Intervenção de Aurélio Santos na homenagem a Mário Sacramento

História > Antifascistas 

Com Mário Sacramento ao nosso lado

Promovendo esta sessão em memória de Mário Sacramento, a URAP, quis prestar homenagem a um dos combatentes contra a ditadura fascista que mais contribuiu para que fosse livre o terreno que hoje pisamos.

Nós, como resistentes e antifascistas portugueses, temos bem presente na nossa memória da luta colectiva o papel que Mário Sacramento teve como impulsionador e organizador dos Congressos de Aveiro, que abriram para a luta antifascista largos horizontes de unidade e apontaram com audácia objectivos políticos que vieram a florescer nos cravos de Abril.

Ao prestar esta homenagem, não podemos esquecer a perseguição e os sofrimentos inflingidos a Mário Sacramento, pelas suas actividades em prol da Democracia.

Preso por quatro vezes, a primeira quando tinha 18 anos, Sacramento foi daqueles antifascistas que não cedeu, não quebrou, não pactuou, defendendo também assim o valor das suas convicções.

«Nasci e vivi num mundo de inferno - escreveu Sacramento pouco antes da sua morte. Há dezenas de anos que sofro na minha carne e no meu espírito o fascismo. Recebi dele perseguições de toda a ordem - físicas, económicas, profissionais, intelectuais, morais. Mas, mesmo que as não tivesse sofrido,

o meu dever era combatê-lo».

Para isso lutou, para isso viveu. 

A vida não permitiu que ele estivesse presente no 3º Congresso de Aveiro, em que a Oposição Democrática, um ano antes do derrubamento da ditadura, apontou traços essenciais de um programa para  o estabelecimento de um regime democrático em Portugal.

Mas também nesse Congresso a sua memória esteve presente, quando os participantes, desafiando as interdições do governo civil e das polícias da ditadura, se manifestaram em romagem ao túmulo de Mário Sacramento, numa das iniciativas que comprovaram que ali, nesse Congresso de Aveiro, a luta pela Democracia estava a entrar numa nova e mais alta fase contra o regime fascista.

Essa jornada, como dizia Mário Sacramento, «lembrem-se de que nós, os mortos, iremos, nisso, ao vosso lado!».

O legado de Sacramento não terminou com o derrubamento da ditadura fascista.

Nós, na URAP, consideramos que na nossa sociedade ainda hoje se manifestam as marcas deixadas pelo salazarismo de um profundo atraso como rastos inevitáveis de um passado que bem merecia estar já mais distanciado da nossa realidade.

Está ainda por fazer a exacta estatística de crimes de morte cometidos pela PIDE. Como também dos que foram assassinados com a tortura refinada evitando deixar marca. Pela morte lenta no Tarrafal e nos longos anos de cárcere.

Haverá quem diga que o assunto não é actual, já passou à História.

Mas só uma grave ou leviana incompreensão da História pode levar à convicção de que o 25 de Abril pôs um fim definitivo a qualquer regime autoritário ou ditatorial.

Por isso não pode deixar de nos alertar a insidiosa campanha de branqueamento da ditadura fascista (agora hipocritamente chamada «antigo regime») e o falseamento da memória dos que lutaram para que Portugal fosse uma democracia.

Não podemos esquecer que os crimes do fascismo não se deveram apenas à crueldade dos que os praticaram. Foram parte integrante de uma política que só pelo terror podia ser imposta ao povo português.

O antifascismo mantém-se como exigência actual.

Mais ainda porque há hoje em Portugal uma nova geração que não conheceu, felizmente, o peso da repressão política, das prisões e torturas, da censura, da miséria, da emigração massiva e das guerras do fascismo. Não viveu, felizmente, a abominação das concepções da ideologia fascista que a versão salazarista de fascismo quis impor ao povo português, matraqueando-a nas escolas, martelando-a na comunicação social amordaçada.

Não podemos deixar que o apagamento do que foi a ditadura, e a reabilitação dos seus responsáveis abram caminho ao ressurgimento de ideologias fascistas e de práticas políticas nelas inspiradas, a par das campanhas em curso de desvalorização e degradação da democracia.

Fascismo, nunca mais?

Não podemos entender isso como garantia de que «o fascismo não voltará».

Não voltará certamente nas formas que assumiu nos anos 20/30 do século passado. A sociedade não é a mesma, as estruturas são diferentes.

Mas o fascismo não é um fenómeno histórico de uma determinada conjuntura.

Tem carácter universal, com raízes sociais e económicas que aparecem como resposta desesperada numa economia em queda.

Foi num cenário assim que se preparou e desencadeou no século XX o assalto do nazi-fascismo ao poder, com expressões próprias nos vários países da Europa. Era a época em que Salazar se fazia fotografar com o retrato de Mussolini na sua mesa de trabalho.

Mas no mundo de hoje encontramos traços igualmente inquietantes.

Estamos num mundo adverso, às vezes sob formas dissimuladas, à liberdade, ao progresso, ao bem-estar. As esperanças de futuro andam minadas por ameaças que agravam à escala planetária factores de crise económica e social.

A instabilidade e o medo à instabilidade, a insegurança laboral, a polarização da pobreza e da riqueza, a crescente diferença planetária na distribuição dos recursos e rendimentos, a deslocação de milhões de pessoas a quem são negadas condições de sobrevivência, uma política de guerras e de dominação, criam angustiantes factores de desestabilização.

A violência da exploração, a injustiça social, corroem a democracia, retiram-lhe os indispensáveis apoios, porque essa democracia não é acompanhada por uma democracia social e económica, dando-se prioridade à concentração de lucro, com as consequências e medidas a que isso obriga.

Desacreditam-se instâncias políticas, conceitos ideológicos e valores que estavam credibilizados com a vitória da democracia.

Mário Sacramento inscreveu a sua vida na luta milenária que a humanidade trava por um mundo mais justo.

Nas palavras do seu testamento político deixou-nos um apelo que é também um honroso encargo, dizendo: «Instaurem uma sociedade humana! Promovam o socialismo, mas promovam-no cientificamente, sem dogmatismos sectários, radicalismos pequeno-burgueses! Aprendam com os erros do passado. E lembrem-se de que nós, os mortos, iremos, nisso, ao vosso lado!»

Na fase crucial que a civilização humana atravessou no século passado, os antifascistas foram a grande força de contenção de um catastrófico retrocesso histórico. Eles ousaram lutar pela democracia e o respeito pelos direitos do ser humano.

Dizia Mário Sacramento:

«O fascismo é o fim da pré-história do homem. E procede, por isso, como um gangster encurralado. Fiz o que pude para me libertar, e aos outros, dele. É essa a única herança que deixo aos meus Filhos e aos meus Companheiros».

O branqueamento do que foi o fascismo, em Portugal e no mundo, apaga, numa falsificação da História, a resistência dos povos e dos que como Sacramento, não cederam, não capitularam, e se uniram para barrar caminho ao fascismo. O de Salazar, como o de Franco, Hifler e Mussolini.

Por isso também estamos hoje aqui a prestar homenagem a Mário Sacramento.

Mas render homenagem à vida e à luta de Mário de Sacramento não significa apenas um exercício de memória, o cumprimento de um ritual ou o assinalar de uma efeméride.

Estamos aqui, também, para defender a democracia dos riscos que a podem ameaçar.

Os perigos de regimes a ela opostos, como o fascismo salazarista, não passaram a figuras do museu da História: permanecem e devem fazer parte da atenção e do conteúdo da luta por uma democracia que se vê ameaçada.

Entre os perigos que a ameaçam perigos, o principal consiste nas várias tentativas de seu desvirtuamento, utilizando muitas vezes para o seu esvaziamento a margem de acção conferido pelas próprias conquistas democráticas, como o direito de voto, mas sempre com uma manipulação sociológica da opinião pública que reserva o exercício do poder a círculos ultra-restritos e combinados para nele se perpetuarem.

Nesta luta central pela defesa da democracia inclui-se como objectivo essencial o seu aprofundamento e o seu reforço, com utilização constante de instrumentos de acção de denúncia e fiscalização dos perigos anti-democráticos.

Mas também porque está no centro de muitas outras lutas importantes, de cujo resultado depende o nosso futuro.

A luta pela Democracia vale por si própria. Mas também porque está no centro de outras lutas vitais, de cujo resultado depende o nosso futuro.

E nessa luta Mário Sacramento continua ao nosso lado.

 

27 de Março de 2009

Aurélio Santos