Recordando Bento Gonçalves

Tal como ontem, também hoje vale a pena lutar

sessaobentogoncalves_1.jpgCom a participação de José Barata, o único sobrevivente da Revolta dos Marinheiros contra o fascismo, em 1936, de Américo Nunes, sindicalista, e de Aurélio Santos, todos da URAP, realizou-se na passada quinta-feira, 26 de Setembro, em Lisboa, no salão do Museu da República e Resistência, uma sessão, dirigida por Rosa Macedo, dedicada a evocar o tarrafalista Bento Gonçalves, dirigente comunista assassinado no Campo da Morte do Tarrafal.

sessaobentogoncalves_2.jpgIntervindo em primeiro lugar, Américo Nunes recordou os traços mais significativos das lutas laborais e sociais de finais do século XIX e dos princípios do século XX, sublinhando que a repressão sobre o movimento operário não viria a abrandar com a revolução republicana de 5 de Outubro de 1910, pelo contrário. Levada ao poder com o apoio e a intervenção do proletariado, a média e a pequena burguesia cedo se lançou contra os trabalhadores e as suas reivindicações. Vivia-se então um ambiente de intensa luta de classes, na ausência, porém, de uma direcção forte e de um projecto que unisse os vários grupos operários que aspiravam à justiça social, divididos em ideologias diversas e em estratégias e tácticas diferentes. Nessa luta se formou a personalidade de Bento Gonçalves, que mais tarde viria a ser eleito secretário-geral do Partido Comunista Português, criado em 1921, único partido político que sobreviveu à ditadura militar instaurada em 1926, que veio a dar início ao regime fascista liderado por Salazar. Tanto os marinheiros revoltados contra o Governo e solidários com a República espanhola, como os que mais se destacaram na jornada insurrecional do 18 de Janeiro de 1934, foram em grande número enviados para o Tarrafal.


Campo da Morte Lenta, nome que, como Aurélio Santos viria a recordar, foi dado ao campo de concentração, onde se entrava para não mais sair, e onde o médico fascista afirmava que estava ali «para passar certidões de óbito». Aurélio Santos sublinhou o papel organizador de Bento Gonçalves, e relevou os aspectos mais marcantes desse período do fascismo - imitador do fascismo italiano de Mussolini, que Salazar considerava um «génio político». Tanto na vertente reorganizadora do PCP e na actividade subsequente que manteve nas duras condições da perseguição terrorista, como depois no Campo de Concentração, de onde continuou a dirigir o Partido e até ao seu assassinato, vítima de uma bilhardose não tratada, Bento Gonçalves foi um resistente que cala fundo na memória dos que o conheceram e dos que, hoje, de outra forma, resistem à exploração e à injustiça.


José Barata era muito jovem quando foi preso na sequência da Revolta dos Marinheiros. Chegou ao Tarrafal com 20 anos de idade e conheceu Bento Gonçalves mais pelo exemplo de trabalho, de humanidade, de correcção, de disciplina que mostrava do que por uma ligação mais próxima ou por uma aproximação de concepções políticas que Barata ainda não partilhava plenamente. Fez questão de dizer: «Quando me refiro a Bento Gonçalves e aos companheiros que comigo estiveram no Tarrafal, digo sempre Camarada, não só em recordação do que lutámos juntos como quando, já depois do 25 de Abril, não renegamos os nossos ideais de então.»
No breve período de intervenções por parte do público, entre o qual se registou a presença de muitos jovens, José Barata teve oportunidade de recordar os objectivos da Revolta dos Marinheiros, em 1936. Começara tudo com a degradação do salário e com a luta promovida e orientada pela ORA - Organização Revolucionária da Armada, ligada ao PCP. Eram todos jovens e eram todos praças - não havia entre eles nenhum oficial. Os navios estavam proibidos de aportar em Espanha em portos controlados pela República, só o podiam fazer naqueles tomados pelos fascistas. Houve alguns marinheiros que desafiaram esta ordem e logo foram expulsos e presos pela PIDE. A revolta surgiu, pois, num movimento de solidariedade com esses camaradas e contra o governo fascista dirigido por Salazar.
Lembrando o 25 de Abril e a sua própria reintegração na Marinha, embora com um posto inferior ao que deveria ter obtido por antiguidade. José Barata, quase quatro décadas passadas sobre a Revolução, refere-se às lutas que de novo levantam o povo contra a opressão. Tal como ontem, também hoje vale a pena lutar.