Intervenção de Aurélio Santos na Homenagem aos Tarrafalistas no Cemitério do Alto de S.João, Lisboa

Homenagem aos que não se renderam

Estamos aqui para prestar homenagem àqueles que, no Campo de Concentração do Tarrafal, morreram por terem ousado lutar pela liberdade em Portugal numa altura em que a maré negra do fascismo avançava pela Europa com a arrogância de uma força que parecia invencível.

Concebido nos moldes dos campos de concentração que Hitler começava então a criar na Alemanha e depois alargou pela Europa ocupada, foi também um exemplo da sinistra hipocrisia que caracterizou a repressão salazarista.

Montado na Achada Grande do Tarrafal, a zona mais temida pela gente de Cabo Verde, não precisava de ter as sinistras câmaras de gás. Na ilha que o mar guardava melhor que o arame farpado e as armas dos carcereiros, o mosquito foi um executor discreto que espalhava o paludismo. A falta de tratamento e de medicamentos asseguravam a execução, através da morte lenta, com as biliosas que iam ceifando vidas.

Na História de Portugal o Tarrafal ficará como uma das mais brutais e cruéis expressões da repressão terrorista da ditadura fascista de Salazar

O nazi-fascismo foi a expressão da mais grave ameaça que nesses anos pesou sobre a humanidade.

Na Segunda Guerra Mundial não esteve apenas em questão a luta por uma nova repartição do mundo entre as grandes potências.

A guerra, a luta contra o nazi fascismo, foi uma gigantesca luta que abarcou questões fundamentais no plano económico, social e ideológico com repercussões em todo o futuro da sociedade humana.

Aqueles que morreram, sofreram e lutaram no Tarrafal tiveram a coragem de fazer frente a essa maré negra que parecia imparável.

Não se renderam.

Não aceitaram como imbatíveis, inevitáveis, os «ventos da História.

Mesmo quando lançados para o Campo da Morte Lenta.

 

O próprio director do Campo não escondia os objectivos que o Tarrafal visava. «Quem vem para aqui vem para morrer» - afirmava ele para que todos os presos soubessem a que estavam destinados.

Mas não foi só no Tarrafal que actuou a repressão terrorista do fascismo. O Tarrafal não chegava para albergar todos os que se levantavam contra o regime. A ditadura criou toda uma rede carcerária por onde passaram, antes e depois do Tarrafal, milhares de presos políticos: a Fortaleza d S. João Baptista, nos Açores, a cadeia do Aljube, em Lisboa e o Forte de Caxias, o Forte de Peniche, as cadeias da Rua do Heroísmo, junto à sede da PIDE no Porto - para além da sede da PIDE na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, onde a maioria dos presos eram submetidos a dias seguidos de interrogatório e tortura, e onde alguns foram mesmo torturados até à morte.

Está ainda por fazer a exacta estatística de crimes de morte cometidos pela PIDE. Como também os que foram assassinados com a tortura refinada evitando deixar marca. Pelos muitos anos de cárcere ou pela morte lenta no Tarrafal.

No cemitério do Tarrafal ficaram enterrados os corpos de 32 dos prisioneiros políticos portugueses, que ali morreram vítimas dos maus-tratos sofridos.

Só depois do 25 de Abril foi possível trazer de regresso os seus corpos para terra portuguesa.

Em 1978, numa grande homenagem nacional, promovida pelos sobreviventes do Tarrafal, e na qual participaram dezena de milhar de pessoas, os corpos dos prisioneiros que ali morreram foram transladados para este Mausoléu Memorial erigido por subscrição pública no Cemitério do Alto de S. João, actualmente guardado pela URAP como património nacional, e no qual estão inscritos os nomes daqueles que o fascismo salazarista matou no Campo de Concentração do Tarrafal.

Mas nós não estamos aqui somente para prestar homenagem a estes antifascistas que deram a sua vida para que a Liberdade pudesse voltar a florescer na terra portuguesa.

Estamos aqui, também, para reafirmar a nossa decisão de lutar para arrancar as sementes e raízes deixadas em Portugal por meio século de ditadura fascista, a mais longa da Europa.

Ainda hoje se manifestam as marcas do obscurantismo com que ela dominou a cultura portuguesa e do atraso que deixou nas estruturas da nossa sociedade.

É pois com profunda preocupação que nós, resistentes e antifascistas reunidos na URAP, vemos emergir na sociedade portuguesa, 30 anos após a instauração da democracia, inquietantes campanhas de branqueamento da ditadura fascista, dos seus crimes e das suas políticas, tentativas de reabilitação dos seus responsáveis e mentores, a par do apagamento do significado e valores da luta antifascista e da memória daqueles que lutaram para que fosse livre o terreno que hoje pisamos.

Não pode deixar de nos alertar a insidiosa campanha em curso de branqueamento das ditaduras fascistas e falseamento da memória da luta antifascista. Em muitos países da Europa assiste-se ao avanço de forças de direita e também ao crescimento de grupos neo-nazis.

O fascismo não é um fenómeno histórico com referência exclusiva a uma determinada conjuntura. Tem raízes sociais e económicas que se desenvolvem numa sociedade em crise, como resposta desesperada de classes que pretende impor ou manter pela força o seu domínio, subordinando a sociedade aos seus interesses. Foi assim que se preparou e desencadeou o assalto do nazi-fascismo ao poder no século passado.

No mundo de hoje encontramos traços igualmente inquietantes.

As esperanças de futuro andam minadas pelo pesadelo de graves crises sociais e económicas, pela instabilidade, a insegurança laboral, a polarização da pobreza e da riqueza. A crescente desigualdade planetária na distribuição dos recursos e rendimentos, criam angustiantes factores de destabilização e conflitual idade, agravados por uma política de guerras e dominação.

Proclamam-se os «ventos da História» como processo sem possibilidades de resistência humana, reaparecem teorias para uma «nova ordem mundial», martela-se o catecismo neo-liberal como se houvesse um «pensamento único», dogmatiza-se o que é considerado «po­liticamente correcto», anuncia-se «o fim da História», lançam-se campanhas de descrédito contra as conquistas democráticas, sociais e nacionais.

A violência da exploração, a injustiça social, corroem a democracia, retira-lhe apoios sociais, porque a democracia política não é acompanhada por uma justiça social, dando-se prioridade à concentração de lucros e capitais, com as consequências sociais e medidas políticas a que isso conduz. Desacreditam-se instâncias políticas, conceitos ideológicos e valores sociais que estavam credibilizados com a vitória da democracia, deixando as pessoas numa massa mais maleável para a demagogia e a manipulação.

É um terreno onde o fascismo, a sua ideologia, a sua prática de violência, o seu desprezo pelos direitos humanos e pela democracia têm condições para manipular ressentimentos e explorar rancores, revoltas e descontentamentos.

A luta antifascista mantém-se, pois, como necessidade actual da democracia.

A nossa União de Resistentes Antifascistas considera que nela não podem apenas estar empenhados os que viveram e conheceram a ditadura fascista. A participação das novas gerações é essencial.

Nesse sentido, estamos desenvolvendo uma acção para a formação de núcleos de juventude antifascista, integrando-os, a todos os níveis, nas estruturas da nossa União de Antifascistas. A Ana Pato e o Paulo Marques, aqui presentes como membros do Conselho Directivo da URAP, já nasceram depois do 25 de Abril.

A luta antifascista é património que diz respeito a todos os que querem um Portugal de Liberdade, Democracia e justiça social, num mundo de paz, cooperação e respeito pelo ser humano.

Também por isso estamos aqui prestando homenagem a estes antifascistas que deram a vida na luta por essas causas.

Fascismo: nunca mais!

9 de Fevereiro de 2008
Aurélio Santos