabiliza.

Jorge Sarabando