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O primeiro-ministro de Cabo Verde, José Maria Neves, apelou à conjugação de esforços tendentes a levar a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) a reconhecer o Campo de Concentração do Tarrafal como Património da Humanidade. Esta recomendação vem expressa no seu discurso de abertura do Simpósio Internacional sobre o Campo de Concentração de Tarrafal aberto ontem e cujas sessões de trabalho começam nesta quarta-feira, dia 29 de Maio, com a apresentação de testemunhos de ex-presos políticos e a apresentação de debate sobre o tema "Os ideias e princípios". Na sua alocução, o primeiro-ministro avança que a proposta de transformação do campo em monumento mundial deve-se ao facto de "guardar histórias de pessoas e de povos, escritas com suor, sangue e lágrimas, que adubaram o chão da luta e fermentaram os ideais da independência nas ex-colónias portuguesas e da resistência antifascista em Portugal".

Segundo o governante cabo-verdiano, é preciso recordar para lembrar a todos que houve momentos tenebrosos da história da humanidade, em que alguns tiranos despojaram milhões de pessoas da liberdade de viver, de amar e de construir. De acordo com José Maria Neves, o simpósio é uma homenagem ao futuro, que se quer de liberdade e de felicidade para todos os povos e onde os campos de concentração sejam apenas museus para lembrar o passado longínquo. Na primeira sessão do Simpósio, após a alocução do Primeiro-ministro de Cabo Verde foi dada a palavra ao representante da URAP.

Entre outras recomendações, os "tarrafalistas" apoiaram os projectos apresentados pelo governo cabo-verdiano para tornar o campo Património Mundial da Humanidade, um pólo da História da África, um Centro de Pesquisa Internacional sobre as Lutas de Libertação no continente africano e um Museu da Liberdade.

Tendo em conta o vasto espaço existente, os "tarrafalistas" defenderam a ideia de criar um outro centro, especializado em História, para apoiar todas as universidades em Cabo Verde, bem como uma biblioteca, "também especializada".

No espaço exterior ao recinto, os "tarrafalistas aprovaram também o projecto de recuperar todas as casas que serviram de suporte à administração do campo para as transformar em pousadas de turismo rural ou académico.

 

Falando durante o encerramento do Simpósio Internacional do campo de concentração do Tarrafal, o chefe de Estado cabo-verdiano, Pedro Pires, destacou os trinta e cinco anos do encerramento do Campo de Concentração do Tarrafal. Para o presidente da Republica de Cabo Verde, por ser um património histórico comum a cabo-verdianos, angolanos, guineenses e portugueses, o Presídio do Tarrafal assume uma dimensão universal. E incumbe a esses países fazer dessa dimensão mais do que um sítio de memória. Esse espaço deve também ser transformado num monumento à tolerância, amizade, dignidade humana e ao diálogo entre os povos e culturas. Pedro Pires, reiterando que o Simpósio Internacional representa um passo significativo para a implementação da aspiração comum de transformar o Campo do Tarrafal num espaço transnacional, de reflexão e de promoção do entendimento e da cooperação entre povos e culturas. "Há necessidade de um acto de memória que comporta várias dimensões e a história carece de ser reelaborada", disse Pedro Pires, que lançou um desafio aos historiadores no sentido de trabalharem para reelaboração e aperfeiçoamento da história universal. "Com essa reelaboração evitar-se-iam distorções, esquecimentos, omissões ou vazios premeditados", considerou Pedro Pires. No seu entender, "cabe aos historiadores de hoje rever a situação na medida em que não precisam de justificar os fatos, devendo, tão-somente, narrá-los de forma objectiva, realista e científica. "Enquanto os leões não tiverem os seus próprios historiadores, as histórias da caça continuarão a glorificar o caçador", justificou Pedro Pires, reiterando que o Simpósio Internacional representa um passo significativo para a implementação da aspiração comum.