Na morte de Manuel Ramalho Gantes

Manuel Ramalho Gantes sO antifascista Manuel Ramalho Gantes morreu domingo, dia 20 de Outubro, na sua terra natal, Vidigueira, aos 93 anos.


Iniciou a sua actividade contra o governo fascista nos anos 1950 em Coimbra, onde viria a licenciar-se em Direito pela Universidade de Coimbra (FDUC), depois de uma passagem por Lisboa.


Nas eleições presidenciais de 1958, apoiou a candidatura de Arlindo Vicente, mas acabou por se destacar na negociação que permitiu depois a desistência deste a favor de Humberto Delegado.


Quando o "General Sem Medo" passou por Coimbra, há 61 anos, na campanha eleitoral, o jovem estudante teve um papel decisivo na entrada de Delgado na cidade, praticamente sitiada por forças do regime ditatorial que tentavam impedir o candidato de chegar à Baixa.

 


No Calhabé, a PIDE procurou demover a comitiva de prosseguir a marcha, alegando que não conseguiria chegar ao largo da Portagem, onde o General era esperado por milhares de pessoas.


Manuel Gantes, o advogado Alberto Vilaça e a mulher deste, Natércia, foram num carro à frente do descapotável do candidato presidencial, conduzindo-o por vias secundárias que a polícia política tinha deixado a descoberto, até chegarem à Portagem, onde foi recebido em festa pela multidão.


No jardim do Governo Civil de Coimbra, o então inspector da polícia política José Sacchetti não conseguia disfarçar a sua frustração pelo feito de Humberto Delgado e seus apoiantes, de acordo com testemunhos da época.


Militante do MUD Juvenil e depois do PCP, Manuel Gantes foi um activista da luta académica em Coimbra, nomeadamente na Associação Académica. Em 1969, foi candidato suplente por Beja às eleições legislativas pelo Movimento Democrático Português – Comissão Democrática Eleitoral (MDP-CDE).


Trabalhou no Centro de Documentação Científica Ultramarina e no Centro de Investigação Pedagógica da Fundação Gulbenkian (1964-1974).


Após o 25 de Abril, foi presidente da comissão administrativa da Junta de Freguesia de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa. Manteve o exercício da advocacia até 1975, altura em que pediu a suspensão na Ordem dos Advogados por ter sido nomeado delegado da Secretaria de Estado do Trabalho em Beja na altura da Reforma Agrária. Em 1976, foi-lhe instaurado um processo de investigações por uma comissão de inquérito nomeada pelo ministro de então, com suspensão de funções e salário, e transferido para Lisboa. Ganhou o recurso que interpôs junto do Supremo Tribunal Administrativo e foi reintegrado no Ministério do Trabalho, onde se manteve até à reforma, em 1996. Entretanto, entre 1979 e 1987, esteve em Moçambique como jurista cooperante do governo moçambicano.