Homengem a António Dias Lourenço, na hora da sua morte

antnio_dias_lourenoAntónio Dias Lourenço (1916-2010)

Faleceu, no passado dia 7 de Agosto, António Dias Lourenço, destacado dirigente do PCP, histórico resistente anti-fascista. Antes e depois do 25 de Abril, desde a sua juventude até ao presente, António Dias Lourenço deu a sua vida à luta pela liberdade, a democracia e a construção de uma sociedade sem exploradores nem explorados. A URAP contou inúmeras vezes com o apoio do Dias Lourenço, nas inúmeras iniciativas que desenvolveu ao longo dos anos de homenagem à luta antifascista.


No entanto, neste momento, não nos poderíamos esquecer das inúmeras visitas que António Dias Lourenço acompanhou a Peniche (assim como a participação em debates organizados pela nossa associação), fortaleza de que se evadiu em 4 de Dezembro de 1954, concretizando uma fuga coroada de êxito e enorme dificuldade pela forma como a consumou, lançando-se às águas circundantes do presídio para ser acolhido por um grupo de pescadores que o levaram além da península de Peniche.

A história dessa fuga (e da luta desenvolvida ao longo de toda a sua vida), contada a milhares de visitantes do museu de Peniche (especialmente aos jovens), foi mais um contributo de Dias Lourenço à luta antifascista e de preservação da memória.

Em jeito de homenagem, em baixo, descrevemos a fuga de António Dias Lourenço da Fortaleza de Peniche. Uma história que ele tantas vezes contou...

De forma planeada, António Dias Lourenço forçou deliberadamente a sua detenção no isolamento no reduto conhecido como O Segredo como medida punitiva, por estar a jogar xadrez com José Magro no pátio da Prisão, o que motivou a aplicação desse castigo por um período de um mês. A sua evasão ocorreu passados quinze dias desse castigo lhe ter sido aplicado, contabilizando já cinco anos de prisão em Peniche, uma vez que fora detido em 1949.

De forma meticulosa, Dias Lourenço serrou a almofada da porta interior da cela, conseguindo abrir uma estreita abertura de 20 por 40 centímetros. A faca que usou foi camuflada junto à sua perna e revestida de forma à sua tonalidade se confundir com a sua própria pele. Após percorrer o caminho até ao extremo junto da parede da Fortaleza, acompanhado da sua roupa e de três mantas que lhe serviram para fabricar uma corda que foi disposta pelos 20 metros, António Dias Lourenço iniciou a sua descida pela parede, arriscando embater nas rochas junto ao mar, uma vez que as velhas mantas usadas se romperam. Apesar de ter caído desamparado no mar acabou por conseguir tornear o Forte, tendo perdido a roupa que levava à cabeça por entre a água revolta e fria da madrugada. O peso das botas leva Dias Lourenço a descalçar-se, resistindo à força da maré que o puxava para o Oceano Atlântico e alcançando o areal. Após um desgaste provocado pela fuga, Dias Lourenço verifica retornar à vista da Fortaleza, aproximando-se perigosamente do horário da rendição do carcereiro responsável pel`O Segredo e por soar o alarme. Decide aproximar-se de vários pescadores que avista, optando por se apresentar como membro da direcção do Partido Comunista Português (PCP) que se tinha evadido da Prisão, arriscando nova detenção se não fosse ajudado por estes.

Os pescadores acabaram por ajudar Dias Lourenço, escondendo-o por trás do carro e permitindo-lhe ultrapassar o ponto de controlo de entradas e saídas da vila de Peniche. Entretanto, saíram equipas de guardas que bateram toda região, sendo imediatamente preso o guarda prisional responsável pel`O Segredo. Estava consumada uma fuga audaciosa e que personificou a determinação em lutar pela Liberdade e pela Democracia em Portugal, uma vez que António Dias Lourenço regressou à luta clandestina contra o regime fascista logo após a sua evasão. Preso de novo em 1962, só seria libertado em 1974, com o 25 de Abril.