Na morte de Marcos Ana (Fernando Macarro)

marcos ana 1O poeta e revolucionário Marcos Ana (Fernando Macarro Castillo), o prisioneiro que mais tempo seguido passou nos cárceres franquistas, 23 anos, morreu ontem, quinta-feira, 24 de Novembro, em Madrid, aos 96 anos.


Marcos Ana, que foi durante três décadas vice-presidente da Federação Internacional de Resistentes (FIR), mantinha uma relação muito próxima com a União de Antifascistas Portugueses (URAP), tendo-se reunido em 27 de Maio de 2009 com o então coordenador do Conselho Directivo da URAP, Aurélio Santos, e os membros do Conselho Directivo, Encarnação Raminho, Marília Villaverde Cabral, Ana Pato e David Pereira.


O poeta, que se encontrava então em Lisboa para o lançamento do seu livro "Digam-me como é uma Árvore – Dos cárceres franquistas à Liberdade", uma autobiografia em que conta experiências comuns a muitos milhares de antifascistas que lutaram pela liberdade, a democracia e o socialismo, falou do traço de unidade na luta antifascista entre Portugal e Espanha, que se observa no percurso dos dois povos na busca da liberdade e da democracia.


dsc03144Marcos Ana lembrou um encontro, nos anos 60, com o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal. Na ocasião, este defendeu como muito importante a constituição de comités únicos pela amnistia dos presos políticos em Portugal e Espanha, o que veio a acontecer com resultados muito positivos.


Referindo-se à luta antifascista, salientou o papel importante que a juventude nos dois países pode desempenhar para que a verdade histórica em Portugal e em Espanha não possa ser deturpada ou reescrita.

 

 

 


marcos ana 8Marcos Ana (Fernando Macarro Castillo) nasceu numa pequena aldeia perto de Salamanca, em 1920, no seio de uma família pobre de jornaleiros do campo. A sua vida foi marcada por uma paixão constante em defesa dos oprimidos e deserdados. Com 15 anos filiou-se nas Juventudes Socialistas Unificadas e depois no Partido Comunista. Lutou do lado republicano, durante a guerra civil espanhola. Quando esta terminou, em 1939, foi preso juntamente com milhares de democratas e condenado à morte, pena que veio a ser comutada.


Permaneceu encarcerado durante 23 anos ininterruptos, entrou aos 19 anos e saiu com 42. Escreveu na prisão um grande número de poemas que atravessaram as paredes e espalharam o seu nome pelo mundo, contribuindo para desencadear uma campanha de solidariedade em seu favor. Foi um dos primeiros presos políticos espanhóis defendidos pela Amnistia Internacional.


Ao ser libertado, em 1961, Marcos Ana percorreu a Europa e grande parte da América, sendo recebido em parlamentos, universidades e centenas de concentrações populares, promovendo e organizando a solidariedade com os presos políticos e as respectivas famílias e denunciando as práticas fascistas em Espanha.


marcos ana 10Com os seus camaradas de prisão criou um jornal clandestino chamado "Juventude". Davam aulas e organizavam tertúlias literárias sobre livros proibidos. Começou então a escrever poemas. Fazia-os sair clandestinamente da prisão, às vezes com a ajuda de um guarda, outras vezes memorizados por presos que saiam da cadeia.


Os poemas começaram a ser difundidos com a ajuda de poetas no exílio, como Rafael Alberti, e dos comités de solidariedade com os presos políticos. Foi aí que Fernando Macarro se converteu em Marcos Ana, o pseudónimo que construiu unindo os nomes dos pais: Marcos Macarro, morto num bombardeamento em 1937, e Ana Castillo, que moreu no Natal de 1943, depois da segunda condenação à morte do seu filho.


capa avore webMarcos Ana escreveu na prisão os livros "Poemas de prisão" e "Saudades do muro", "Digam-me como é uma Árvore", autobiográfico, em 2007, e "Vale a pena Lutar", em 2013.


Ao ler o livro "Digam-me como é uma Árvore", o cineasta Pedro Almodóvar quis converter a vida de Marcos Ana num filme e comprou os direitos desta obra.