Tarrafal, o campo da morte lenta, abriu há 83 anos

grupo presos campo tarrafal"O Tarrafal não foi um sonho mau; foi um crime tremendo, friamente meditado e friamente executado", disse o preso político Francisco Miguel, o último sobrevivente a sair do Tarrafal, em 1953, depois de ter sido enviado para lá por duas vezes – em 1940 e em 1951 –, cumprindo dez anos de prisão. O campo da morte lenta estava aberto desde 29 de Outubro de 1936, com 152 presos políticos, 32 dos quais seriam transladados, em 28 de Fevereiro de 1978, para o Mausoléu dos Tarrafalistas, no cemitério do Alto de S. João, em Lisboa.

 

"Ao cabo de Cabo Verde/dobrado o cabo da guerra/quando o mar sabia a sede/e o sangue sabia a terra/acabou por ser mais forte/a esperança perseguida/porque aconteceu a morte/sem que se acabasse a vida.(...)Todos vivos! Todos nossos!/vinte trinta cem ou mil/nenhum de vós é só ossos/sois todos cravos de Abril!", cantou Ary dos Santos nesse dia.

 

Os presos tinham saído de Lisboa a 18 de Outubro de 1936, e entre eles estavam 37 participantes do 18 de Janeiro de 1934 na Marinha Grande e alguns dos marinheiros que tinham participado na Revolta dos Marinheiros ocorrida a bordo de navios de guerra no Tejo, em 8 de Setembro daquele ano. Ao todo, estivera lá 340 antifascistas. Entre eles o secretário-geral do PCP, Bento Gonçalves, que não voltou.E quem não morreu, regressou com a saúde seriamente comprometida.

No Tarrafal, Ilha cabo-verdiana de Santiago, havia biliosa e havia a frigideira o que levou o director do campo a dizer: "Quem vem para o Tarrafal vem para morrer"; ou o médico a garantir que "não estava ali para curar doentes, mas para passar certidões de óbito".

 

Recordando de novo Francisco Miguel no seu "apelo cheio de futuro": "Antifascista, democrata, homem progressista - quando pensares nos direitos da pessoa humana, não te esqueças do Tarrafal. Se queres defender a liberdade e construir e consolidar a verdadeira democracia, faz alguma coisa para que o fascismo não possa voltar mais à terra portuguesa. O Tarrafal simboliza 48 anos de política criminosa. Nós, povo português, não podemos permitir que esse crime se repita".