Intervenção de Aurélio Santos na Homenagem aos Tarrfalistas a 13 de Março de 2010

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Estamos aqui prestando homenagem aos patriotas portugueses que, numa conjuntura particularmente difícil, quando pela Europa avançava a maré negra do fascismo, se lançaram corajosamente na luta contra a ditadura salazarista e por isso foram lançados para o campo de concentração do Tarrafal - um campo de concentração criado e preparado segundo os modelos nazis que nessa época se estendiam já como uma praga sinistra sobre a Alemanha de Hitler.

Não foi em câmaras de az que foram assassinados os patriotas cujos restos mortais

aqui se encontram. A hipocrisia que caracterizou o salazarismo também aqui se demonstrou. É que no Tarrafal, quando para lá fora lançadas as primeiras levas de antifascistas portugueses, havia um assassino silencioso, que podia executar as funções das câmarâs de gaz nazis. Esse executante silencioso era o mosquito anofeles, que espalhando o paludismo em pessoas depauperadas pelos trabalhos forçados e sem tratamento, rapidamente levava à morte. A maior parte dos que estão neste mausoléu foram mortos pelas biliosas, devidas a sucessivos ataques de paludismo sem tratamento (só estou aqui para passar certidões de óbito - dizia o médico do campo).

O Tarrafal é uma expressão concreta do hipócrita cinismo da ditadura de Salazar. Mas é mais do que isso. É também um símbolo do que foi essa versão do fascismo.

Temos aqui, nestas romagens ao Mausoléu dos tarrafalistas, falado naquilo que o Tarrafal significa para o povo português. Mas o espectro do Tarrafal não ensombra só a história do povo português. Não podemos esquecer que em 1962 o Tarrafal foi reaberto - para então nele serem lançados patriotas dos movimentos de libertação das colónias portuguesas.

Também lá estão, no cemitério do Tarrafal, junto das campas onde estiveram sepultados os corpos dos portugueses que agora aqui estão, as campas dos patriotas caboverdianos, guineenses e angolanos que ali morreram também.

E é necessário lembrarmos aqui: O campo de Concentração do Tarrafal só foi definitivamente encerrado no dia 1º de Maio de 1974. Cinco dias depois da nossa revolução do 25 de Abril, que pôs fim aos 48 anos de ditadura fascista e colonialista instaurada por Salazar e continuada por Caetano.

Nesse dia, numa grande manifestação popular, milhares de caboverdianos concentraram-se em frente aos portões do Campo de Concentração e não arredaram pé sem obrigarem à abertura dos portões e à libertação de todos os presos ali detidos.

A presença dos 40 portugueses nessa comemoração, numa iniciativa organizada pela URAP, constituiu sem dúvida uma grande prova não só da memória viva que o Tarrafal tem entre o povo português como também unidade entre o povo português e os povos das colónias portuguesas, unidos na luta comum contra a ditadura fascista e colonialista e Salazar e Caetano.

Por essa mesma ocasião a Fundação Amílcar Cabral, do o apoio do Presidente de Cabo Verde, organizou um Simpósio Internacional sobre o Tarrafal.

A URAP esteve lá, a convite da Fundação. Participaram no Simpósio ministros de Cabo Verde, Guiné e Angola, em representação dos seus governos. Lamentavelmente, o Estado português não teve presença nessa iniciativa.

Uma das principais conclusões do Simpósio foi o apelo par fazer do Tarrafal, como Património Mundial, um Memorial da Luta dos Povos pela Liberdade.

A URAP, no Simpósio, apoiou calorosamente esse apelo.

O Tarrafal, com efeito, não é apenas um símbolo da luta do povo português contra o fascismo. É também uma expressão da luta comum pela liberdade, contra o fascismo e o colonialismo, que uniu os povos de Portugal, Angola, Guiné e Cabo Verde. Incluir o Tarrafal no mapa dos espaços de Património Mundial como Memorial da Luta pela Liberdade é um objectivo que se enquadra tanto na nossa luta contra o fascismo como na herança comum de luta contra o colonialismo que uniu os povos de Portugal e das colónias portuguesas.

A Assembleia Geral da URAP realizada a 27 de Fevereiro aprovou uma Moção atribuindo à direcção da URAP a responsabilidade de tomar as iniciativas que julgar convenientes para que o Tarrafal tenha essa consagração e para que o Estado português, agindo de acordo com o regime democrático instituído com o 25 de Abril, tenha participação activa nesse propósito.

A URAP garante-vos que fará tudo o que esteja ao seu alcance com esse objectivo.

A nossa acção e a nossa luta são parte indispensável da luta pela liberdade e a democracia, num mundo em que as concepções e perigos do fascismo pretendem renascer.

É um apelo à vossa participação e apoio que também aqui deixamos.

Tarrafais - nunca mais!