Algumas palavras sobre Veiga Leitão por Graciete Fernandes

Intervenção de Graciete Fernandes na homenagem a Luís Veiga Leitão,
a 15 de Dezembro de 2012, no Porto, por ocasião do centenário do seu nascimento, promovida pela URAP em parceria com a Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto e a UNICEPE – Cooperativa Livreira dos Estudantes do Porto.

 

«É para mim uma grande honra vir aqui falar, embora muito sucintamente, do poeta, do resistente antifascista, do amigo Luís Veiga Leitão. Conheci-o naqueles tempos dos anos 50-60 do século passado em que uma juventude revoltada e ansiosa se agrupava em torno de realizações culturais tais como o Teatro Experimental do Porto, o Cine Clube do Porto ,a Sociedade Editorial do Norte, a Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, a  Livraria e Galeria Divulgação, a Associação Feminina Portuguesa para a Paz(encerrada em Janeiro de 1952, pela PIDE) e posteriormente a UNICEPE, fundada por estudantes, em 1963, já após fecho definitivo da SEN, organizações essas sempre na mira da PIDE, pois nelas se vislumbrava o fermento da luta contra a ditadura e o fascismo. E a cultura é perigosa. Pois obriga a pensar.


Essa foi também a época gloriosa do MUDJUVENIL onde se forjaram tantos resistentes ainda ativos, embora alguns, infelizmente,  já fora do nosso convívio.
Muitos companheiros envolvidos na luta acompanhavam essa juventude e eram um exemplo para todos. Embora eu não pertencesse ao MUDJUVENIL, conhecia muitos dos que o integravam e partilhava dos seus ideais.
E foi assim que conheci Veiga Leitão, homem e poeta com uma atividade política intensa de resistência e com uma personalidade afável, cheio de humor contagiante e sempre, sempre gerador de empatias.


Conheci-o e à sua mulher Maria Sofia na casa onde então habitavam com a família, da qual destaco, não desvalorizando os restantes, o seu sogro, Albano Freitas Monteiro, que era uma figura fascinante. Também resistente antifascista, também "hóspede" das prisões da PIDE, o seu porte magnífico inspirava a confiança na luta daqueles que consideram imprescindível um mundo de Paz e Justiça.
Mas, voltando a Luís Veiga Leitão, e para caraterizar a sua alegria de viver, recordo um dia em que, por acaso, nos encontramos no mesmo transporte coletivo e ele me disse, abraçando-me e sorrindo, "olha, hoje faço 50 anos". E já lá vão outros  50!!!
Era uma figura atraente e a imagem que dele muito frequentemente me aparece é a das suas idas à Livraria Leitura, já depois do 25 de ABRIL, com o seu cachecol branco esvoaçando (feito pela Maria Sofia) e o seu eterno sorriso.
Mas venho aqui também recordar um pouco do seu percurso político e da sua vida, sempre consequente, sempre intransigente, sempre em sintonia com os ideais socialistas.


Resumindo a sua biografia poderei dizer:
-Nasceu em 1912 a 27 de Maio, em Moimenta da Beira, filho de João de Almeida Leitão, comerciante e de Maria da Luz Veiga Leitão possuidora de dotes artísticos e boa conhecedora das línguas francesa e alemã.
-Já longe dos seus pais e, em Viseu, na década de 30,dedica-se ao Teatro e integra um Movimento para a criação de uma Universidade Livre em colaboração com o Dr. Hernâni Vasconcelos. Já em Coimbra , faz amizade com Joaquim Namorado.
-Em 1937 passa a trabalhar como escriturário na Federação dos Vinicultores da Região do Douro.
-Em 27 de abril de 1947 casa com Maria Sofia Mendonça Monteiro, funcionária dos CTT em Lamego, onde fixa residência.
-Em 1949 é demitido das suas funções por razões políticas, logo após idêntica demissão de sua mulher.
- Entretanto publica o seu primeiro livro, Latitude, e inicia funções de Delegado de Informação Médica . Acaba por ficar a residir no Porto.
-Em 1952 é preso pela PIDE e nasce o seu único filho, Luís António Mendonça Veiga Leitão, com ele ainda preso.
- Da sua obra literária não falarei, outros amigos mais competentes já o fizeram. Apenas quero referir que colaborou, entre outros, com Egipto Gonçalves, António Rebordão Navarro, Daniel Filipe e Papiniano Carlos, o escritor e resistente antifascista que recentemente nos deixou e a quem presto também a minha homenagem, na elaboração dos fascículos de poesia Notícias do Bloqueio, publicados no Porto entre 57 e 61.
- Entretanto viaja, escreve, desenha (grande desenhador ele também era) e em 196 7 radica-se no Brasil principalmente para evitar que seu filho seja chamado para a Guerra Colonial que ele e sua  mulher, grande lutadora pela Paz, repudiam veementemente.
-No Brasil continua a sua vida sempre ligada à arte e à literatura não esquecendo, no entanto, o seu ideal político.
- Faz breves visitas a Portugal e em 1974  aqui  permanece 6 meses  sendo ,então, sua mulher reintegrada nos CTT.
-Em 1976 regressa definitivamente a Portugal, continuando a escrever e a viajar. Um pormenor  interessante .  Ao visitar a URSS e junto ao lago Baikal, ao saberem da presença dele e sua mulher, como portugueses ,cantam-lhes Grândola, Vila Morena.
-Em 1987 morre subitamente no Brasil, a 9 de outubro, onde se tinha deslocado por convite do então Presidente da República José Sarney, a fim de realizar um ciclo de conferências sobre Literatura Portuguesa na Universidade de Brasília onde, infelizmente, não chegaria a ir. E aqui posso também recordar e prestar homenagem  ao  grande Óscar Niemeyer.
Falta-me ainda falar um pouco mais do seu percurso político como resistente antifascista ativo e coerente, integrando as fileiras da única força política que conseguiu resistir à ditadura, na clandestinidade, organizando a luta dos trabalhadores, dos democratas, dos intelectuais, o PCP.


E assim passarei a incluir, resumidamente, alguns elementos da sua "ficha" na PIDE que constitui, por si, só um poderoso libelo contra o branqueamento do fascismo tão difundido nos dias de hoje.

-Em 30-03-1952 é preso para averiguações por crimes contra a segurança do Estado, dando entrada nas prisões privativas da Subdiretoria do Porto da PIDE, acusado de pertencer ao Partido Comunista Português e de ter cedido a sua casa para reuniões da "Comissão Distrital do Porto dos Trabalhadores" do "Movimento Nacional Democrático", o que ele negou sistematicamente limitando-se a declarar "não admitir inquirições à sua vida particular".
-Em-02-04-1952 é transferido para a Diretoria de Lisboa da PIDE, onde deu entrada às 8h da manhã do dia 03-04, tendo recolhido, doente, à cadeia do Aljube.
-Em 22-04-1952 sua mulher Maria Sofia faz um requerimento ao Diretor da PIDE solicitando que o marido seja assistido pelo Dr. Pulido Valente, por se encontrar gravemente doente, e que lhe seja permitida uma visita diária de uma hora. Apenas lhe é concedida uma visita de três dias por semana, sempre na presença de um agente. O médico desvaloriza um pouco o seu estado deficitário.
-Em 29-4-1952 baixa à enfermaria da Cadeia do Aljube.
-Em 07-05-1952 tem alta dessa enfermaria e é logo transferido para a prisão de Caxias.
-Em 16-06-1952 é solicitada a prorrogação da prisão preventiva por mais 45 dias em virtude da morosidade das investigações pelo facto de, segundo a PIDE, os detidos se eximirem às  suas responsabilidades dentro da organização particularmente criminosa a que pertencem.
-Em 30-06-1952 é emitido um despacho de punição proibindo visitas por 30 dias por manifestações de indisciplina.
-Em 03-07-1952 é punido com mais 30 dias sem receber visitas.
-Em 26-07-1952 é transferido para a Subdiretoria do Porto.
-Em 29-07-1952 novo pedido de prorrogação  de  prisão preventiva por mais 45 dias, pelas razões já referidas.
-Em 06-09-1952 é posto à disposição do Tribunal Criminal do Porto.
-Em 09-09-1952 é solto por mandado do 1º Juízo Criminal do Porto, mediante caução de 20.000 escudos.
-Finalmente é julgado a 22-12-1953 e absolvido por ausência de provas, juntamente com outros companheiros.
- Mas a vigilância da Polícia era constante.
- Alguns exemplos dessa vigilância.
-Em 29-08-1953 é acusado de apoiar "organizações comunistas ou pró comunistas", diziam, tais como as já anteriormente referidas.
-Em 11-12-1953 subscreve abaixo assinado pela extinção da Censura em Portugal.
- Subscreve também o apelo "Pela Paz entre as Nações", sendo de salientar a colaboração, com a PIDE ,dos Administradores dos CTT .
-Em 21-12-1953 é acusado de, juntamente com outros destacados antifascistas entre eles Albano Freitas Monteiro, pai de Maria Sofia, ter assinado dois telegramas dirigidos ao Presidente do Conselho, protestando contra a agressão ao Dr. Humberto Lopes no decorrer de interrogatórios a que foi submetido na PIDE. Em 26-12 é intimado a comparecer na Subdiretoria do Porto da PIDE, no dia 28 seguinte, para prestar declarações sobre o assunto.
-Em 14-02-1954 os Serviços de Censura impedem que o jornal "República" publique uma notícia sob o título "Uma mensagem de intelectuais portugueses ao Secretário Geral das Nações Unidas, também subscrita por Veiga Leitão, apoiando as negociações para eliminação das novas armas de extermínio maciço.  
                                                                 ....

E, durante todos os meses e anos que se seguiram, Luís Veiga Leitão sempre esteve sob alçada da PIDE , sendo fastidioso enumerar, embora não menos importante, tantas ações em que participou e denúncias de que foi alvo.


No entanto gostava ainda de referir:
-Em 15-06-1965 subscreve um artigo para o jornal "República", que a censura cortou, sobre a necessidade de abrir um inquérito ao assassinato do General Humberto Delgado.
-Em 01-02-1967 é um dos signatários de um violento protesto enviado ao Presidente da República contra atos de violência exercidos sobre Luís Stau Monteiro a pretexto de, nos seus escritos, ultrajar e injuriar o Exército Português e os combatentes da Guerra no Ultramar.
-Em abril de 1968 subscreve um abaixo assinado dos democratas portugueses exilados no Brasil, dirigido ao Ministro dos Negócios Estrangeiros do Brasil, solicitando que não fossem ratificados os acordos culturais entre os dois países, porque o governo fascista português não garantia a liberdade de expressão nem o desenvolvimento de políticas culturais.
-Em outubro, novembro de 1968 subscreve um manifesto à opinião pública brasileira, denunciando "O salazarismo sem Salazar" e o falso liberalismo de Marcelo Caetano, referindo a repressão pela PIDE e GNR das manifestações de 5 de outubro, pela democracia e contra a guerra colonial.
-Em outubro de 1971 subscreve um documento de que o Professor Ruy Luís Gomes é o primeiro subscritor, solicitando sanções contra o governo de Caetano, já pedidas à xxvi Assembleia da ONU, e contra a guerra colonial.

 

Por este pequeno resumo da atividade de resistente antifascista , quer pela sua escrita, quer pala sua ação, quer em Portugal, quer no Brasil, consideramos que esta homenagem,   a VEIGA LEITÃO , um resistente em tempos difíceis, é não só muito justa como também um incentivo à continuação da luta pelo Mundo por ele sonhado.


E, só para terminar, um pequeno poema seu que, quanto a mim, define bem a sua dimensão de poeta resistente e militante.

 

SER

Vir à luz em partos duros
Ser erva rasgando a pele
granítica dos muros

Viver em grades   desterros
E ser um raio de sol
Por entre os ferros

E quando tudo se for
Morrer pela madrugada
Com a raiz de uma flor
Na mão cerrada.

»


Apoios à elaboração deste texto:

1-Luís Veiga Leitão
    Poesia Completa
Organização de Luís Adriano Carlos e Paula Monteiro
 
 2-Notas extraídas da sua "ficha" na PIDE

3-Livrarias & Livreiros
1945-1994
Histórias Portuenses
Carlos Porto

4-Conversa com Maria Sofia e Luís António.

5- Minhas recordações.

6- Algumas informações fornecidas por Teresa Lopes e F. Fernandes.

                                                  

Graciete Virgínia Rietsch Monteiro Fernandes