A biliosa

História > Tarrafal

Tarrafal - testemunhos, editorial Caminho, 1978  

celas_tarrafalCom o tempo das chuvas - de Julho a meados de Setembro - começava aquele tempo de sobressalto, das febres e, pelos finais de Outubro, um mais terrível ainda, o das biliosas.
Distinguíamos as febres em frias, quentes, lentas, terças, quartãs. Todas elas eram formas de paludismo e minavam-nos.

Havia sempre paludismo, mas pela época das chuvas era o seu período. Tal como durante todo o ano se podiam dar biliosas, embora o final de Outubro fosse a sua altura.

Mas por que razão se verificavam mais no fim de Outubro? Seria a biliosa a fase final do paludismo crónico? A consequência de uma série de avanços febris quebrando resistências até sobrevir a biliosa? Seria sequela da medicação pelo quinino? A verdade era aparecer sempre naqueles que anteriormente já tinham sido vítimas do paludismo. E também era verdade que naqueles que substituíram o quinino pela atebrina deixaram de se verificar biliosas.

Mas antes quantas mortes!

A biliosa aparecia de repente. Não era pressentida. E a todos nós assustava e nos fazia vigiar ansiosamente a urina. Porque quando se urinava sangue, quando a urina trazia um tom de café, era a biliosa.

E o camarada a quem isto acontecia, procurando dominar a sua angústia, vinha dizer-nos:

- Estou com uma biliosa.

Bem sabíamos todos nós o que aquilo significava. Toda a nossa solidariedade era encaminhada para aquele camarada e com ele nos íamos bater mais uma vez contra a morte. Dali a momentos, na sua cama, transportado por nós, seguia para a enfermaria, e por todo o Campo corria a notícia como um arrepio de frio.

- Mais uma biliosa!

Durante dez horas a vida estava dependente de a biliosa ser ou não anúrica.

- Já urinou?

- Ainda não!

Esperávamos em volta da enfermaria.

- Urinou! O sangue vem mais claro!

A morte atravessara o Campo e passara. Era a vida. A solidariedade que nos reuniu junto da Mitra sentia-se mais tranquila. Dispersávamos, voltávamos às aulas, ao trabalho das oficinas, aliviados.

Mas quando as dez horas passavam e...

- Já urinou?

- Não!

Então era a morte que viera ao Campo e ali ficara. Para o camarada doente era a consciência de que ia morrer. Mais três, quatro dias sem urinar e a intoxicação ia progredindo lentamente e seria o fim.

Não tínhamos possibilidade de iludir o nosso camarada, de lhe dar esperança, pois todos sabíamos o que representava a biliosa anúrica. Quando o rim paralisava...

Introduzia-se a algália e se corriam alguns centímetros cúbicos era a esperança. Ríamos, dávamos-lhe pancadinhas no ombro.

- Temos homem!

E o camarada sorria-nos, animado.

- Parece que ainda me safo desta!

Mas quando da algália nada corria...

- Ainda é cedo. Daqui a pouco experimentamos outra vez.

E dávamos-lhe água e injectávamos soro e mais soro.

Mas o camarada não se iludia. A morte estava com ele. Sorria com amargura e preparava-se para morrer com a mesma coragem com que vivera. E dominava a sua angústia para dar exemplo de boa morte.

Assim víramos morrer Alfredo Caldeira. Assim morrera Ernesto José Ribeiro, em quem a lucidez se mantivera também até uma hora antes da morte. Mandara chamar os amigos mais íntimos porque deles se quis despedir.

- Tenho pena de morrer e de os deixar! Morrer agora que tão grandes dias se aproximam! A derrota do fascismo! A vitória da democracia! São os dias que irão viver. Peço-lhes que sejam dignos deste tempo que já não será para mim! E nãos e esqueçam! Digam lá aos rapazes do meu bairro que morri como comunista.

Assim morreu o homem que viveu inteiramente para a causa do proletariado, Bento Gonçalves, Secretário-Geral do Partido Comunista Português.

Bento Gonçalves fora operário do Arsenal, mas ganhara tal cultura, tais conhecimentos técnicos, que conseguia o que a engenheiros parecia impossível.

E isto trazia-nos prestígio perante a gente de Cabo Verde, o que tinha para nós grande importância. Desmoronavam-se completamente as calúnias dos carcereiros e que éramos gente desqualificada, sem quaisquer aptidões.

Bento Gonçalves dirigia a oficina da serralharia e entre nós encontravam-se operários altamente qualificados. Só assim se explica que tenham sido realizados trabalhos tão complexos com ferramentas improvisadas e construídas por nós.

Com as dificuldades de abastecimento provocadas pela guerra aumentou o número de encomendas à serralharia do Campo. E não nos limitávamos a reparações, fabricávamos objectos. Usávamos então a chaparia dos bidões de gasolina. Era a nossa matéria-prima.

A madeira vinha da Guiné em troncos que colocávamos sobre cavaletes para serrar. Faustino de Campos era um dos serradores, a braço, com uma serra de lenhadores, oq que exigia grande esforço.

As reparações e revisões do grupo gerador diesel da pequena central eléctrica do Campo estavam a cargo dos camaradas da serralharia. O electricista era pouco competente e muitas vezes deixava queimar peças do motor que Bento Gonçalves tinha de ir tornear para a Cidade da Praia.

Nas condições de clima de Cabo Verde fazia-se sentir muito falta de gelo, essencial para tratamento de febres intestinais, de apendicites ou em outras doenças em que fosse de aplicar.

Bento Gonçalves concluiu que era possível construir a máquina desde que pusessem à sua disposição os materiais necessários. E com a nossa colaboração a máquina apareceu e com ela o gelo, perante a admiração dos que não queriam acreditar.

Quando se soube foi um acontecimento, e muito contribuiu para o nosso prestígio.

De Bento Gonçalves foram os cálculos e os desenhos, e também foi ele quem, na Cidade da Praia, nas Oficinas Públicas, onde existiam as máquinas e as ferramentas indispensáveis, fabricou os elementos fundamentais - o compressor com as aletas de arrefecimento, o pistão, os segmentos, a cambota, as complexas válvulas e torneiras de passagem - de materiais escolhidos de um monte de sucata que existia na cidade. Toda a tubagem - serpentina de arrefecimento, etc. - foi feita com os tubos de ferro das nossas antigas barracas de lona.

Num pequeno edifício de alvenaria, também construído por nós, atrás da central eléctrica, ficou instalada a máquina de gelo.

E uma noite, já na fase experimental, veio ao Campo o director das Obras Públicas de Cabo Verde.

- Só vendo eu acredito - dizia ele.

Parecia-lhe impossível que tivéssemos construído tal máquina de técnica tão especializada e entre tantas carências que se faziam sentir na ilha.

Mas teve de acreditar. A máquina produzia gelo. Viu os desenhos e os cálculos de Bento Gonçalves e felicitou-o.

Era frequente Bento Gonçalves ser conduzido à Cidade da Praia para ali realizar qualquer trabalho que a falta de ferramentas do Campo não consentia. Ia sempre acompanhado por um guarda. Dormiam no mesmo quarto da pensão onde se hospedavam. Nem por um instante o guarda abrandava a sua vigilância. Aliás, também o encarregado da oficina de reparações de automóveis se deslocava por razões semelhantes à Cidade da Praia.

Deu-se um outro caso em que o auxílio prestado por Bento Gonçalves foi muito comentado.

Tinha Olegário Antunes recebido um telefonema do Banco Ultramarino da Praia. Fora comprado no estrangeiro uma complicada porta de segredo para a nova casa-forte. Fechava-se automaticamente e as chaves ficaram lá dentro esquecidas.

Não conseguiam abrir a casa-forte e o director do Banco via-se em grandes dificuldades. Dinheiro, letras, tudo lá estava guardado, mas sem que lhe pudesse tocar.

Olegário Antunes chamou Bento Gonçalves à secretaria para o consultar sobre a situação e que se encontrava o director do Banco Ultramarino.

Bento Gonçalves depois de o ouvir comentou com ironia:

- Eu não sou um arrombador de cofres e receio que ainda mais tarde venham a acusar os comunistas de terem tentado um assalto ao Banco. Mas atendendo aos trabalhadores que precisam receber a sua féria, aos pequenos comerciantes certamente em apuros...

E concordou em ir à Cidade da Praia para tentar abrir aquela complicadíssima porta de segredo.

Seguiu imediatamente na camioneta do Campo.

Já muita gente o esperava. Observou a porta, e na oficina das Obras Públicas procurou um broquim eléctrico e mais algumas ferramentas. Depois, perante a surpresa dos que assistiam, tudo se limitou a um pequeno furo na porta. Fez vários movimentos, várias tentativas com um arame introduzido no orifício, o volante moveu-se e a porta abriu-se.

O director do Banco Ultramarino oscilava entre a admiração por Bento Gonçalves e a desilusão por aquela porta em que gastara tanto dinheiro para afinal se abrir com um furo e com um arame.

Mas o trabalho mais ambicioso que projectávamos era a construção de um barco de um barco em ferro, com motor a gasolina. O motor de automóvel teria de ser adaptado. Seria demasiado rotativo. O cavername estava já construído. Destinava-se a ser utilizado em serviço de cabotagem entre o Tarrafal e a Cidade da Praia, para transporte de mercadorias de abastecimento ao Campo e, secretamente, para uma outra viagem que nos levaria para bem longe do Tarrafal.

Uns meses antes de se iniciar a construção do barco houve um acontecimento que nos lançou em alvoroço. Entre nós foram escolhidos dez que deveriam ir à vila do Tarrafal para um trabalho de descarga. Fomos e encontrámos um excelente veleiro com motor auxiliar. Trazia mercadorias para o armazém do Campo.

Quando soubemos que aquela viagem se iria repetir, porque as estradas de acesso à Cidade da Praia ficavam interrompidas com o tempo das chuvas, preparámo-nos para nova fuga. Foi escolhida a equipa que deveria fazer a próxima descarga, mas com o objectivo de se apoderar do barco. Tínhamos já preparado, por meios clandestinos, um salvo-conduto, caso no nosso caminho encontrássemos algum navio aliado em patrulha por aquela área.

Mas o veleiro não voltou. Lançámo-nos então à construção de um barco, que nunca ficaria concluído porque, entretanto...

Uma manhã Bento Gonçalves entrou na oficina muito macilento, curvado. Trazia a gola do casaco levantada. Aproximou-se da banca de trabalho  e

- Tens frio?

Olhou-nos e disse com ar de quem pedisse desculpa:

- Acho que estou com elas.

Era a frase habitual entre nós quando o paludismo nos atacava.

Com ele trabalhavam o Manuel Rodrigues da Silva, o Russell, o Hermínio, o Coimbra. Pediram-lhe que se fosse deitar, que se tratasse. Não quis. Dava-lhe grande alegria o trabalho. Muitas vezes víamos o seu sorriso de satisfação, ouvíamos o seu cantarolar alegre quando a peça lhe ia saindo a seu gosto.

Fixou no torno o que ia limar com a lima murça e começou. O ferro rangia ao passar da lima e a limalha caía. Mas aquela cor de limão acentuava-se. A febre subia. Pousou a lima na bancada e disse:

- Parece-me que tenho de ir para a cama.

Naquele momento não ficámos muito em cuidado. Bento Gonçalves era de saúde robusta e já tinha passado por muitos ataques de paludismo.

Ainda na véspera tomara banho na praia. Para o conseguir lá seguira uma brigada que fora deitar ao mar a carne de um boi abatido e que estava doente. E lá andara à beira da água, por causa dos tubarões, sorridente, muito magro, quase ruivo e cheio de sardas. Não parecia estar doente.

Ficámos na oficina e íamos trabalhando. De quando em quando entrava um camarada e aproveitando um momento em que o guarda, o seu giro, voltava as costas. Não era permitido. Iludindo a vigilância lá nos íamos visitando.

Mas naquela manhã entrou o Joaquim Amaro que nos gritou a má nova:

- O Bento está com uma biliosa!

Corremos à caserna. Bento Gonçalves estava já a ser levado para a enfermaria. E com aquele seu ar meio despreocupado, meio sorridente, e disse-nos:

- Mais um, camarada! Preparem outra mesa!

E, na verdade, tudo parecia que teríamos de fazer mais um caixão. As notícias que começaram a vir da enfermaria eram desalentadoras. Estava muito agitado, o pulso mais perceptível e nenhum trabalho dos rins. Não tardou a cair em coma, com uma cor arroxeada e uma respiração difícil. Bento Gonçalves adoecera com a forma mais grave da biliosa, aquela a que chamamos perniciosa e para a qual não havia esperança.

Na enfermaria, num arfar sempre mais difícil, a sua vida escoava-se rapidamente.

Durou três dias.

Cá fora, a todo o momento esperávamos que nos dessem a notícia da sua morte.

A 11 de Setembro de 1942, Olegário Antunes, por quem Bento Gonçalves se fizera respeitar, acompanhado pelo doutor Moreira, que temporariamente substituíra o Tralheira, em gozo de férias, e demonstrou ser médico competente e humano, verificou o óbito.

Tinha morrido um homem excepcional.

Dois anos antes, também em Setembro, morrera Mário Castelhano, outro valoroso antifascista, dirigente anarco-sindicalista de prestígio. Conversavam muito os dois, a sós, procurando soluções unitárias que estabelecessem uma acção comum das duas organizações.

O Tarrafal causou a morte de homens como Bento Gonçalves, Alfredo Caldeira, Mário Castelhano, António Guerra. Apenas estas quatro mortes - e houve muitas outras - já justificariam aos olhos do salazarismo a criação do Campo.

Em volta da casa mortuária nos encontrávamos em pequenos grupos. Falávamos em voz baixa. A morte de Bento Gonçalves era uma grande perda para nós.

- Mais um que mataram! - dizíamos.

Toucou para o rancho, mas não comemos. Soava-nos tão triste aquele bater da louça da alumínio em cima das mesas de madeira, de que não tardaríamos em tirar a mais velha!

Tocou a recolher, mas não dormimos. Na casa mortuária vestiam Bento Gonçalves. Com dificuldade lhe encontrámos uma camisa, Tudo dava. O dinheiro recebido nos trabalhos que fazia para fora ia inteiramente para o colectivo.

Era assim no Campo. Quando se recebia, fosse dinheiro, medicamentos, comida ou roupas, tudo se confiava ao colectivo, que o distribuía conforme as necessidades.

No Campo, iluminou-se a carpintaria. Um grupo de camaradas encaminhou-se para o refeitório e escolheu uma mesa. E, na noite, começámos a ouvir as primeiras marteladas, para a desconjuntar. Ressoavam por todo o Campo, repercutiam em nós.

Já distinguíamos todos aqueles sons. Não tardávamos em ouvir os rangidos das serras cortando as tábuas, depois novamente o martelar, mas dos pregos, ora apressado, ora mais lento. E por fim o silêncio. Estava feito o caixão.

Na caserna não dormíamos. Havia o lampejo de um fósforo a acender um cigarro, o choro abafado de um de nós a recordar gestos ou palavras da vida de Bento Gonçalves, ouviam-se palavras que a revolta, no silêncio, transformava em gritos:

- Miseráveis! Assassinos!

Durante toda a noite, de hora a hora, vinha o guarda abrir as portas das casernas para os diferentes turnos de vela ao corpo de Bento Gonçalves.

Foi uma noite serena e quente. Entravam borboletas e soavam em volta da lâmpada da casa mortuária. De quando em quando ouvíamos os brados das sentinelas, que se sobrepunham ao som distante do motor da central eléctrica.

Tocou a alvorada.

Os últimos turnos eram mais breves e neles participavam mais camaradas. Para que chegasse a vez de todos. O funeral tinha de ser pouco depois do amanhecer. Com aquele clima a decomposição era mais rápida.

Tocou para a formatura. Formámos em duas filas, uma em frente da outra ao longo do corredor que ia do Posto de Socorros ao portão do Campo.

Chegou a camioneta com panejamentos pretos. Ela nos trazia ao Campo, ela nos levava ao cemitério quando morríamos.

Na casa mortuária fechava-se o caixão, e os camaradas mais íntimos transportavam-no até à camioneta, enquanto o chefe dos guardas se sentava ao lado do condutor. Subiam para acompanhar o corpo dez camaradas que tínhamos escolhido, um de cada caserna.

Perfilávamo-nos nas duas alas que formáramos, os chapéus caíam nas mãos que desciam, quando o caixão saía e era colocado na carrinha.

Começava o desfile.

Sempre assim era quando um camarada morria. A camioneta arrancava e rodava lentamente e, à medida que avançava, íamos desfazendo as alas e caminhando atrás.

Assim seguíamos até ao portão do Campo. A carrinha ficava então oculta por nós, para só se verem os dez camaradas de pé, rodeando o caixão.

Abria-se o portão e a camioneta seguia, depois de uns instantes de paragem em cima da passarela sobre a vala. Era a última despedida.

Ali ficávamos imóveis, todos nós, magros, esverdeados pelo paludismo, na nossa farda de caqui amarelo, com a mesma expressão de revolta por mais um camarada que o Tarrafal matara.

Arrancava a camioneta e rodava então veloz até ao cemitério da Achada, onde não havia registo, nem toque de sineta, nem flores, nem palavras, mas apenas os dois coveiros cabo-verdianos, à beira do coval aberto no talhão que nos estava destinado.

Caía a terra sobre o caixão e nós cerrávamos o punho na última saudação ao camarada morto e para ele e para nós murmurávamos:

- A luta continuará, camarada!