Intervenção de Aurélio Santos nas Comemorações do 4 de Outubro de 1910 em Almada

Caros amigos,  

Não podendo estar presente nesta comemoração da proclamação da República no vosso concelho não quero no entanto deixar de vos enviar a minha saudação por esse acontecimento que comprova as históricas tradições progressistas do povo de Almada.

A proclamação da República constituiu um dos acontecimentos de vanguarda da nossa História.

O regime monárquico tornara-se um dos obstáculos ao desenvolvimento dos direitos do povo português e de Portugal.

A luta pela República ganhara amplos apoios entre os trabalhadores e as massas populares, principalmente desde que a monarquia mostrara ser incapaz de defender a dignidade nacional ante o Ultimato inglês de 1889.

A revolução republicana de 1910, além do seu significado de luta por um regime mais democrático e mais capaz de responder às aspirações populares de direitos e justiça social, foi também uma afirmação de patriotismo, de que o hino nacional adoptado pela República, a Portuguesa, ficou como expressão.

Tomando a vanguarda na proclamação da República, quando os dirigentes republicanos ainda hesitavam em desencadear o movimento que ficou assinalado com a data de 5 de Outubro, o Povo de Almada provou estar na vanguarda do movimento popular.

Mas comemorando a vitória da República é também oportuno pensar em por quê ela foi derrubada 16 anos depois.

O regime republicano não correspondeu às esperanças populares nem cumpriu muitas das promessas que lhe possibilitou a vitória.

As esperanças postas na melhoria das condições dos trabalhadores e no reconhecimento dos seus direitos não se realizaram.

Corajosamente, as camadas populares e os trabalhadores começaram a tomar nas mãos a defesa dos seus direitos e interesses exigindo que a República assegurasse aos portugueses as condições de progresso e justiça social pelas quais tinham lutado na revolução republicana.

Situação que foi agravada pela grande crise social e política que a Europa viveu, após a 1ª Guerra Mundial.

Os grandes grupos financeiros dominantes da Europa queriam reconstituir e reforçar o seu poder, abalado com a guerra. As camadas populares, com os trabalhadores na primeira linha, procuravam o reconhecimento dos seus direitos, com um ânimo em grande parte estimulado pelo avanço desses direitos na Rússia, com a revolução soviética de 1917.  

O anticomunismo foi a bandeira que as forças políticas  mais reaccionárias ergueram  para fundamento da sua expressão mais agressiva que então  começava crescendo no mundo: o nazi-fascismo.

A crise social e política crescida à sombra das políticas antipopulares dos governos republicanos criou condições para que a maré reaccionária do fascismo chegasse a Portugal.

O golpe de Estado militar de1926 abriu as portas à ditadura fascista de Salazar, iniciando um período negro de repressão, obscurantismo, miséria e opressão, que se prolongou por quase meio século.

A revolução de Abril libertou-nos da ditadura fascista. Mas só  uma grave incompreensão da História nos poderia fazer crer que o 25 de Abril pôs em definitivo Portugal ao abrigo de qualquer regime autoritário ou ditatorial.

Não pode deixar de nos alertar a insidiosa campanha de branqueamento da ditadura fascista e o falseamento da memória histórica, com apagamento daqueles que mais lutaram para ser livre o terreno que hoje pisamos.

O fascismo é um fenómeno que cresce como cogumelos em terrenos apodrecidos por crises sociais e políticas como as que se vivem de novo.

Assistimos, em Portugal e no mundo, a numerosas iniciativas visando branquear o fascismo e as suas políticas criminosas de exploração, opressão, violência e guerra.

Já se propuseram fazer no nosso país uma conferência internacional de grupos neo-fascistas para verem formas de «desenvolver o activismo na Europa».

Pretendem criar em Santa Comba um «museu Salazar».

Promovem Salazar como «o melhor português de sempre» e organizaram uma romagem ao seu túmulo, apresentando-a como um protesto contra o que chamam «a longa noite democrática».

A denúncia do fascismo e a luta antifascista mantêm-se como necessidade actual das aspirações humanas de justiça e liberdade, que tiveram uma valorosa expressão nas lutas populares pela instauração da República.

Este é o sentimento que gostaria de vos transmitir nesta data tão representativa dos sentimentos democráticos do povo de Almada.

Viva a República!

Viva a Democracia!
Viva o povo de Almada!

4 de Outubro de 2007

Aurélio Santos