- Detalhes
-
Criado em 09-08-2009
História > Testemunhos
em O Passado no Presente - Pequenas Histórias da Resistência
Sisaltina Santos

"(...)Após nos deitarmos e apagar a luz, imediatamente me chamou a atenção um
vulto que, momentaneamente, estava encostado à nossa porta de entrada,
ia junto à janela da divisão onde tinha funcionado a reunião e voltava
à nossa porta, num vai e vem que se repetiu por umas três vezes e
chamei a atenção do meu companheiro que ainda chegou a ver a manobra de
quem estava a procurar ouvir alguma coisa da nossa casa, que imediatamente alertou os camaradas para o que se passava.(...)"
Não é por acaso que na resistência ao fascismo a vigilância nas
instalações clandestinas, sendo uma tarefa de todos os que pertenciam
às respectivas instalações e camaradas que as utilizavam, era uma
tarefa que dizia respeito, em primeiro lugar, às camaradas das casas.
Proceder para que à nossa volta nada houvesse que levasse a suspeitar
em nós e procurar no dia a dia apercebermo-nos do ambiente que nos
envolvia, era uma preocupação constante, em que a defesa da casa muito
dependia de nós.
Em certa altura de 1955, montamos casa em Padrão da Légua, povoação de
gente trabalhadora, junto à cidade do Porto. Meu companheiro alugou
casa a um ex-emigrante que, no seu regresso a
Portugal, mandou construir um pequeno bairro de casas térreas, de cerca
de umas seis a oito moradias, cujos moradores eram do tipo proleta.
Ao fim de 5 ou 6 meses de estarmos instalados tudo nos parecia
tranquilo e normal à nossa volta, o que levou o Organismo de Direcção
Regional do Norte a reunir em nossa casa. Como se tratava de uma casa
modesta que naquele tempo constava de 4 divisões, incluindo cozinha,
dois quartos e casinha de entrada, nós dormíamos num dos quartos,
destinando a outra divisão para uma espécie de casa de jantar composta
de uma mesa, um armário e 4 cadeiras.
Foi nesta divisão que os camaradas reuniram durante o dia e parte da
noite. A nossa casa dava para uma rua, onde em frente havia um
candeeiro de iluminação pública e a nossa porta de entrada tinha, na
parte de cima, um vidro grosso, martelado que, de noite, com a luz da
casa apagada, dava para ver quem passava na rua.
Quando a reunião terminou, já perto da uma hora da noite, fomos todos
deitar. Os três camaradas ficaram na nossa cama e eu e o meu
companheiro ficámos num divã na casinha de entrada.
Após nos deitarmos e apagar a luz, imediatamente me chamou a atenção um
vulto que, momentaneamente, estava encostado à nossa porta de entrada,
ia junto à janela da divisão onde tinha funcionado a reunião e voltava
à nossa porta, num vai e vem que se repetiu por umas três vezes e
chamei a atenção do meu companheiro que ainda chegou a ver a manobra de
quem estava a procurar ouvir alguma coisa da nossa casa, que imediatamente alertou os camaradas para o que se passava.
Para mim, que tinha sido o primeiro a detectar o indivíduo, tratava-se
de um vizinho cuja casa pegava com a nossa. Analisada rapidamente a
situação, partiu-se do princípio de que se tratava de uma suspeita por
o vizinho ter ouvido vozes de várias pessoas que, embora não fossem
vozes altas, lhe teriam chamado a atenção por não ser hábito falarmos
muito de noite e muito menos a certas horas.
A reunião já não prosseguiu, como estava previsto, no dia seguinte,
tendo os camaradas decidido que o meu companheiro sairia a dar uma
volta ao pequeno bairro para ver se se apercebia de alguma coisa.
Como não viu nada, os camaradas ficaram para saírem de madrugada, ainda
de noite, e o meu companheiro saísse logo de manhã, a horas
consideradas normais, para que não houvesse qualquer suspeita. Ficou
ainda assente que a instalação seria desfeita, mas somente depois de,
nessa tarde, eu ter um encontro com o meu companheiro para se decidir o
que mais havia a fazer.
Na apreciação rápida que fizemos partimos do princípio de que se
tratava, de facto, de uma desconfiança política da parte do vizinho,
que nos levava a deixar a casa, mas partindo do princípio de que o
vizinho não se teria apercebido de nada que o levasse a accionar o
alerta para que a PIDE aparecesse nas próximas 24 horas, o que nos
daria algum campo de actuação sem grande alarmismo.
O encontro deu-se, ficando decidido que eu preparasse as nossas coisas
durante a noite, sem dar a conhecer a ninguém, para que no dia seguinte
procurasse vender a mobília onde a tínhamos comprado, para que logo a
seguir à confirmação da venda da mobília, falar com o senhorio dizendo
ter sucedido uma tragédia na família que nos obrigava a deixar a casa,
chamando um táxi e aparecer num ponto distante a partir de
determinada hora.
Tudo isto decorreu no espaço de 40 horas, com grande preocupação minha,
misturado com nervosismo. Na noite que ainda restei na casa aproveitei
a queimar materiais que, se a casa fosse assaltada pela polícia, seria
inconveniente.
Esta operação em que, para não levantar suspeitas de maior na
vizinhança, se viu ser eu a realizar, sem experiência própria de
actuação nestes casos, e sob a hipótese de antes de conseguir sair de
casa com a situação arrumada me poder aparecer a PIDE afligiu-me e
colocou-me numa situação de grande aflição embora tivesse que apelar a
toda a calma de que fui capaz.
Quando enfim cheguei junto do meu companheiro com a situação resolvida,
e se considerou que tudo tinha ocorrido em segurança aceitável,
respirei fundo. Este imponderável próprio na actividade clandestina
estava ultrapassado.
Pouco tempo depois, tivemos a informação a confirmar que o vizinho que
tínhamos dado por escutar à porta e à janela da nossa casa era,
efectivamente, informador da PIDE. Neste caso, a avaliação da situação
e as medidas tomadas foram certas e a tempo, mas o risco que todos
corremos foi muito grande.
Hoje, na distância do tempo, tudo me parece mais simples e fácil mas
diante da possibilidade de a polícia assaltar a casa e de ter que
aproveitar a noite em que fiquei sozinha para emalar as nossas coisas e
aproveitar para estar atenta e procurar vigiar o que se passava no
exterior à volta da instalação, digo- vos que foi bastante complicado e
com algumas dúvidas se seria capaz de
resolver tudo o que tinha sido incumbida de resolver sozinha.
A noite pareceu-me um ano. A todos os ruídos de falas e de carros, procurava saber o que significavam.
Compreendi o facto de o meu companheiro não ficar comigo para, em
conjunto resolvermos a situação. Ele era o quadro mais responsável,
tinha o acompanhamento de várias organizações à sua responsabilidade, o
que aconselhava a ficar a acompanhar as coisas mais à distância, pois
se ficasse comigo e fosse preso, como se admitia que pudesse acontecer,
eram as organizações que ficavam desligadas, o que significava
prejuízos acrescidos para a luta da resistência.
em O Passado no Presente - Pequenas Histórias da Resistência
Sisaltina Santos