"PIDES de 1ª e PIDES de 2ª"

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José Pereira Júnior ,
O Passado no Presente - Pequenas Histórias da Resistência, URAP, Abril 2004 

engraxador" [...]Trauteando uma canção em voga na época, o engraxador não dava mostras de se interessar pela nossa conversa. O homem recebeu os dez tostões e arranca com a caixa, enquanto se aproxima de nós o empregado, afobado e aflito, e pespega-nos: "Vão-se embora já! O bufo já está a denunciá-los à PIDE! Eles não tardam aí. Saiam, logo pagam depois![...]"

Alguma coisa se tem escrito sobre a política de Salazar, que tinha carta bran¬ca para prender sem mandato, torturar e até fazer desaparecer muito bom cidadão deste país que não afinasse pela democracia orgânica inventada pelo antigo presidente do conselho, de que é exemplo notório o assassinato de Humberto Delgado.

Estima-se em cerca de 2.500, os agentes da PIDE à data do 25 de Abril e grande parte deles está hoje bem instalada na vida; até condecorados foram depois da Revolução.

No entanto, o que ninguém conseguiu contabilizar foi o número de informado¬res que constituíam a rede quase subterrânea dos chamados "bufos" de triste memória, uma casta venenosa que denunciava ao seu agente qualquer con-versa que escutasse, a troco de dez reis de mel mal coado. Medrava esta erva daninha em qualquer escalão social, desde um director politicamente convicto até um desempregado IGNORANTE!

Sabia-se, inclusive, que a PIDE tinha viaturas donde escutava qualquer con-versa a cerca de seis metros. Qualquer carro encostado ao passeio era duvi¬doso em muitos casos.

Esta máquina infernal constituía o suporte repressivo da ditadura, com censu¬ra prévia, a que davam uma mãozinha a muita profícua e conhecida Legião Portuguesa e as forças paramilitares, entre outros esquemas.

Existiam a nível local a qualquer cidadão consciente que se tornasse notado sofria as consequências da praxe, onde não faltava a calúnia e a infâmia para prejudicar, pessoal e profissionalmente o indivíduo.

O autor destas linhas foi também protagonista da acção dos tais"bufos".

Com efeito, certa vez, num café no Largo de Santos-o-Velho, ali à Madragoa, com outros dois colegas da rádio e enquanto tomávamos o café, um deles chama o engraxador. Continuávamos com as nossas lamentações sobre a carestia da vida, os miseráveis ordenados, a falta de liberdade e a repressão.

Trauteando uma canção em voga na época, o engraxador não dava mostras de se interessar pela nossa conversa. O homem recebeu os dez tostões e arranca com a caixa, enquanto se aproxima de nós o empregado, afobado e aflito, e pespega-nos: "Vão-se embora já! O bufo já está a denunciá-los à PIDE! Eles não tardam aí. Saiam, logo pagam depois!"

Rapidamente espalhámo-nos pelo jardim e pouco depois chegam de carro dois agabardinados agentes que entraram no café de rompante. Vimo-los sair imediatamente, olhando para todos os lados.

Era assim que a máquina agia.

Mais tarde deparámo-nos com o nosso amigo engraxador de cabeça ligada, olhos esmurrados e muito bem enfeitado com nódoas negras na cara. Disse¬nos o empregado que até àquela data ninguém sabe quem fez aquele belo trabalho ao "bufo".