Na morte de Isaura Silva Borges Coelho

isaura borges coelho ficha pideIsaura Borges Coelho, combatente antifascista e pelos direitos das enfermeiras, sócia da URAP, morreu dia 11 de Junho, aos 92 anos. O seu corpo estará em câmara ardente amanhã às 17:00 no centro da Servilusa de Cascais e o funeral realiza-se sexta-feira às 13:30.


Isaura Assunção da Silva Borges Coelho nasceu em Portimão em 20 de Junho de 1926. Cursou enfermagem na Escola de Enfermagem Artur Ravara e destacou-se na luta a favor dos direitos das enfermeiras e de contestação à política do regime salazarista.


Começou a exercer a profissão no Hospital dos Capuchos, onde as enfermeiras eram obrigadas a turnos de 12 horas, que iam muitas vezes até às 24 horas, e a 30 velas de 12 horas, com apenas uma folga semanal.


Quando 12 colegas, enfermeiras do Hospital Júlio de Matos, foram despedidas, por terem casado sem autorização, encabeçou um abaixo-assinado a Salazar, ao Cardeal Cerejeira e ao Enfermeiro-mor dos hospitais.


isaura borges coelho e antonioRecolheu centenas de assinaturas para exigir a liberdade de casamento para as enfermeiras. O decreto-lei nº 28794, de 1 de Julho de 1938, estabelecia no artigo 60 que "Nos lugares dos serviços de enfermagem e domésticos (serviço interno) a preencher por pessoal feminino, só poderão de futuro ser admitidas mulheres solteiras e viúvas, sem filhos, as quais serão substituídas logo que deixem de verificar-se estas condições". A proibição do casamento das enfermeiras só terminaria, depois de longa luta, com a publicação do decreto nº 44923, de Março de 1963.


Aderiu ao Movimento de Unidade Democrática (MUD) em 1953. Durante a campanha para as eleições para a Assembleia Nacional, quando se dirigia para a sede do MUD Juvenil (aos Anjos, Lisboa) é presa juntamente com outros jovens, posteriormente libertados. Ficou em prisão preventiva por dinamizar do "movimento das enfermeiras".


A "casamenteira", como jocosamente a PIDE a apelidava, foi sujeita ao regime de isolamento, brutalmente espancada e arrastada pelos cabelos, na presença do seu advogado, Dr. Lopes Correia, também violentamente agredido pela PIDE.


Isaura Borges Coelho e a irma Hortensia outras enfermeirasDurante o julgamento no Tribunal Plenário de Lisboa, em 1954, a PIDE ocupou a quase totalidade dos lugares do público, não conseguindo impedir que fosse saudada por muitos populares e recebido um cravo branco de uma enfermeira. Entre as testemunhas de defesa, estava o poeta Alexandre O'Neil, a escritora Maria Lamas, o engenheiro Veiga de Oliveira e Maria Isabel Aboim Inglês.


Condenada a dois anos de prisão maior, à perda de direitos políticos por 15 anos e a medidas de segurança prorrogáveis, passou quatro anos em Caxias. Chegou a pesar 30 quilos, esteve às portas da morte, sendo internada nos hospitais de Santa Marta e de Santa Maria, onde colheu a solidariedade de médicos e enfermeiros. A PIDE viu-se obrigada a interná-la.


Casou no Forte de Peniche com o historiador e resistente António Borges Coelho, em 1959, que esteve preso seis anos em Peniche por ser membro do MUD Juvenil e do Partido Comunista Português.


Após o 25 de Abril, quando lhe ofereceram o lugar de enfermeira-chefe nos HCL, recusou, optando pelo seu lugar de enfermeira de 2ª classe na MAC. Subiu, depois, a enfermeira de 1ª e a enfermeira- chefe. Tirou o curso de Enfermagem Pediátrica e Saúde Infantil e, durante anos, exerceu o cargo de enfermeira-chefe no Serviço de Prematuros. Até à reforma manteve-se como delegada sindical das enfermeiras da Maternidade Alfredo da Costa.


Aos 11 anos, Isaura salvou do mar do Vau uma menina de 12 anos. Aos 16, tirou a blusa vermelha para mandar parar um comboio, dado que estava uma mula e uma carroça na linha. Moveram-lhe um processo por ter atrasado o comboio.


Foi condecorada, em 2002, com a Ordem da Liberdade, concedida pelo Presidente Jorge Sampaio.


Em Dezembro passado, foi galardoada pelo Município de Portimão com o título de cidadã benemérita e com a Medalha de Honra.


A história da sua vida e de sua irmã Hortênsia da Silva Campos Lima, que também esteve presa, foi contada em 2000 num filme de Susana de Sousa Dias, "Enfermeiras do Estado Novo", com memórias, imagens e documentos da época.