Intervenção de Paulo Marques na Homenagem aos Tarrafalistas no Cemitério do Alto de S.João, Lisboa

Amigos,

Setenta e dois anos depois da abertura do Campo de Concentração do Tarrafal, estamos aqui, numa iniciativa promovida pela União dos Resistentes Antifascistas Portugueses(URAP) , no Cemitério do Alto de São João, a homenagear os tarrafalistas.

A Liberdade que nos permite estar aqui para exaltar o seu exemplo, foi uma conquista da Revolução de Abril. Muitos jovens, não tendo vivido esse acontecimento ímpar da nossa história, só o conhecem através do que lhes é transmitido e contado.

Garantir, hoje, que os jovens sabem a história recente de Portugal é permitir que no futuro se sabe o que foi o Fascismo em Portugal, as suas práticas e consequências. Sem o conhecimento do que foi a resistência ao Fascismo, não será possível fazer frente à ofensiva do presente.

Na verdade, muitos preocupam-se agora em reescrever a história, afirmando que em Portugal não houve verdadeiramente um regime fascista, por um lado, e escondendo aspectos importantes da Revolução da Abril, por outro.

Abundam pelos gabinetes afirmações de que o regime não oprimia assim tanto, que não esforçaria por mobilizar as massas, nem por ter uma ideologia rígida e única. Quem difunde esta mensagem "esquece-se" propositadamente que Salazar e depois Marcelo Caetano nunca ocultaram a sua ideologia fascista. Salazar gabava o génio político de Mussolini com cujo retracto na própria secretária se fazia fotografar. Mandava os seus ministros, os seus militares, os seus polícias aprender na Itália fascista e na Alemanha fascista. Apoiou e ajudou o golpe fascista de Franco em Espanha. Apoiou e ajudou Hitler e Mussolini na guerra. Neste período, em Portugal, foram suprimidas as liberdades mais elementares, censura à imprensa, reprimida violentamente qualquer oposição. Copiada quase literalmente do fascismo italiano a orgânica corporativa. Polícia política para perseguir, prender, torturar, assassinar com torturas ou a tiro. Partido fascista único(União Nacional), milícia fascista(Legião), organização fascista e paramilitar de juventude (Mocidade Portuguesa).

Na grande operação de branqueamento da ditadura não é utilização de especulações teóricas elaboradas em gabinetes que pode alterar a sua definição como ditadura fascista. Assim foi considerada pelo povo. Assim ficará na história!      

Amigos,

No presente, muitos jovens não sabem o que foi o fascismo. A responsabilidade não é sua, mas dos interessados em esconder os 48 anos negros da nossa história. São muitos os exemplos de como omitir e transmitir de forma deformada a história do nosso país. Um deles são os conteúdos das disciplinas que são transmitidos. No Ensino Secundário, no 12º ano, na disciplina de História, para além da importância relativa dada ao 25 de Abril (5 páginas num total de 600), e à caracterização do fascismo em Portugal (8 num total de 600), em nenhuma parte é referida a existência do campo de concentração do tarrafal e, entre outras questões, identifica-se constantemente o regime como "Estado Novo" e não como fascismo. 

Mas, mais grave do que não transmitir a verdade sobre a nossa história recente é os jovens serem confrontados com práticas que têm muito pouco a ver com Abril e as suas conquistas e se relacionam mais com os tempos que antecederam a revolução. O facto de recentemente dirigentes estudantis terem sido constituídos arguidos, ao abrigo de uma lei feita antes de 1974, por convocarem uma manifestação; de directores de jornais afirmarem que as manifestações de rua são acções antidemocráticas, de os alunos no Ensino Secundário serem constantemente impedidos de realizar Reuniões Gerais de Alunos nas escolas e as suas associações terem inúmeras limitações à sua acção e quando a liberdade de expressão é constantemente abafada, o que está a ser transmitido não são os ideais de abril e da liberdade.

Amigos,   

Os jovens, com uma imensa alegria e confiança no futuro, saúdam os tarrafalistas, enaltecem o seu exemplo. Comprometemo-nos a continuar a lutar por um Portugal mais fraterno e livre de injustiças, faremos o que estiver ao nosso alcance para não esquecer o que foram os crimes do fascismo, crimes esses que têm como seu símbolo, o Campo de Concentração do Tarrafal.

Consideramos que a luta pela defesa da liberdade e da democracia, contra o ascenso das forças que oprimiram o nosso povo durante 48 anos, é também uma luta dos jovens. Neste longo caminho estamos disponíveis para continuar a caminhada, ajudando a construir um futuro pleno de liberdade e justiça social!

25 de Abril Sempre! Fascismo nunca mais!

9 de Fevereiro de 2008
Paulo Marques