Virgínia Moura - Força e Coragem

virgina_moura.jpg"Uma força da natureza", para o escritor Teixeira de Pascoaes e "uma das corajosas mulheres de Portugal que muito tem sofrido por amor ao povo", para o escritor Ferreira de Castro, Virgínia de Moura foi a mulher que a URAP homenageou dia 04 de Outubro em Lisboa, no Museu da República e Resistência.
Integrada no ciclo "Rostos da Resistência", a sessão, presidida pela coordenadora da URAP, Marília Villaverde Cabral, teve como oradores dois amigos de Virgínia Moura, engenheira civil de profissão, presa pela PIDE 16 vezes, nove das quais julgada, três vezes condenada e vítima de maus tratos: António Areosa Feio e Maria José Ribeiro.

Para Areosa Feio, Virgínia Moura foi "a mulher combatente, sempre presente em todas as frentes de luta. Mulher com ideias próprias e palavra sempre pronta, quando estava em causa definir caminhos e tomar decisões".
Areosa Feio, que partilhou com Virgínia Moura a Direcção do Movimento Nacional Democrático, de cuja Comissão Central Virgínia Moura foi membro, lembrou o seu comportamento íntegro, a sua postura sempre fraternal e firme, a cidadã lutadora pela liberdade e pela dignificação da intervenção e dos direitos das mulheres.


A segunda oradora, Maria José Ribeiro, afirmou que conheceu a homenageada quando em 1954, aos 18 anos, foi viver para o Porto. "A sua verticalidade e firmeza, a par da doçura com que expunha o que pensava, sempre com um sorriso largo que convidava o interlocutor a envolver-se tocou-me profundamente", disse.
Maria José Ribeiro contou ainda que Virgínia Moura foi um exemplo que a ajudou a crescer enquanto cidadã comprometida com as mesmas causas. Partilhou com ela, ainda jovem, e mais tarde adulta, momentos de luta em várias campanhas eleitorais pela democracia e a liberdade, em defesa da Paz, da dignificação da Mulher e tantos outros marcos que estão indelevelmente gravados na sua memória.
Maria José Ribeiro lembrou igualmente Lobão Vital, marido de Virgínia Moura, "lutadores das mesmas causas, com uma cumplicidade e uma profunda ternura que evidenciavam em todos os momentos, mas com individualidades próprias que ambos mutuamente respeitavam".


Cidadã esclarecida, sempre soube identificar a sua vida com a luta do seu povo e com as grandes causas da democracia e foi o elo de ligação entre as correntes unitárias de luta antifascista, pela liberdade a democracia e a paz, durante os longos 48 anos do regime fascista.

No dia 26 de Abril de 1974, Virgínia Moura entrou na Delegação da PIDE, no Porto, para saudar a libertação do último preso político que ali se encontrava detido, o jovem Jorge Carvalho. Que melhor símbolo de liberdade, do que esta Mulher de sorriso aberto, subindo livre as escadas do edifício onde tantas vezes entrara privada dela.
Com Abril veio o reconhecimento público. Virgínia Moura foi agraciada com a Ordem da Liberdade, com a Medalha de Honra da Câmara Municipal do Porto, onde foi autarca, e com a Medalha de Honra do Movimento Democrático de Mulheres.


Em 19 de Abril de 1998, com 82 anos de idade, Virgínia Moura faleceu no Porto. O seu funeral foi uma sentida e justa homenagem prestada por milhares de pessoas, cidadãs e cidadãos anónimos, e por diversas organizações políticas associativas e populares.

Em Moreira de Conegos, Guimarães, foi dado o seu nome ao Agrupamento de Escolas Virgínia Moura. No Porto, no Largo Soares dos Reis, junto ao edifício onde esteve instalada a delegação da Pide, a Câmara Municipal do Porto colocou um busto de Virgínia Moura, após petição pública.


Mas quem era essa Mulher que marcou várias gerações e ainda hoje continua a influenciá-las com o seu exemplo impar de exercício de cidadania?

VIRGINIA DE FARIA MOURA nasceu no dia 19 de Julho de 1915, em Martinho do Conde, Guimarães.  
Foi a primeira mulher portuguesa a licenciar-se em Engenharia Civil, curso que frequentou na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Cursou também Matemática, em Coimbra, e Letras, no Porto.
Com apenas 15 anos participou na greve de estudantes do Liceu que frequentava na Póvoa do Varzim, em protesto contra o assassinato do jovem estudante Branco.
Com 18 anos ligou-se ao Partido Comunista Português, integrando a organização Socorro Vermelho, de apoio aos presos políticos portugueses e espanhóis. Ainda, na clandestinidade, foi membro do Comité Central do PCP.  
N o Socorro Vermelho conheceu o seu companheiro de vida e de luta, o Arquitecto Lobão Vidal, com quem esteve casada 42 anos.  Viveram uma bonita história de amor que a convergência de ideais e de acção política solidificou. Chegaram a estar, por várias vezes, ambos presos. O "casal", como eram conhecidos, saudados e respeitados pela população do Porto, foi símbolo da luta e da resistência contra o fascismo.
Virgínia Moura destacou-se pela participação e empenhamento, em 1949, na candidatura do General Norton de Matos, integrando a comissão organizadora.
Memorável a sua intervenção no Comício de Fonte da Moura e a brutal agressão de que foi vítima, com seu marido e os Professores José Morgado e Ruy Luis Gomes.  
Em 1952, integrou a Comissão Organizadora da candidatura à Presidência da República do Professor Ruy Luís Gomes e, em 1959, a do General Humberto Delgado, na sequência da desistência do Dr. Arlindo Vicente.
Pertenceu ao Movimento de Unidade Democrática (MUD) e ao Movimento Nacional Democrático (MND) e participou nos vários Congressos da Oposição Democrática, de cuja Comissão Nacional foi membro.
Assinou a declaração que exigia a Salazar negociações com o governo indiano relativamente a Goa, Damão e Diu, o que lhe valeu ser julgada por "traição à pátria".
Como mulher da cultura, colaborou, sob o pseudónimo de Maria Salema, em diversas publicações periódicas (O DIABO, de Lisboa; O PENSAMENTO, do Porto; O TRABALHO, de Viseu), e promoveu a criação da Revista "Sol Nascente".
Organizou conferências , em  que se destacaram as participações de Maria Lamas, Teixeira de Pascoaes e Maria Isabel Aboim Inglês.

Como feminista, lutou pela dignificação da Mulher e a sua intervenção política, integrando o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, a Associação Feminina Portuguesa para a Paz e o Movimento Democrático de Mulheres, de cujo Conselho Nacional foi membro permanente.

Em consequência da sua intervenção, Virgínia Moura nunca alcançou um emprego público nem lhe foi consentido exercer oficialmente o ensino. Mas sempre trabalhou na sua área, competentemente. Exerceu particularmente o ensino. Foi com ela que muitos jovens estudantes, a quem dava explicações no seu pequeno escritório da Praça General Humberto Delgado, no Porto, aprofundaram os conhecimentos em Matemática e Física e o seu desenvolvimento humano e cívico.