Intervenção Marília Villaverde na homenagem aos Tarrafalistas

Intervenção Marília Villaverde na romagem ao mausoléu dos tarrafalistas no Alto de S. João

19 de Março e 2011

 

Amigos,


Agradecemos a vossa presença e permitam-me que destaque a presença do nosso companheiro tarrafalista José Barata, o que muito nos honra e nos enche de alegria.

 

Estamos a terminar esta Homenagem e outra Jornada nos espera para continuarmos a luta para que o nosso Povo, agora em liberdade, não veja ainda mais defraudadas as esperanças que o 25 de Abril  trouxe.


Amigos

 

Esta homenagem nunca foi para a URAP uma efeméride de calendário. Fazemo-la todos os anos, porque temos esse dever. Porque é preciso combater o esquecimento do que foi o fascismo e do  que foi a Resistência. O grande combatente  Francisco Miguel, o último preso português a sair do Campo de Concentração do Tarrafal, deixou-nos este apelo:


Antifascista, democrata, homem progressista: quando pensares nos direitos da pessoa humana não esqueças o Tarrafal. Se queres defender a liberdade, construir e consolidar a verdadeira democracia, faz alguma coisa para que o fascismo não possa voltar mais à terra portuguesa".


Vivia-se o ano de 1936. Em Espanha, irrompia a Guerra Civil. Em Portugal, Marinheiros do navio Afonso de Albuquerque, solidários com os republicanos recusaram-se a desembarcar em portos franquistas. Considerados perigosos revoltosos, foram presos e expulsos da Armada. Mas os Marinheiros não ficaram parados e levantaram-se contra aquelas prisões e expulsões da Marinha  de Guerra e também contra o apoio que Salazar prestava a Franco. A revolta foi sufocada de uma forma violentíssima: bombardearam os navios, prenderam os revoltosos e condenaram-nos a pesadas penas. Este Movimento, o 8 de Setembro,  dirigido pela ORA  - Organização Revolucionária da Armada, assustou  Salazar que, praticamente, de imediato, manda abrir um Campo de Concentração na ilha de Santiago - o campo de concentração do Tarrafal, também conhecido pelo campo da morte lenta e onde Salazar pretendia assassinar os resistentes mais combativos, longe das suas famílias, das suas terras e da opinião pública.


Eram jovens, na força da vida, amavam o seu país e o seu povo, mas em vez da felicidade a que tinham direito,  foram lançados para um campo de paludismo e de morte!


O campo era um rectângulo de uns duzentos por trezentos passos, circundado por uma vedação feita de arame farpado e de toros de madeira. Os ventos traziam os cheiros imundos, empestando a atmosfera e espalhando o mosquedo.

 

Alguns destes elementos que referi, retirei-os de depoimentos dos nossos heróis tarrafalistas. Depoimentos que fazem parte da nossa História, da História de Portugal, mas esta parte da História é ocultada e, os nossos jovens não a vão ler nas escolas e, se não formos nós,  não ficarão a saber que, em Portugal, houve sempre, através dos tempos, uma juventude que lutou, que sacrificou a sua liberdade e até a sua vida por ideais de justiça,  de liberdade e de paz. Por isso, é tão importante a nossa vinda aqui. É um modesto contributo para lembrar os crimes que foram cometidos nesse terrível local onde se ia para morrer. Esse Campo de concentração durou 18 anos. Encerrado devido à denúncia nacional e internacional que os democratas levaram a cabo.

Mas nós, não podemos esquecer também que, anos mais tarde, o campo foi reaberto como prisão para os patriotas das guerras coloniais. Foi por essa razão que a URAP esteve presente em Cabo Verde em 1 de Maio de 2009, num Simpósio Internacional e, como foi proposto, consideramos de grande importância que se faça do Campo de Concentração um Memorial Internacional de evocação à memória de luta dos povos pela Liberdade, para que  as gerações futuras não possam esquecer as atrocidades cometidas e também uma manifestação de respeito pela memória daqueles que deram o melhor das suas vidas e  muitos, as próprias vidas,  para que fosse possível um mundo mais justo. E, como eles próprios diziam:


"É muito grande a força de um homem que se bate por razões justas que o engrandecem e não quer abdicar do respeito por si próprio. No Tarrafal éramos muitos os que assim pensavam e sentiam e mútuo era o amparo e mútuas as palavras de encorajamento.  Cercaram-nos de arame farpado, de mar, de muitas muralhas de isolamento e todas elas derrubámos. Mas a que construímos com a nossa firmeza, a nossa convicção num futuro que iria abater os fascistas, essa não a demoliram os carcereiros. E os vencedores fomos nós".

Amigos,


Numa situação muito diferente  que vivemos hoje, mas em que muitas vezes a esperança nos parece fugir, é bom lermos estas palavras. São um incentivo para continuarmos o combate contra o esquecimento e pelos ideais que nortearam o 25 de Abril.


25 de Abril Sempre!


Fascismo nunca mais!




Lisboa, 19 Março/2011

Marília Villaverde Cabral